Em um único dia, um passeio pelo Brasil, Venezuela e Guiana
Quando o telefone do hotel em Santa Elena de Uairén tocou, do outro lado uma voz venezuelana me disse “son la seis de la mañana”. O café com leite foi em bom português, perto de Pacaraima (RO). Já o almoço, ah, o lunch, em very clear english, na cidade guianense de Lethem. E o pôr do sol, de novo, no Brasil. Confuso, mas me explico.


Entrada Venezuelana na fronteira com o Brasil em Uiáren
Divulgação/Tô Longe de Casa
Quando o telefone do hotel em Santa Elena de Uairén tocou, do outro lado uma voz venezuelana me disse “son la seis de la mañana”. O café com leite foi em bom português, perto de Pacaraima (RO). Já o almoço, ah, o lunch, em very clear english, na cidade guianense de Lethem. E o pôr do sol, de novo, no Brasil. Confuso, mas me explico.
Estar num único dia na Venezuela, no Brasil e na Guiana, ex-colônia inglesa, me abriu a cabeça sobre a amplidão de nossas fronteiras. Apenas 200 quilômetros separam Santa Elena de Uairén (ao norte) e Boa Vista; Lethem (a leste), cidade fronteiriça da Guiana, está a outros 125 quilômetros da capital roraimense. As duas principais estradas de Roraima, a BR-174 e a BR-401, estão impecáveis – aliás suas infinitas e sonolentas retas requerem atenção.
Independente desde 1966, mas ainda com forte influência britânica, a Guiana diverte já na chegada. Após cruzar o Rio Tacutu e o posto de fronteira, surge um inesperado viaduto – aparentemente ligando o nada a lugar nenhum -, cuja função é colocar o motorista na mão inglesa. Pasmem! A 125 quilômetros de uma capital brasileira as pessoas falam e dirigem em mão inglesa Nunca cogitei isso.
Pequenina, com pouco mais de 3 mil habitantes, a cidade vale pelo inusitado. Roraimenses vêm fazer compras aqui, em galpões que vendem produtos importados da China. De comida a panela, de perfume a celular. A presença de chineses impressiona. No entanto, o que chama mais a atenção são as misturas.
No delicioso restaurante Creole Corner (604-7762), da simpaticíssima Betty James King, o principal prato é frango assado com arroz espanhol (R$ 15) – um detalhe, ela é negra, descendente de escravos, que os ingleses começaram a trazer no século 16. “Pode aparecer aqui a qualquer hora que eu tenho comida. A minha inspiração é cozinhar, amo isso aqui”, diz.
Os negros africanos foram a primeira onda migratória na Guiana e passaram a conviver com os índios da região. Porém, no início do século passado, os ingleses delegaram a alguns indianos a gestão de fazendas e empreendimentos.
Ao desviar da arara de estimação e entrar na cozinha de Betty, dei de cara com o retrato vivo da miscigenação. “Meu pai é indiano e minha mãe, índia macuxi. Mal falo português. Meu pai reclama, mas em casa só falamos macuxi”, conta, em inglês, a assistente de cozinha Betsy Barran, de 22 anos, enquanto prepara um frango ao curry. Recapitulando: índios nativos, ingleses, escravos africanos, indianos e brasileiros. Ah, há cerca de 20 anos ainda vieram os chineses. Por sinal, nunca tinha visto chinês da pele negra.
Na rua, algumas crianças indo para a escola com o típico uniforme inglês, gravata e camisa e saia rodada para as meninas. Outros brincam nas águas de um buritizal. O clima é de faroeste, mais pela distância entre as construções e pelas ruas de terra do que por qualquer outra coisa. Na Semana Santa, Lethem celebra a miscelânea local com o Rupununi Day, festa com cara de rodeio que reúne tradições inglesas e indígenas.
Despedida em grande estilo. Depois de um dia em três países distintos, nada como um entardecer em casa. Na fronteira com a Guiana, na cidadezinha de Bonfim, fica a Fazenda Buritizal Grosso, com porteiras abertas para qualquer visitante – e de graça. Não hesite em nadar na lagoa, tendo como cenário as Kanaku Mountains, cujo nome não o deixará esquecer que estão logo ali, no país vizinho.
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