Islândia, onde a força da natureza é atração turística

A aurora boreal e um vulcão em erupção nos mesmos espaço e tempo. Existe um lugar onde é possível ter as duas experiências exatamente agora: a Islândia. Desde agosto, o Holuhraun tem cuspido lava incandescente para fora da cratera, avermelhando o céu sobre a brancura absoluta de campo gelo que o rodeia, o Vatnajökull, maior glaciar da Europa.

Escrito por: Daniel Nunes Gonçalves4 min de leitura
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Vulcão Bardarbunga é o causador das erupções no vizinho Holuhraun

Divulgação/RUV

A aurora boreal e um vulcão em erupção nos mesmos espaço e tempo. Existe um lugar onde é possível ter as duas experiências exatamente agora: a Islândia. Desde agosto, o Holuhraun tem cuspido lava incandescente para fora da cratera, avermelhando o céu sobre a brancura absoluta de campo gelo que o rodeia, o Vatnajökull, maior glaciar da Europa.

O Holuhraun é vizinho do Bardarbunga, que tem levado a fama e é, sim, o causador da erupção. Mas a lava que brotou dele seguiu por um canal subterrâneo e acabou vindo à superfície no vulcão vizinho.

Vista de longe, a ressurreição ganhou uma aura mágica em algumas noites de setembro, quando as primeiras auroras boreais da temporada deram o ar da graça. Luzes verdes, brancas e roxas têm sido vistas dançando nos céus islandeses, levando ao êxtase os viajantes.

Essa remota ilha do Atlântico Norte, que fica a 3 horas de voo de Londres, já está acostumada com shows da natureza. No verão, entre junho e agosto, ela é a terra do sol da meia-noite, com alguns dias sem um minuto sequer de escuridão.

Seu clima sempre mutante faz com que os arco-íris – por vezes, duplos – sejam algo corriqueiro: podem surgir despontando perto de um gêiser e tocando de volta o solo em uma praia de areia negra onde se pode recolher cacos de gelo como se fossem conchinhas. Agora, quando o inverno se aproxima congelando lagos, as auroras passam a colorir noites cada vez mais longas.

Até recentemente, pouca gente viajava para essa ilha de geografia particular, onde hoje é possível sobrevoar crateras fumegantes, fotografar nuvens em forma de borboletas verdes à noite e caminhar em glaciares que cobrem 15% da ilha, que tem ainda mais de 20 vulcões ativos. Isolada da civilização até o século 9º, quando os primeiros colonos noruegueses se estabeleceram e abriram caminho para imigrantes vikings e celtas, o lugar desenvolveu uma cultura peculiar.

Por séculos a economia e a alimentação foram baseadas na pesca, as casas de pedra tinham cobertura térmica de turfa e os islandeses enfrentavam seus longos e tenebrosos invernos recolhidos, contando lendas medievais e recitando poesias dos Eddas, conjunto de lendas que fazem parte da tradição oral do país. Dominada pela Dinamarca desde 1380 até conquistar a independência, em 1944, a Islândia abriu a economia nos anos 1990 e enriqueceu.

Até que veio a kreppa (crise financeira). Em 2008, a bolha sobre a qual a Islândia baseou seu forte sistema financeiro explodiu como um vulcão. Os três maiores bancos do país quebraram e o desemprego subiu às alturas das auroras boreais escandinavas. Até McDonald’s e Pizza Hut de Reykjavik fecharam suas portas. A crise que assolaria boa parte da Europa interrompeu insclusive a construção da casa de ópera Harpa. O desemprego cresceu vertiginosamente e as antes irrisórias taxas pagas pelo aquecimento das casas disparou.

Retomada
Sete anos depois, a quebradeira já é vista como coisa do passado A prosperidade econômica vem sendo retomada aos poucos. E o turismo tem contribuição importante na nova fase. “Antes da crise, não nos víamos como um lugar turístico”, conta o guia Magnus Johannsson, que adotou o segundo ofício de orientar turistas quando não está trabalhando como pintor de casas. No último verão, foi ele quem trocou de preto para branco a cor do lar de ninguém menos que a cantora Björk, personalidade mais famosa do país.

Mais que a artista, quem difundiu a beleza da Islândia foi Eyjafjallajökull, o vulcão cujas cinzas pararam o tráfego aéreo europeu em 2010. “Publicidade ruim é melhor que nenhuma publicidade”, diz o prefeito de Reykjavik, Dagur Eggertsson, que viu o número de hotéis, antes escassos, disparar para 40. Nos últimos dez anos, a quantidade de viajantes mais que dobrou no país. Em 2013 foram 781 mil.

“Decidimos mostrar ao mundo que as pessoas são bem-vindas”, diz.

O fluxo de visitantes brasileiros também aumentou. “Em 2013, a procura pela Islândia cresceu 40%”, diz o CEO da Teresa Perez Tours, Tomas Perez, sobre sua operadora. “São clientes que já conhecem a Europa e são fascinados pela natureza”, diz.

Os islandeses, por sua vez, expandiram os negócios. O fazendeiro Knútur Ármann, que tinha uma estufa de produção de tomates em sua Fridheimar Horsefarm (fridheimar.is/en), decidiu abri-la à visitação e exibir seus cavalos, outro orgulho islandês. Os cavalos e tomates atraíam 900 turistas em 2008, e 50 mil em 2013 Foi preciso até abrir um salão para servir suco, sopa e geleia de tomate – além do licor de björk, outro nome para birch, árvore nativa da ilha.

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