Entre ficção e realidade, livro traz olhar sensível sobre as adversidades

“O Corpo em Que Nasci” traz um longo depoimento da narradora no divã de um analista, lembranças dos acontecimentos que marcaram sua infância e adolescência no duro caminho do autoconhecimento.

Escrito por: Conteúdo Estadão2 min de leitura
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 Logo no início de “O Corpo em Que Nasci” (Rocco), a narradora conta que, ainda criança, era obrigada a andar com um curativo tapando um dos olhos – justamente o saudável, pois o outro apresentava uma obstrução de nascença da pupila. Segundo os médicos, a intenção era estimular o desenvolvimento do “defeituoso”. O que acontece, no entanto, é que a menina, além de sofrer uma tontura constante, era obrigada a tatear um mundo formado por borrões sem forma, além de enfrentar os comentários maldosos dos colegas de classe.

A mexicana Guadalupe Nettel também nasceu com um olho que lhe oferecia apenas 10% da visão. Antes de levá-la a uma reclusão, o problema incitou sua carreira literária, especialmente ao tratar de temas que trafegam no tênue limite entre normalidade e anormalidade – e também como as fronteiras entre ficção e realidade aparecem irremediavelmente borradas para o leitor.

“O Corpo em Que Nasci” traz um longo depoimento da narradora no divã de um analista, lembranças dos acontecimentos que marcaram sua infância e adolescência no duro caminho do autoconhecimento. No meio do caminho, é atropelada pela sinceridade dilacerante dos pais e suas respostas honestas demais para sua pouca maturidade – em vez de fomentar respostas, as observações paternas deixam a menina ainda mais confusa.

Para completar o quadro sombrio, há a vizinhança formada por exilados argentinos e chilenos fugidos de ditaduras, cujas crianças não conseguem esconder o olhar triste. Mas, acredite, a narrativa de Guadalupe guarda também bons momentos de humor.

O CORPO EM QUE NASCI

Autora: Guadalupe Nettel

Tradução: Ronaldo Bressane

Editora: Rocco (224 págs., R$ 34,50)

Divulgação

Capa do livro

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