Obras do pintor Antonio Bandeira oscilam entre R$ 500 mil e R$ 10 milhões

Apenas quatro artistas brasileiros têm sua obra compilada num catálogo raisonné: Portinari, Iberê Camargo (obra parcial com as gravuras), Tarsila do Amaral e Volpi. O quinto será o cearense Antonio Bandeira, nascido em Fortaleza em 1922, que viveu em Paris, cidade em que também morreu, no dia 6 de outubro de 1967, após ser internado […]

Escrito por: Antonio Gonçalves Filho4 min de leitura
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Pioneiro da pintura abstrata no Brasil, o pintor cearense Antonio Bandeira (1922-1967) deve ganhar dois catálogos - Obra Paisagem Azul

Apenas quatro artistas brasileiros têm sua obra compilada num catálogo raisonné: Portinari, Iberê Camargo (obra parcial com as gravuras), Tarsila do Amaral e Volpi. O quinto será o cearense Antonio Bandeira, nascido em Fortaleza em 1922, que viveu em Paris, cidade em que também morreu, no dia 6 de outubro de 1967, após ser internado numa clínica para retirar pólipos nas cordas vocais. A voz grave desapareceu, mas os traços de sua passagem pela Europa estão registrados em desenhos, aquarelas, pinturas e outras obras sobre os quais se debruça uma equipe com 10 pesquisadores da Base7 Projetos Culturais, sob a coordenação da museóloga Maria Eugênia Sartuni e do diretor da empresa, Ricardo Ribenboim.

Com patrocínio da Fundação Edson Queiroz, mantenedora da Universidade de Fortaleza (Unifor), o catálogo de Bandeira começou a ser preparado há dois anos para oferecer, num primeiro momento, dois volumes (de 400 páginas) com o inventário parcial da produção do artista, um pioneiro do abstracionismo informal no Brasil. A catalogação das obras não se limita ao território brasileiro. Há também pesquisadores fazendo o levantamento dos trabalhos de Bandeira na França, onde fixou residência em 1946, ao ganhar uma bolsa do Itamaraty, integrando-se ao grupo de artistas da Escola de Paris. Lá também estudou desenho com Narbone e gravura com Calanis.

No começo, tinha pouco dinheiro para comprar telas e fazia mais desenhos e guaches, até mesmo porque morava numa minúscula mansarda de 9 metros quadrados. Com o tempo, aproximou-se dos pintores da abstração lírica europeia e chegou a ficar íntimo de pintores reconhecidos como Camille Bryen (1907-1977) e Alfred Otto Wolfgang Schulze (1913-1951) – há versões que garantem ter o trio formado um grupo, o Banbryols, produzindo obras em conjunto. “Temos uma documentação razoável sobre essa época (final dos anos 1940) e a informação de que existiria, de fato, um trabalho a seis mãos, mas não localizado”, conta Maria Eugênia Sartuni, que, num levantamento preliminar, já registrou 1.900 peças para o primeiro catálogo parcial, que será lançado em 2017.

O marchand e editor Max Perlingeiro, da Pinakotheke Cultural, calcula que Bandeira tenha produzido mais de 4 mil peças. Perlingeiro, que comercializa e vende a obra do pintor há mais de 30 anos, é um profundo conhecedor de sua trajetória e publicou, em 2006, o catálogo de uma exposição organizada por ele, em que revelou documentos históricos como fotos de um filme inédito dirigido por Flávio de Carvalho (1899-1973), Péripherie, realizado em 1965.

“Bandeira saiu do Brasil expressionista e voltou abstrato, contrariando críticos e colegas brasileiros”, observa Perlingeiro, referindo-se ao retorno do pintor ao País em 1951, justamente o ano da primeira Bienal de São Paulo, que consagrou o abstracionismo, e de sua primeira exposição individual aqui, no MAM/SP, em abril daquele ano. Ele voltaria à França em 1954, alternando residência entre Paris e sua terra, mas sempre fiel ao tachismo, o equivalente francês ao expressionismo abstrato norte-americano. Detalhe: e saudoso da paisagem brasileira – há referências diretas à luminosidade tropical, sem que isso represente a cegueira monocromática de Reverón, mas afirme, ao contrário, a exuberância cromática do Brasil.

Pioneiro da pintura abstrata no Brasil, o pintor cearense Antonio Bandeira (1922-1967) deve ganhar dois catálogos

“Temos feito pesquisas exaustivas para conhecer o histórico da procedência das obras, as datas em que elas foram expostas, os títulos e os prêmios, pois o raisonné será feito nos moldes do catálogo de Tarsila”, diz Ricardo Ribenboim, da Base7, anunciando uma exposição, em 2017, de peças raras do pintor, na Unifor. Em termos comparativos, o catálogo de Tarsila previa algo em torno de 1.200 obras e acabou incorporando 2.232, mais ou menos o número de trabalhos registrados no catálogo de Volpi. Portanto, é possível que Perlingeiro esteja correto: o número de obras de Bandeira deve chegar a 4 mil.

O sobrinho de Bandeira, Francisco, diz que ainda não assinou contrato com o marchand para a elaboração de um raisonné. “Só temos um acordo com a Fundação Edson Queiroz e a Base 7”, confirma. A empresa que faz a catalogação desenvolveu um banco de dados para cruzar diversas informações como fortuna crítica e percurso das mostras de Bandeira, oferecendo à análise de uma comissão técnica dados que permitirão um quadro de referências confiável sem que isso signifique atestar a autenticidade dos trabalhos.

Filme inédito
Entusiasta da obra de Antonio Bandeira, o marchand e editor Max Perlingeiro descobriu que a vocação experimental do pintor – que usou em suas obras materiais insólitos como couro, madeira e folha de flandres – o levou ao cinema. Em 1965, sob a direção do pintor Flávio de Carvalho, ele e a atriz Maria Fernanda, filha da poeta Cecília Meireles, foram filmar na periferia de São Paulo. O filme, inédito, chamava-se Périphérie e tinha como diretor de fotografia o primeiro diretor do Masp, Pietro Maria Bardi, um dos primeiros a apoiar Bandeira, que o comparou a Segall e Portinari. Isso em 1964.

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