Obras do pintor Rodrigo Andrade vão à exposição
Aberta nesta quarta-feira, 8, ao público, a exposição Pinturas de Onda, Mato e Ruína reúne 33 óleos do pintor Rodrigo Andrade, cuja obra mais recente é analisada no livro Resistência da Matéria (Editora Cobogó, 224 págs., R$ 140), lançado nessa terça, 7, na Galeria Millan. O livro, organizado por Tiago Mesquita, crítico e professor de História…

Aberta nesta quarta-feira, 8, ao público, a exposição Pinturas de Onda, Mato e Ruína reúne 33 óleos do pintor Rodrigo Andrade, cuja obra mais recente é analisada no livro Resistência da Matéria (Editora Cobogó, 224 págs., R$ 140), lançado nessa terça, 7, na Galeria Millan. O livro, organizado por Tiago Mesquita, crítico e professor de História da Arte, contempla os últimos cinco anos de produção do artista, igualmente analisados pelo crítico Lorenzo Mammì, que acompanha a trajetória de Andrade desde os tempos em que integrava o grupo Casa 7, nos anos 1980.
Embora não seja um retorno à afirmação matérica desses tempos neoexpressionistas, a mostra tem seu foco na materialidade da tinta. Andrade aplicou espessas camadas em telas de diferentes dimensões para confrontar ilusionismo e mundo real. São paisagens que retomam imagens tanto do passado (as marinhas de Whistler) como do presente (as fotografias de ondas de Daido Moriyama e os bosques de Don McCullin).
Nessa revisitação de autores de vários períodos (de Corot a Andy Warhol, passando por Courbet e Goeldi), Andrade não pretende defender uma tese visual ou criar, como observa o crítico Lorenzo Mammì, um jogo de citações, como na arte pop – e o nome de Andy Warhol surge automaticamente na história. Ao contrário: ondas evocam Moriyama e bosques remetem a McCullin e Courbet, mas conservam o traço subjetivo nessa obra que, paradoxalmente, busca seu modelo no mundo real visto pelo olhar do outro.
Courbet é, segundo Mammì, “uma passagem obrigatória” para a pesquisa que o pintor conduz desde que apresentou, em 2010, na 29ª. Bienal de São Paulo, uma série de óleos com imagens noturnas conhecidos como “pinturas negras”. Se Courbet pintava o mundo como se desejasse substituí-lo por uma tela, Andrade não chega a tanto, mas não é por acaso que suas telas de grandes formatos têm a ver com o pintor francês, como observa Mammì. “Não há luz nas telas de Courbet, quase não há ar: só pintava o que é sólido.” Até o céu de Courbet, conclui o crítico, “é sempre encoberto por nuvens espessas”.
Na “matéria negra” das pinturas da Bienal, o embate de Andrade com a treva equivale ao do venezuelano Reverón (1889-1954) com a luz dos trópicos. Tiago Mesquita chega a comparar o negrume dessas telas à treva na qual vivem os peixes das fossas abissais, a quilômetros da superfície. É um mundo noturno, como o de Goeldi. E com uma precisão gráfica comparável ao requinte de Goeldi. Mesquita observa que, ao mesmo tempo, se dá a destruição da imagem e sua reconstrução nas telas de Andrade, reforçando, num jogo ambíguo, o ilusionismo e o antiilusionismo. A foto maior desta página é um exemplo disso: um tsunami já arrasou o território retratado, transformando-se numa imagem espessa que inunda a tela e afirma a autonomia da pintura, não mais dependente da referência inicial (uma foto).
Imagens públicas, tomadas de empréstimo à internet ou aos autores citados, acabam moldadas por essa pintura matérica, que “oscila entre o ilusionismo e o antiilusionismo” – e o pintor evoca o historiador Huizinga para assumir a ilusão como um jogo, não uma tentativa de enganar o olho. “Existe um desejo de resgatar a relação contemplativa com o mundo, como nos tempos dos românticos, mas o embate com a realidade e minha necessidade de ruptura constante me empurram sempre para o movimento”, admite Andrade, que se define como um pintor “ultrafigurativo num meio abstrato”.
O cinema atrai sua atenção – e ele fez paisagens baseadas em filmes de Tarkovski, Kubrick, Hitchcock e Karin Aïnouz -, mas a fotografia e a pintura são ainda as principais referências de Andrade. Na exposição, duas telas verticais pequenas usam como ponto de partida uma foto do alemão August Sander (1876-1964), mais conhecido como retratista, que registra um bosque de árvores secas.
Em outro trabalho, ele revisita as ruínas romanas pintadas por Corot numa vista soturna do Palatino. E, para afirmar o caráter gráfico da camada espessa de tinta, Andrade recorre mais uma vez a Goeldi. E revela: a Paragon de Londres o convidou para fazer uma série de gravuras. Ele aceitou. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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