Tattoo Ink em São José: o parque de diversões dos incomuns
A diferença nos olhares é nítida. Aqueles que trabalham com tatuagem não se espantam com artes de corpo inteiro, desenhos em couro-cabeludo e alargadores de orelha do tamanho de garrafas de refrigerante de 600 ml. Eles circulam como convivas. Os visitantes, entusiastas do tema, olham maravilhados para esse mundo incomum de cores e formas registradas em pele.














A diferença nos olhares é nítida. Aqueles que trabalham com tatuagem não se espantam com artes de corpo inteiro, desenhos em couro-cabeludo e alargadores de orelha do tamanho de garrafas de refrigerante de 600 ml. Eles circulam como convivas. Os visitantes, entusiastas do tema, olham maravilhados para esse mundo incomum de cores e formas registradas em pele.
Os stands do 2º Tattoo Ink International Convention, que acontece até domingo (31) no Expo Vale Sul, em São José dos Campos, oferecem o que amantes de tatuagem querem: dezenas de espaços para estúdios de tatuagem, piercing, body modification e maquiagem definitiva. São mais de 70 tatuadores, metade deles estrangeiros. Com ingressos a R$ 20, o evento espera 20 mil visitantes.
De cara, o tipo que chama mais atenção é o tatuador Maycoln Tarasevic. Tem o corpo inteiro tatuado, inclusive o rosto. O desenho é de esqueleto em pigmento escuro. Bochecha, nariz, pálpebra: tudo tatuado. E o que parecem lentes oculares também são tatuagens. Maycoln tem os olhos completamente tatuados, tornando-o, em aparência, num ser soturno, quase amedrontador, até o artista abrir um sorriso e falar: “E aí, beleza?”.
“Tenho a ‘tattoo” no olho faz um ano e oito meses, então agora dá para olhar tudo, sim”, diz o paulistano de 23 anos, sugerindo que os primeiros dias pós-tattoo não foram fáceis. Quando vai pagar contas no banco ou fazer compras, Maycoln conta que o assédio é “positivo”, com muita gente querendo tirar foto. “A criançada adora”, fala a pessoa tranquila por trás da camada bizarra de tinta.
Por trás da tenda do tatuador, aparece um casal de senhores com o mesmo sorriso de Maycoln. São os pais dele, Mário e Maria Tarasevic. “Olha, na nossa época não tinha tatuagem, mas se tivesse eu acho que faria sim”, acredita Maria, com a aprovação do marido. O casal de 73 anos respeita o gosto e o trabalho do filho, dizendo que tem o dever de apoiá-lo.
Significado
Não pergunte para ninguém no Tattoo Ink sobre o significado de suas tatuagens. Questionamentos feitos pela reportagem do tipo: “Por que você gosta dessa?”, ou “o que você lembra dessa outra?”, foram seguidos de respostas como “ah, eu gostei e fiz”, “achei bonito e resolvi fazer” e similares.
O analista de suporte e fotógrafo Diego Montoani, 26 anos, apoia sua perna esquerda num pacote de papel higiênico para tatuar um casal de vampiros ensanguetados. Em cada coxa estão retratos do roqueiro James Hetfield e de Johnny Depp como “O Chapeleiro Maluco”, do filme “Alice no País das Maravilhas”, todas muito coloridas.
“Não penso muito antes de fazer não. Gosto do desenho e faço. Peraí, essa parte é f…”, interrompe, quando a agulha fere a pele de sua panturrilha, liberando o sangue que todos ali já estão habituados a ver. Em seu peito ficam gravadas as digitais do filho de 9 meses de idade.
Crianças
Além de receber Sabrina Bong Bong, Bel Boreck e o concurso de Miss Tattoo Ink há o Espaço Kids, cujo objetivo é entreter os filhos dos visitantes com pinturas e maquiagens temporárias.
Marcella, 9 anos, filha da tatuadora Cris Corrêa, 30 anos, tem o rosto maquiado de Catrina, uma dama lendária da Festa do Dia dos Mortos, do México. A mãe diz esperar a filha completar 16 anos para liberá-la para a primeira tatuagem. “Quero fazer de todos os personagens do Hora da Aventura [desenho animado]”, fala a pequena.
O organizador da conferência é Jorge Vargas ou, com nome artístico, Ryu Family, 36 anos. Hoje, o japonês de mãe peruana e pai norte-americano comanda um estúdio de tatuagem em São José dos Campos, mas há quase meia década ele prestava seus serviços artísticos à máfia japonesa.
“Era um esquema muito perigoso. Saí por causa do meu filho que tinha nascido. Já vi amigos meus com dedos e mãos quebradas por causa da máfia”, lembra Vargas, que tem o rosto tatuado com dizeres em japonês. Sobre o Tattoo Ink, Ryu diz que não produz o evento apenas por dinheiro, “foi assim que fiz grandes amigos”.
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