Tino Sehgal apresenta suas obras no Brasil pela primeira vez
“Se um visitante estiver só, deixe-o só por um momento antes de abordá-lo. O importante é que ele entenda que há um movimento aqui. O trabalho do Tino é único porque trabalha com a interação, a experiência do outro faz parte da obra”, explica o produtor americano-paquistanês Asad Raza a um grupo de 28 pessoas, na manhã de terça-feira, 25, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio. Poucos minutos depois, como parte da dinâmica, um menino chega até a repórter e começa a contar uma história sobre como descobriu, quando tomou um choque trocando uma lâmpada em sua casa, que a eletricidade conecta as pessoas com o mundo. A narrativa é rápida, “com precisão”, como havia pedido Asad Raza ao grupo.


Legenda da foto
Marcos de Paula/Estadão Conteúdo
“Se um visitante estiver só, deixe-o só por um momento antes de abordá-lo. O importante é que ele entenda que há um movimento aqui. O trabalho do Tino é único porque trabalha com a interação, a experiência do outro faz parte da obra”, explica o produtor americano-paquistanês Asad Raza a um grupo de 28 pessoas, na manhã de terça-feira, 25, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio. Poucos minutos depois, como parte da dinâmica, um menino chega até a repórter e começa a contar uma história sobre como descobriu, quando tomou um choque trocando uma lâmpada em sua casa, que a eletricidade conecta as pessoas com o mundo. A narrativa é rápida, “com precisão”, como havia pedido Asad Raza ao grupo.
O exercício é preparativo para a realização de These Associations (Essas Associações), uma das “situações construídas” do celebrado artista inglês Tino Sehgal que será apresentada por seis semanas, a partir de 12 de março, para o público do CCBB do Rio. Depois, entre 22 de março e 4 de maio, serão os visitantes da Pinacoteca do Estado, em São Paulo, que presenciarão recriações com bailarinos e cantores das peças Kiss, This Is Good e This Is Propaganda do criador que vive em Berlim. Vencedor, aos 37 anos, do Leão de Ouro na última Bienal de Veneza, em 2013, Tino Sehgal é definido pelo produtor e curador de sua mostra no CCBB, Marcello Dantas, como o “rolezinho da arte contemporânea”. Ele está no Brasil pela primeira vez e tem consciência de seu momento de glória no circuito da arte. “É mais fácil entender que meu trabalho é arte do que uma pintura, por isso faço tanto sucesso com essa idade”, diz.
Suas “situações construídas”, define o artista, rechaçando o termo performance – são apresentadas em instituições e nos maiores eventos de arte mundo afora, como a Tate de Londres ou a Documenta 13 de Kassel, com uso de participantes selecionados pelo artista e sua equipe (todos recebem cachês) e para serem vistas e experimentadas pelo público nos locais por um determinado período “expositivo”. Na Bienal de Veneza, o visitante era surpreendido por rompantes de ações de bailarinos nas salas do Pavilhão Biennale nos Giardini. Outras criações do artista já foram, por exemplo, colocar um guarda de museu para tirar a roupa ou uma criança como monitora de exposição.
Para o visitante, não há texto, faixa, banner, legenda de parede que indiquem o fato de ali ocorrer uma obra do inglês, filho de indiano com uma alemã, formado em política econômica e dança. Para interessados em geral, não há catálogos nem outra documentação oficial dos trabalhos de Sehgal. Os espaços estão em branco, apenas abrigando as ações. Mesmo assim, museus colecionam as peças do artista, como o MoMA de Nova York, que adquiriu a obra Kiss, na qual bailarinos encenam beijos retratados em pinturas – uma das situações que ocorrerão na Pinacoteca.
Pertencimento. No Rio, 230 pessoas selecionadas por produtores do artista, candidatos de diversas formações e atividades, de 17 a 83 anos (e há até uma mãe com um bebê), vão se revezar em turnos de três horas, conta a assistente de direção, Iaci Lomarco, para promover a peça These Associations com o público do CCBB. A ideia é a de que os participantes compartilhem com os visitantes (melhor, os desavisados) da instituição carioca suas histórias pessoais baseadas em experiências sobre a questão do pertencimento.
“Essa obra de interação é uma porta aberta para se pensar como viver melhor nesse caos todo, nesse Rio de Janeiro cheio de construções para a Copa”, afirma o bailarino e professor Diego Dantas, de 28 anos, um dos escolhidos para trabalhar na mostra do inglês. O bailarino conta que se inscreveu no processo de seleção indicado por uma amiga. “Não conhecia o trabalho do Tino Sehgal, tinha visto até então apenas um vídeo no YouTube, apesar de ele estar na crista da onda.” “A simplicidade de suas ações são carregadas de significado”, diz ainda Diego, completando que “o movimento da peça acontece pela interação” do grupo e dos visitantes. “É um trabalho sobre coletividade, mas, nesse momento, a individualidade das pessoas é colocada sob refletores”, explica, no ensaio, Asad Raza, que produziu as mostras do artista no Guggenheim de Nova York e na Tate Modern.
Já em São Paulo, foram selecionados 28 bailarinos e cantores para apresentarem as três peças de Sehgal. A cada turno, 5 pessoas vão surpreender os visitantes do museu cantando, por exemplo, manchetes de jornais no segundo andar e na bilheteria da Pinacoteca.
TINO SEHGAL – Centro Cultural Banco do Brasil-Rio de Janeiro. Rua Primeiro de Março, 66, Centro, tel. (021) 3808-2020. De 4ª a 2ª, das 9 h às 21 h (fecha 3ªs). De 12/3 a 21/4.
Pinacoteca-São Paulo. Praça. da Luz, 2, tel, 3324-1000. De 3ª a dom., das 10 h às 17h30 (5ª fecha às 22 h). R$ 6 (5ª – depois de 17h30 – e sáb. grátis. Crianças até 10 anos e idosos maiores de 60 não pagam). De 22/3 a 4/5.
A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA PRODUÇÃO DA MOSTRA NO CCBB-RIO
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