2 – Flamengo se põe em risco, mas também capitaliza ao se isolar
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em reunião dos clubes da Série A do Brasileiro em 2004, um dirigente de um grande clube de São Paulo saiu espantado com o pensamento que considerou pequeno dos cartolas do Flamengo. Questionou o que aconteceria quando o clube carioca tivesse um presidente que, nas suas palavras, “soubesse contar”. Quinze anos depois…

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em reunião dos clubes da Série A do Brasileiro em 2004, um dirigente de um grande clube de São Paulo saiu espantado com o pensamento que considerou pequeno dos cartolas do Flamengo. Questionou o que aconteceria quando o clube carioca tivesse um presidente que, nas suas palavras, “soubesse contar”.
Quinze anos depois o Flamengo teve a maior arrecadação do futebol brasileiro (R$ 950 milhões) e montou o time mais valioso do país. Venceu Estadual, Brasileiro, Libertadores e perdeu para o Liverpool o Mundial de Clubes apenas na prorrogação.
Especialmente a partir do fim de 2019, o clube carioca começou também a se envolver em uma série de polêmicas fora de campo, nenhuma que tenha provocado tanta reação nos bastidores quanto a tentativa frustrada de adiar a partida contra o Palmeiras, no domingo (27), por causa de 19 casos de Covid no elenco.
Seus defensores viram nisso, e nas outras posturas assumidas pelo Flamengo recentemente, apenas a luta pela defesa dos interesses da agremiação. Mas presidentes de outros times da elite nacional ouvidos pela reportagem consideraram que o ato mais recente colocou em risco a realização do Campeonato Brasileiro.
Antes disso, o Flamengo aliou-se ao presidente Jair Bolsonaro, especialmente na figura do seu mandatário Rodolfo Landim, no lançamento da MP do Mandante, que altera regras de direitos de transmissão -o texto chegou a ser chamado de MP do Flamengo. O que levou a disputas judiciais com a Globo e atritos com o Fluminense relacionados à final do Estadual do Rio.
Mais recentemente, tornou-se o maior defensor da volta do torcedor aos estádios. Novamente, alinhado a Bolsonaro e em conflito com outras equipes, que defendem o retorno só quando houver autorização de público em todas as cidades com jogos.
Especialistas ouvidos pela reportagem divergem sobre um possível desgaste que essas posições e o isolamento na esfera esportiva possa gerar com patrocinadores.
“O clube teria um problema de imagem se estivesse associado à violência ou má gestão. O Flamengo toca sua agenda e isso pode criar descontentamento, mas não vejo desgaste”, diz o economista Cesar Grafietti, consultor de gestão e finanças do esporte.
Neste ano, o clube assinou com o BRB (banco cujo maior acionista é o governo do Distrito Federal) contrato para estampar a marca da empresa no uniforme por R$ 35 milhões anuais. Em 2019, os patrocínios renderam R$ 78 milhões, segundo o balanço financeiro do clube.
“A imagem da entidade Flamengo é difícil de arranhar, o consumidor final não percebe isso [desgaste pelo isolamento]. A não ser que seja algo que se prolongue por muito tempo”, diz Rafael Plastina, CEO da Sport Track, empresa que atua no mercado de inteligência e planejamento estratégico por meio do esporte.
Ele cita o exemplo da LG, que em 2001 negociava ser a patrocinadora do São Paulo, mas temia ser mal vista pelas outras torcidas. Pesquisa com 3.000 pessoas mostrou não haver relação entre a escolha do fabricante do aparelho eletrônico pelo consumidor e o time de preferência.
Benjamin Rosenthal, professor de marketing da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, tem opinião diferente. “Estar alinhado com o governo [Bolsonaro] é um ativismo político que pode afastar marcas. Em geral elas não querem ser associadas com entidades não liberais, pois temem uma pressão da sociedade.”
O presidente de um dos clubes da Série A do Brasileiro disse à reportagem no último domingo (27) que o problema atual da diretoria do Flamengo é ser adepta em excesso da “Lei de Gerson”, referência a um comercial de cigarro dos anos 1980 que encerrava com a frase: “brasileiro tem de levar vantagem em tudo”.
O descontentamento de outros dirigentes com um clube não é algo inédito. Diretorias de São Paulo (na década passada), Palmeiras (nos anos 1990) e Corinthians (nos primeiros anos deste século) receberam críticas semelhantes.
“A diretoria do Flamengo está olhando o conjunto do futebol e os outros atores como adversários, e não como entidades que são iguais e têm os mesmos interesses”, diz Luiz Peres Neto, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo da ESPM.
“A lógica do esporte é considerar o outro igual a você. Hoje você precisa de mim, amanhã eu preciso de você. Eu preciso de você para ter jogo. […] O Flamengo é o exemplo de caminhar para o egoísmo. É uma metáfora do que a gente vive no Brasil”, completa.
A reportagem tentou contato com o presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, e outros representantes da diretoria para tratar do assunto, mas não obteve resposta.
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