A audácia do maestro Trevor Pinnock
Depois de conquistar prestígio mundial dirigindo por três décadas o English Concert, grupo de música historicamente informada, entre 1972 e 2002, o cravista e regente inglês Trevor Pinnock vive, aos 67 anos, um momento particularmente gratificante em sua excepcional carreira. Atua agora como free lancer regendo também orquestras modernas…

Depois de conquistar prestígio mundial dirigindo por três décadas o English Concert, grupo de música historicamente informada, entre 1972 e 2002, o cravista e regente inglês Trevor Pinnock vive, aos 67 anos, um momento particularmente gratificante em sua excepcional carreira. Atua agora como free lancer regendo também orquestras modernas convencionais como a Orquestra de Câmara da Europa. Sua base é a Royal Academy of Music em Londres, escola onde estudou e retornou há poucos anos para dirigir projetos especiais. Como um particularmente notável: reviver a Sociedade de Execuções Musicais Privadas, projeto iluminista concebido por Arnold Schoenberg em Viena.
Por três anos, entre 1918 e 1921, Schoenberg manteve uma série de concertos para apresentar as novas obras em execuções de alto nível e iluminar as grandes obras sinfônicas do passado recente por meio de reduções para grupos camerísticos. Despidas do multicolorido da aquarela de timbres sinfônicos, afloravam as entranhas e a estrutura descarnada da composição.
O primeiro CD de Pinnock com músicos da Royal Academy, em 2013, reproduziu um programa da sociedade de Schoenberg: versões de Erwin Stein para o Prelúdio na Sesta de um Fauno, de Debussy, e a Quarta Sinfonia de Mahler. Outros grupos gravaram antes estas transcrições.
O segundo CD ora lançado é uma ousadia que vale o risco, pela audácia (disponível para download em iTunes por 9,99 dólares). Pinnock agiu como Schoenberg quase um século atrás: encomendou a Anthony Paine uma redução da Segunda Sinfonia de Anton Bruckner. Paine confessa, no texto do CD, que sequer conhecia a obra. Mas, examinando a partitura, constatou que, apesar dos efeitos orquestrais massivos de Bruckner, a empreitada era possível.
“A base da textura orquestral era a sonoridade das cordas; reproduzi isso com um sexteto de dois violinos, duas violas, cello e contrabaixo. Para reproduzir as impactantes sonoridades nas madeiras e metais, optei por flauta, oboé e pares de clarinetes, fagotes e trompas, um trompete e um trombone, coadjuvados por harmônio e piano”.
Este efetivo dá uma liga danada. Não só é fiel ao espírito bruckneriano, como joga novas luzes em sua escrita, aproximando-o da de um Schubert, como aponta corretamente Pinnock. Os primeiros compassos do moderato inicial, por exemplo, são interpretados por um quarteto de cordas, logo interpelado pelos sopros, num jogo íntimo e descarnado – nunca, porém, resvalando na anemia, sensação em geral provocada por reduções como esta. Ganha-se em clareza rítmica, como na perfeita leitura do scherzo. Emerge uma afinidade inesperada de Bruckner com o Schubert sinfônico das primeiras décadas do século 19.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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