‘A Gangue’ expõe máfia juvenil e o pior da sociedade russa
Vencedor do prêmio da Semana da Crítica no Festival de Cannes do ano passado, A Gangue, do ucraniano Miroslav Slaboshpitsky, entra nesta quinta, 14, em cartaz nos cinemas brasileiros exatamente um ano depois, quando está começando outro Festival de Cannes. O filme fez a maior sensação na Croisette. O diretor foi chamado de politicamente…

Vencedor do prêmio da Semana da Crítica no Festival de Cannes do ano passado, A Gangue, do ucraniano Miroslav Slaboshpitsky, entra nesta quinta, 14, em cartaz nos cinemas brasileiros exatamente um ano depois, quando está começando outro Festival de Cannes. O filme fez a maior sensação na Croisette. O diretor foi chamado de politicamente incorreto, e foi o que atraiu atenção para seu filme. Se ele tivesse feito um filme sobre surdos-mudos bonzinhos, pobres vítimas da sociedade, ou do sistema tradicional de ensino, pode ser que A Gangue/The Tribe não tivesse alcançado tanta repercussão.
O filme conta a história desse garoto deficiente auditivo que ingressa numa escola especial. Há uma gangue que domina a instituição. Ele galga postos, sobe na hierarquia criminosa, mas a que custo! Estupro, roubo, prostituição infantil, todo tipo de violência é permitida nessa verdadeira Máfia infantojuvenil que reproduz, na sua estrutura interna, o que há de pior na sociedade russa pós-comunista. A Rússia do czar Vladimir Putin não é exatamente um paraíso na Terra.
Na trama, o herói, que é tudo, menos herói, se apaixona por uma garota, a quem busca proteger, fazendo-a sua, mas isso é malvisto pelo grupo. Acirram-se tensões. É tradicional que, após as sessões oficiais dos filmes nas seções paralelas de Cannes, ocorram encontros dos diretores com o público para suprir a ausência das coletivas de imprensa. O de Slaboshpitsky foi dos mais concorridos. Havia muitos surdos-mudos. Muita gente ficou em estado de choque na sala, mas eles se divertiram. Um, usando a linguagem dos sinais, agradeceu ao diretor por fugir aos estereótipos. “Não somos melhores nem piores que ninguém.” Slaboshpitsky não deixou por menos. Disse que os norte-americanos são os mais intransigentes nessa questão da correção, mas são eles que definem os mute-deafs como mute-dumbs, idiotas.
Seu filme, ele contou, começou a nascer há cerca de 20 anos, quando ainda estudava cinema. “Surgiu como uma homenagem ao cinema silencioso, que era o que mais atraía naquele tempo e creio que continua me atraindo hoje. No intervalo, surgiu O Artista (de Michel Hazanavicius), que adquiriu prestígio e ganhou o Oscar e é um filme muito bonito, mas é uma fantasia estilizada. Não era o que me interessava. Desde o início, pensava num filme realista e impiedoso, que não foi fácil de concretizar.” Ele teve apoio da Associação de Surdos-Mudos da Ucrânia, que ajudou na seleção do elenco. “São todos surdos-mudos”, explica, referindo-se aos atores. Um integrante da associação vivia pedindo para ler o roteiro. Slaboshpitsky resistia, e não abriu o roteiro nem para os atores. Quando finalmente o associado o leu, quis retirar o apoio e convencer os atores a caírem fora, mas eles já estavam em fase de preparação e preferiram ficar a bordo. Slaboshpitsky defende-se.
“Nunca foi minha intenção explorar a deficiência ou provocar escândalo, mas não é por um filme ser feito com pessoas especiais que tem de idealizar a realidade. Queria que fosse um espelho do mundo em que vivo, em que vivemos. A seleção para a Semana da Crítica e a acolhida que estamos tendo mostra que nosso partido estava certo. E não é por abordar a violência que A Gangue não deixa de possuir ternura.” O curioso é que, como homenagem ao cinema silencioso, A Gangue pode prescindir da palavra falada, e nisso difere bastante de Winter Sleep, do turco Nuri Bilge Ceylan, que ganhou a Palma de Ouro de 2014. O filme turco investe em extensos diálogos, como a admirável cena do protagonista com a irmã. Em A Gangue, também existem falas imensas, mas elas ocorrem por meio da linguagem dos sinais. Produzem estranhamento.
“Vivemos uma era de muitas informação e permissividade, mas creio que se trata, no fundo, de um paradoxo. As pessoas estão muito fechadas nelas mesmas, uma parcela muito grande (a maioria?) vive e se comunica através da rede. Não existe muita tolerância, que aprendi com os protagonistas do meu filme é que, para eles, a rede vira ferramenta de comunicação. Todo mundo ali usa a mesma linguagem. Não se trata de mentir sobre a sua condição, mas em face da discriminação e do preconceito a rede oferece aos deficientes interessantes questões de igualdade. Estamos longe, realmente, de experiências como o visceral O Milagre de Annie Sullivan, de Arthur Penn, no começo dos anos 1960, em que a cega, surda e muda Helen Keller rompia seu isolamento adquirindo a linguagem dos sinais. Slaboshpitsky diz que o filme dele é sobre isso. Por meio da violência, seus surdos-mudos estão reivindicando uma nova maneira de serem vistos e ouvidos. Ele não os julga, mas espera que adquiram maturidade e tolerância. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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