Cada um por si, e o sexo para todos numa fantasia espanhola
Existem cenas que podem parecer chocantes em Kiki – Os Segredos do Desejo. O longa do espanhol Paco de Leon que estreou na quinta, 15, possui uma estrutura em episódios, todos abordando a busca do prazer por meio de distintas práticas sexuais. Numa dessas histórias, ou episódios, um homem urina no peito do próprio diretor De Leon, que também é…

Existem cenas que podem parecer chocantes em Kiki – Os Segredos do Desejo. O longa do espanhol Paco de Leon que estreou na quinta, 15, possui uma estrutura em episódios, todos abordando a busca do prazer por meio de distintas práticas sexuais. Numa dessas histórias, ou episódios, um homem urina no peito do próprio diretor De Leon, que também é ator. Em outro, suprema bizarrice, uma mulher tem um orgasmo solitário ao esfregar o colarinho de um estranho na estação de metrô.
Grande sucesso de público na Espanha, Kiki foi indicado para uns quantos Goyas – o Oscar espanhol -, mas levou somente o de melhor atriz revelação para Belén Cuesta. O sucesso pode ser creditado ao caráter transgressor da narrativa. Sexo, quando tema ou assunto, dificilmente nega fogo em países de forte tradição repressiva. A Espanha, não se pode esquecer, abrigou a Inquisição e o franquismo, que, por meio século, tentou manter o país alheio ao século 20.
Um filme como esse diverte, quanto mais não seja pelo ridículo de certas situações. Mas também coloca problemas. Não é nem questão de ser politicamente (in)correto, mas os episódios incluem estupro conjugal e maus-tratos a animais. O que o pobre pet tem a ver com isso? A tese é que, na busca do prazer, vale tudo. Vale mesmo? As perversões são as mais variadas possíveis, e às vezes a bizarrice até parece ingênua – tem gente que se excita só de ver o parceiro(a) dormindo, ou que goza vendo o outro chorar. É válido? O problema é que a transgressão é de mentirinha. Aquele orgasmo solitário não é exceção. O importante é o gozo individual.
Kiki reflete, no sexo, o estado do mundo. Não é segredo para ninguém que vivemos, desde o fim das utopias, numa era de competitividade, em que os indivíduos são estimulados a pensar cada um em si. Nesse caso específico, como seria um projeto coletivo – sexo grupal? Em Kiki, não dá certo. O mais curioso é que o filme, no fundo, é comportado. Uma fruta aqui, um picolé pingando ali são as metáforas mais explícitas (?) do ato sexual. O espectador ri do tamanho dos absurdos, não com os personagens. Veladamente, um filme preconceituoso.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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