Chico volta atual nas letras e clássico nas canções de ‘As Caravanas’
Chico Buarque lança na manhã desta sexta-feira, dia 25, seu novo álbum. Ele já vinha fazendo algum barulho desde que antecipou a divulgação de “Tua Cantiga”. Com letra dele mesmo e música de Cristóvão Bastos, o mais recente alimento dos juízes de tribunais sumários de Facebook é uma grande canção. “Será que é machismo um homem largar a família…

Chico Buarque lança na manhã desta sexta-feira, dia 25, seu novo álbum. Ele já vinha fazendo algum barulho desde que antecipou a divulgação de “Tua Cantiga”. Com letra dele mesmo e música de Cristóvão Bastos, o mais recente alimento dos juízes de tribunais sumários de Facebook é uma grande canção. “Será que é machismo um homem largar a família para ficar com a amante? Pelo contrário. Machismo é ficar com a família e a amante. Diálogo entreouvido na fila de um supermercado”, escreveu em uma rede social para rebater acusações.
O barulho veio porque Chico canta sobre o personagem (que nunca necessariamente é ele mesmo) inebriado pela paixão a ponto de cometer insanidades fora dos padrões, como deixar mulher e filhos para seguir a amante. Canta ainda que basta um suspiro de agonia que ele segue para consolá-la, que basta deixar um lenço cair para que ele a retire das mãos de um desalmado. E por aí vai, desenvolvendo a situação sobre seu personagem (e não, mais uma vez, sobre ele mesmo).
“Blues Pra Bia”, na sequência, tem blue notes no violão de Luiz Claudio Ramos e no piano de João Rebouças, mas não é um blues. A inquietação harmônica de Chico dilui o que poderia ter esse espírito e algo a conduz para o cancioneiro norte-americano dos anos 50.
A personagem Bia provoca o mesmo desequilíbrio emocional no narrador de “Tua Cantiga”. Bia tem o espírito livre, não se entrega às composições do insinuador e, muito mais do que o espanto cultural provocado por “Tua Cantiga”, revela mais um recanto que Chico desvenda em sua poesia contagiada pelas discussões em rede. Talvez Bia não goste de homens. E daí? Ao apaixonado, “nada me amofina, também posso virar menina pra Bia me namorar.”
“Massarandupió” é uma música que apresenta o neto de Chico, Chico Brown, filho de Carlinhos Brown e Helena Buarque. “Ó mãe, pergunte ao pai quando ele vai soltar a minha mão/Onde é que o chão acaba e principia toda a arrebentação”. Os versos são de Buarque e a música de Brown, na maior revelação do disco.
Outra filha do casal Helena e Carlinhos Brown, Clara Buarque aparece na seguinte, a graciosa “Dueto”, já gravada antes para o documentário sobre ele dirigido por Miguel Faria Jr. em 2015. A regravação traz mais atualizações, com Chico ou Clara sorrindo ao enumerarem Facebook, Twitter, Snapchat e ressuscitando o Orkut.
“Casualmente”, atualizada novamente em embates políticos, ganha um bolero em espanhol. Tem clima mais profundo, tratamento mais sofisticado. Ele aqui reafirma-se em seu território mais tradicional, em parceria com o baixista e compositor Jorge Helder.
E “Desaforos”, também de um Chico clássico, vende a imagem de um “vagabundo” para o qual a desejada jamais vai olhar e que chega a reconfortar-se ao saber que ela profere impropérios contra ele. Afinal, em mais um arroubo do amor que leva ao desespero, ela profere o seu nome. O amor é sempre um ato de desespero em Chico, e ele volta a ser assim nas impossibilidades de “A Moça do Sonho”, um requinte harmônico feito em parceria com Edu Lobo.
“As Caravanas” tem células que remetem a “Caravan”, de Duke Elington, e é outra crônica, a de discurso social mais evidente e outra ponte com o mundo que acontece a seu lado. A batida do funk é mencionada sem sufocar as delicadezas de um arranjo de cordas e um ritmo forte que faz Chico quase rappear sobre o encontro dos ‘bondes’ de meninos que descem dos morros e seguem para as praias e a zona sul. Aqui, é o velho Chico cronista. Quando não se arrebata pelo amor, lança-se em uma delicada indignação.
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