Condensamento lírico: Carrascoza dá oficina de microcontos em São José

Autor de “Caderno de um Ausente” fala sobre microcontos neste sábado

Escrito por: João Pedro Teles3 min de leitura
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Autor é finalista do Prêmio São Paulo de Literatura

Tânia Rêgo/Agência Brasil

“Pronto nos olhos, o pranto só aguarda a notícia”. O microconto “Vigília”, de João Anzanello Carrascoza dá uma dimensão do poder avassalador que há na literatura suprimida a sua forma mais condensada. Como uma gota que carrega em si a densidade de um oceano inteiro, o subgênero literário pode causar abalos sísmicos concatenando algumas poucas palavras.

Um dos contistas mais brilhantes do nosso tempo, Carrascoza é cirúrgico em sua precisão vocabular e carrega, como característica inveterada em sua obra, a capacidade de transcrever cenas cotidianas com sensível encantamento.

O autor, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2015 com o livro “Caderno de um Ausente”, é o convidado deste mês do projeto Intensivo Literário, que acontece no Espaço Cultural Tim Lopes, da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, em São José dos Campos. Carrascoza ministra a oficina “Criação de Microcontos”, que acontece neste sábado (17), das 14h às 18h.

A escolha do tema foi influenciada pelo projeto mais recente do autor, o livro “Linha Única”, somente com microcontos. O trabalho será publicado pela Editora Sesi em 2016.

“Também há uma série de vídeos inspirados nessas curtíssimas narrativas. É um projeto patrocinado pelo Rumos Itaú Cultural, que terminei há pouco”, diz.

Leitor de pessoas
Quem acompanha a obra de Carrascoza já notou que uma de suas expressões preferidas, ‘leitor de pessoas’, é recorrente em seu trabalho. O escritor inclusive já publicou um livro infantojuvenil, “O Homem que Lia as Pessoas”, que faz menção ao termo.

Eu penso que o estilo, inclusive o literário, é a soma daquilo que somos, com as nossas virtudes e limitações, e do que apreciamos naqueles que nos precederam

João Carrascoza Escritor

“A leitura da palavra é, e sempre será, precedida pela leitura da vida, do outro, seja ele próximo ou distante. Uma vez nascidos, até mesmo de olhos fechados, já estamos lendo, decifrando, interpretando o nosso mundo, de dentro, e o de fora”, comenta.

Sobre o estilo compadecido com as questões humanas que apresenta em seus textos, o paulista de Cravinhos deixa claro que o quinhão que lhe cabe em sua produção está na criação. A análise estilística, Carrascoza deixa para quem quiser interpretar.

“Um escritor, embora tenha convicções a respeito de sua poética, entendida como os elementos que ele mobiliza na criação de seus textos, não é a pessoa mais adequada para comentar sua própria obra. Eu penso que o estilo, inclusive o literário, é a soma daquilo que somos, com as nossas virtudes e limitações, e do que apreciamos naqueles que nos precederam”, esclarece.

Produção
Conciliar a escrita com a carreira acadêmica sempre foi uma realidade para o autor. Publicitário e doutor em Ciências da Comunicação pela USP (Universidade de São Paulo), onde é professor de Redação Publicitária desde 1990, Carrascoza também é docente do programa de pós-graduação em Comunicação e Práticas de Consumo na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing).

Ao todo, entre livros de literatura (contos, romances e infantojuvenis) e acadêmicos, a produção já ultrapassa as 30 publicações. As atividades diferentes, de autor e professor, são encaradas com naturalidade e o lirismo característico.

“Embora exijam registros diferentes, ambas as áreas estão ligadas à pesquisa, ao estudo, à escrita. Para juntar essas águas, que antes eu apenas deixava se tocarem nas margens em livros que escrevi sobre texto publicitário e literatura, fui fazer há dois anos um estágio de pós-doutorado em teoria literária na UFRJ. Laranjeiras não dão limão, mas um limoeiro perto delas dá ao quintal novo aroma”, conclui.

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