Discordâncias conceituais marcam a primeira mesa científica da Flip 2015
Na primeira das mesas científicas da Flip (este ano serão duas), o neurocientista Sidarta Ribeiro e o economista Eduardo Gianetti discutiram o tema proposto pela curadoria: ‘as ilusões da mente’, e em diversos pontos do debate demonstraram opiniões conflitantes – para a alegria da plateia que lotou o espaço e ao final aplaudiu de pé a…

Na primeira das mesas científicas da Flip (este ano serão duas), o neurocientista Sidarta Ribeiro e o economista Eduardo Gianetti discutiram o tema proposto pela curadoria: ‘as ilusões da mente’, e em diversos pontos do debate demonstraram opiniões conflitantes – para a alegria da plateia que lotou o espaço e ao final aplaudiu de pé a discussão.
O ponto de partida foi a chamada teoria fisicalista – uma corrente filosófica e científica que, em poucas palavras, pressupõe que todo estado mental é diretamente derivado de um estado fisiológico.
Gianetti lançou em 2010 “A Ilusão da Alma”, romance em que o personagem principal, após a recuperação de um câncer, adere a essa corrente e vê sua vida transformada pelas pesquisas sobre a relação entre cérebro e mente.
“A pesquisa atual em neurociência sugere dois pontos: 1) não existe estado mental que não corresponda a um estado neurofisiológico e 2) qual é a relação que existe entre o que se passa no mundo objetivo do cérebro com o mundo mental, subjetivo”, comentou Gianetti. Para ele, o fisicalismo não pode ser descartado. Citando o neurocientista americano Benjamin Libet, ele explicou que mesmo um gesto muito simples, como mexer um dedo, sugere toda uma escalada neural, que precede não só a própria ação, mas também precede a própria intenção.
“De onde vem isso?”, questionou Gianetti. “Se for assim mesmo, estaremos todos errados sobre tudo que pensamos sobre nós mesmos até agora”, concluiu, “e o trabalho da neurociência converge para a comprovação”.
Para Sidarta, porém, essa hipótese não é um problema tão grande. “Existir uma máquina biológica por trás da consciência não é algo que me angustia”, completou o diretor do Instituto do Cérebro, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que se dedica especialmente à pesquisa do comportamento cerebral em diferentes estados de consciência. “Temos completa liberdade mesmo diante do pequeno número de possibilidades que nos são oferecidas – se essas escolhas forem engendradas biologicamente, isso não as torna menos relevantes.”
Além da psicanálise (Sidarta: “Freud construiu uma teoria claramente científica, testável; já os freudianos, nem sempre”; Gianetti: “o inconsciente tem neurofisiologia”) e da religião, a questão das drogas foi o tema mais sensível do debate, e onde a maior discordância se criou.
“É uma questão científica – se os nossos estados mentais são estados biológicos, operados por variações químicas, é óbvio que a pesquisa (com drogas) é fundamental e tem que ser livre”, afirmou Sidarta, que também desenvolve pesquisas com substâncias psicoativas, como o chá de ayahuasca. “Os efeitos antidepressivos das pesquisas são positivamente impressionantes”, afirmou.
“Todas as drogas têm que ser legalizadas e regulamentadas para o que elas foram feitas, e não com a cabeça dos legisladores racistas dos anos 1940”, disse Sidarta, para aplausos do público.
Questionado, Gianetti “defletiu” a pergunta, para usar um termo do próprio Sidarta. “Minhas drogas são as ideias”, disse o economista. “Estou interessado no que acontece se você leva as ideias até o fim”, disse, referindo-se ao seu romance.
O debate foi mediado pelo jornalista da revista piauí Bernardo Esteves.
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