Em homenagem controversa, estátua em Moscou reverencia criador do fuzil AK-47

Erguida no centro da capital da Rússia, uma estátua feita em bronze e com mais de sete metros de altura provoca as mais diversas reações em quem para e contempla a obra. Não deixa de ser um tanto quanto espantoso olhar a figura de um senhor com jaqueta de piloto de bombardeio, olhar fixo e mãos firmes em uma das mais conhecidas armas de guerra…

Escrito por: Conteúdo Estadão3 min de leitura
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Erguida no centro da capital da Rússia, uma estátua feita em bronze e com mais de sete metros de altura provoca as mais diversas reações em quem para e contempla a obra. Não deixa de ser um tanto quanto espantoso olhar a figura de um senhor com jaqueta de piloto de bombardeio, olhar fixo e mãos firmes em uma das mais conhecidas armas de guerra do mundo, o fuzil AK-47, a sua mais conhecida criação. A reportagem do Estado em Moscou parou em frente ao monumento em homenagem a Mikhail Kalashnikov.

Mikhail Kalashnikov, que morreu em 2013 aos 94 anos, é considerado um dos maiores heróis de guerra da União Soviética e da Rússia. Ele começou a projetar o fuzil em 1945, em uma fábrica estatal na região leste do país. Em 1947, chegou ao que julgou ser o ideal e a arma passou a ser produzida e distribuída em escala maior em 1949, quando passou a ser usada pelas Forças Armadas Soviéticas.

“O senhor Kalashnikov não tem responsabilidade pelo uso de sua obra. Ele foi um gênio e mudou a história não apenas da União Soviética e da Rússia, mas também de toda a humanidade”, comentou Karol, um polonês casado com uma russa que morou dois anos no Brasil. “Eu sei o que você quer dizer, mas não quero entrar no mérito político, no simbolismo deste monumento. Ele criou a arma porque a União Soviética precisava se defender”, argumentou o rapaz.

O colombiano Carlos Martinez, que ainda estava em Moscou dois dias depois de sua seleção ter sido eliminada da Copa do Mundo nos pênaltis para a Inglaterra, pensa o oposto do amigo polonês. “De jeito nenhum, não concordo com isso. O russo aí criou uma arma usada para matar milhões de pessoas. Tem sangue em suas mãos sim”, argumentou sem levar em conta o próprio escrito na estátua. “Criei uma arma para a defesa de minha terra natal”. Essa frase, de Mikhail Kalashnikov, está gravada no pedestal da estátua e reflete o pensamento do povo russo em geral em relação a obra.

Na cerimônia de inauguração da obra, o escultor Salavat Schherbakov falou com os jornalistas sobre o fuzil de assalto. “Esta arma é a defesa da história da Rússia. É um dos símbolos do país. Infelizmente, para que a vida continue, para que as adoráveis crianças cresçam, para as lindas mulheres da Rússia, é preciso haver uma arma dessas”.

O fuzil AK-47 (Avtomát Kaláshnikova 1947, em russo, ou Kalashnikov automática 1947) é a principal arma do arsenal das Forças Militares da Rússia há mais de 60 anos. Seu desenho está em bandeiras de vários países do continente africano – exércitos de mais de 50 países possuem o armamento. Especialistas estimam que a arma matou mais pessoas do que todos os tipos de outras armas somados e uma projeção dá conta de que uma a cada cinco armas de fogo do planeta seja o fuzil. Estima-se que mais de 70 milhões de unidades foram comercializadas desde a sua criação.

Em vida, Mikhail Kalashnikov foi autor de célebres frases e deixou claro muitas vezes que a satisfação por ter criado a arma se misturava à dor de vê-la utilizada por criminosos e crianças, principalmente na África. Em uma delas, ele explicou o seu sentimento. “Quando vejo na televisão Bin Laden (o terrorista Osama bin Laden, morto por fuzileiros navais dos Estados Unidos em 2011) com seu AK-47 em mãos, fico revoltado. Mas o que posso fazer? Os terroristas não são bobos. Também escolhem armas confiáveis”.

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