Entrevista: Cristovão Tezza abre Festival da Mantiqueira

O escritor Cristovão Tezza preside nesta sexta-feira (4), às 20h, a Conferência de Abertura do Festival da Mantiqueira – Diálogos com a Literatura, em São Francisco Xavier, lançando novo livro. “O Professor” (Editora Record) é o romance de número 17 do curitibano, autor do aclamado “O Filho Eterno” (Editora Record), que já foi traduzido para seis idiomas.

Escrito por: Renan Simão5 min de leitura
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Novo romance de Tezza “O Professor” conta memórias de toda uma vida

Divulgação

O escritor Cristovão Tezza preside nesta sexta-feira (4), às 20h, a conferência de abertura do Festival da Mantiqueira – Diálogos com a Literatura, em São Francisco Xavier, lançando novo livro. “O Professor” (Editora Record) é o romance de número 17 do curitibano, autor do aclamado “O Filho Eterno” (Editora Record), que já foi traduzido para seis idiomas.

A história de “O Professor” tem o docente de filologia romana Heliseu da Motta como protagonista, um senhor de 70 anos que prepara um discurso para receber uma homenagem da universidade que prestou serviços por toda a vida. Com uma torrente de lembranças, revisita momentos-chave de sua vida, como a morte da mãe, o relacionamento com o filho, o contato com o pai rígido, entre outros.

Ao aparar as arestas do passado, Heliseu se encontra com casos da história política brasileira e sua viagem memorial se torna um embate de um país com a sua história.

Tezza foi professor de linguística na UFPR (Universidade Federal do Paraná) por 23 anos até 2009, mas diz o mestre que, de parecido com Heliseu, o escritor só tem a predileção pela história do idioma português.

“No caso do Heliseu, o campo de interesse dele (a linguística, a história da língua) também foi, em parte, o meu, nos meus tempos de professor. Isto ajudou a dar consistência ao personagem. Mas acho que, do ponto de vista do temperamento e da cabeça, tenho muito pouco a ver com o Heliseu”, afirma Cristovão Tezza, em entrevista concedida ao Meon.

Há marcas de português arcaico nas falas de Heliseu, um reflexo dos anos de dedicação aos trabalhos de sala de aula. De acordo com Tezza, “esses fragmentos poderiam estabelecer uma ponte entre o passado e o presente na vida do personagem, como alguém condenado à sua história”. Um caminho para chegar nesse recurso narrativo são as crônicas de Fernão Lopes (século 14), de que Tezza admira.

Apesar de Tezza, oficialmente, não falar sobre “O Professor” no Festival da Mantiqueira -será abordado o tema “Literatura À Margem”-, o romancista admite que vai ter de enfrentar perguntas sobre o seu mais recente livro. “O engraçado é que o autor nunca sabe exatamente o que escreveu -todo livro acaba por ganhar uma vida própria ao entrar na vida dos leitores”, conta.

Abaixo, leia a entrevista completa:

A exemplo do professor do livro, você também foi professor. Diga, por favor, um aspecto em que você é parecido com o professor Heliseu da Motta e um diferente.
Todos os professores têm algum jeito em comum -a profissão acaba por nos definir: o método, a sala de aula, a relação com os alunos, a organização do tempo, o mundo das avaliações. No caso do Heliseu, o campo de interesse dele -a linguística, a história da língua- também foi, em parte, o meu, nos meus tempos de professor. Isto ajudou a dar consistência ao personagem. Mas acho que, do ponto de vista do temperamento e da cabeça, tenho muito pouco a ver com o Heliseu.

Há frases de Drummond no livro, na voz do Heliseu. Qual a intenção do uso de fragmentos da poesia de Drummond?Drummond é uma voz essencial e incontornável da formação da literatura brasileira do século 20. É uma referência literária que reverbera na cabeça do Heliseu, como de muitos intelectuais de sua geração. Não houve uma intenção narrativa específica -a voz dele ressoa no livro, em versos, em dois ou três momentos. É uma referência que faz parte da consistência do personagem, assim como uma série de outros detalhes circunstanciais que vão definindo a visão de mundo do Heliseu.

Na construção do personagem, como você chegou ao uso do português arcaico? 
Heliseu é um professor de filologia românica, uma disciplina que mergulha na história da língua. De minha parte, gosto muito de alguns textos de português antigo, principalmente das crônicas de Fernão Lopes (século 14). Relendo-as, percebi como estes fragmentos poderiam estabelecer uma ponte entre o passado e o presente na vida do personagem, como alguém condenado à sua história. O uso de citações com a ortografia arcaica foi outro recurso para dar este estranhamento do tempo, e ao mesmo tempo marcar a proximidade mental de mundos tão distantes. O resto é intuição narrativa.

“O Professor” é um livro de memórias, de um senhor relembrando a vida. A linguagem usada busca deixar buracos, como nós temos quando tentamos lembrar momentos do passado?
É de fato um memorial, mas um memorial fragmentário, aparentemente desorganizado. Mas, de fato, o narrador “monta” o passado de Heliseu em pedaços organizados, momentos marcantes de sua vida. A literatura apenas simula a realidade, inventa uma organização que, de fato, não existe na vida real. De certa forma, procurei representar este processo caótico de lembranças, dando-lhes algum sentido.

O livro é muito recente, acaba de ser lançado. Como é falar dele no Festival da Mantiqueira, onde poucos o leram? 
Bem, vou fazer a conferência de abertura do Festival, sobre o tema “Literatura à Margem”; não vou falar do meu livro nesta conferência. Mas haverá, é claro, uma sessão de autógrafos e conversas com leitores. Até porque o Festival tem um espaço simpático e agradável que estimula uma boa conversa. Todo autor, quando lança um livro, enfrenta a mesma questão -ninguém leu o livro ainda e você tem de dar algumas pistas para os futuros leitores. O engraçado é que o autor nunca sabe exatamente o que escreveu -todo livro acaba por ganhar uma vida própria ao entrar na vida dos leitores.

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