‘Indignação’ põe a vida toda num vaso de flores
Para o público que está amando O Mestre dos Gênios – e o filme de Michael Grandage sobre a ligação do editor Max Perkins com o escritor Thomas Wolfe é muito bom -, há uma notícia excelente. Estreou na quinta, 3, um filme melhor ainda, e que estreita os laços entre literatura e cinema. Indignação, de James Schamus, baseia-se no romance homônimo…


Sarah Gadon e Logan Lerman estrelam “Indignação”, filme de estreia de James Schamus
Divulgação
Para o público que está amando O Mestre dos Gênios – e o filme de Michael Grandage sobre a ligação do editor Max Perkins com o escritor Thomas Wolfe é muito bom -, há uma notícia excelente. Estreou na quinta, 3, um filme melhor ainda, e que estreita os laços entre literatura e cinema. Indignação, de James Schamus, baseia-se no romance homônimo de Philip Roth, publicado no Brasil pela Cia. das Letras. Schamus é uma lenda. Cofundador das empresas The Good Machine e Focus, produziu 12 (!) filmes de Ang Lee, incluindo O Tigre e o Dragão e O Segredo de Brokeback Mountain, e ainda financiou obras de Claire Denis e Raoul Ruiz. Isso lhe valeu o título de Darryl Zanuck dos independentes, e por isso mesmo ninguém se surpreendeu quando ele ganhou o The Darryl Zanuck Award por seu ‘distinguished’ trabalho de produção e distribuição de filmes indies para as salas de cinema.
Schamus dirige, e muito bem. A surpresa é ver seu nome associado ao do produtor brasileiro Rodrigo Teixeira, que, por meio da RT, carrega o projeto. São dez anos da RT Produções, mas esse é outro assunto. Schamus veio ao Brasil, ao Festival do Rio, para o lançamento de Indignação. O diretor encontrou-se com o repórter para falar sobre sua adaptação. Por que Roth? “Antes de mais nada, por causa do título. Indignação tem a ver com ira, revolta, mas a raiz da palavra remete a ‘dignidade’. O que avilta a dignidade humana deveria nos provocar indignação, mas não é isso que vem acontecendo no mundo.”
E o diretor prossegue – “Há um livro, na verdade um panfleto, que deveria ser a Bíblia de toda pessoa bem pensante. Indignez-Vous, Indignem-se!, de Stéphane Hessel. É um dos autores da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Batalhou pela dignidade humana.” E o que isso tem a ver Philip Roth, com Indignação? “O filme, como o livro, passa-se na Guerra da Coreia, que, na América, é chamada de guerra esquecida e nunca foi oficialmente reconhecida como guerra pelo Congresso (dos EUA). Mesmo assim, foi um morticínio.” O filme é sobre esse garoto, Marcus, que vem de uma família judia de classe média. O pai é açougueiro kosher. Marcus será o primeiro dos seus a ingressar na universidade e a família deposita nele grande expectativa. Marcus consegue uma bolsa, que aceita para fugir da família, mais que da guerra.
O problema de Marcus, e vira um problema, é que ele tem o péssimo hábito de pensar por si mesmo num mundo cada vez mais massificado. “As coisas não mudaram tanto assim, e se mudaram foi para pior, não?”, provoca Schamus. Marcus tem intensas discussões com o ‘dean’ (reitor) Caldwell, que não aceita, por exemplo, a resistência do garoto a participar do culto. São extensas discussões sobre ateísmo – Aldous Huxley é a referência de Marcus -, muito bem filmadas, mas esse não é seu único problema. O inexperiente garoto envolve-se com Olivia e, logo no primeiro encontro, ela faz sexo oral com ele, coisa impossível para uma jovem de boa família no começo dos anos 1950.
E aí o filme se encaminha para outra grande cena – “A mais triste do filme, a mais triste que filmei ou vi filmar nos filmes que produzi”, reflete Schamus. A mãe encontra Olivia no hospital, quando Marcus precisa ser internado. A rejeição é imediata. Olivia não é uma boa influência, ela acha. Chantageia o filho. Tudo isso, a chantagem da mãe, a dureza do reitor, deve produzir indignação, mas não são pessoas do mal. “São perfeitamente razoáveis, em termos sociais. Acreditam naquilo”, diz Schamus. O elenco é excepcional – Logan Lerman, que faz Marcus, Sarah Gadon, Olívia, e Tracy Letts, o reitor. A tragédia do filme está impressa numa frase do pai – “Às vezes escolhas insignificantes, até cômicas, levam a resultados terríveis.” Na guerra, então… A síntese do filme é um vaso de flores. Olívia, tão desprezada, saberá que foi amada? Indignação é um grande filme.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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