Jardins de Cicuta

Epicurus, ao lado de uma planta de cicuta, sente dores na alma. Tem a cabeça entre as mãos, por isso não percebe a aproximação de Hermes, que chega voando. Hermes: Quem é você? Epicurus: Epicurus, da ilha de Samos. Hermes: Pois bem, Epicurus de Samos, como você entrou aqui? Esse jardim é meu. Ordeno que […]

Escrito por: Meon Redação4 min de leitura
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Epicurus, ao lado de uma planta de cicuta, sente dores na alma. Tem a cabeça entre as mãos, por isso não percebe a aproximação de Hermes, que chega voando.

Hermes: Quem é você?
Epicurus: Epicurus, da ilha de Samos.
Hermes: Pois bem, Epicurus de Samos, como você entrou aqui? Esse jardim é meu. Ordeno que saia.
Epicurus: Não enquanto não tiver a resposta que procuro.
Hermes: Como ousa? Não sabe quem sou? Não teme desafiar um deus?
Epicurus: Você não é Deus.
Hermes: Sou Hermes, mensageiro e embaixador dos deuses, protetor dos pastores e dos rebanhos, senhor do comércio, dos viajantes e da oratória.
Epicurus: Senhor dos ladrões também. Isso faz de você alguém bastante ocupado, mas não um deus.
Hermes: Meu pai é Zeus, o rei do Olimpo, senhor dos deuses.
Epicurus: Se é filho, não é Deus. Deus é ato de potência. Não pode ser filho, só pode ser pai.
Hermes: Sua insolência vai lhe custar sofrimento.
Epicurus: Maior do que as dores que sinto? Se tem o poder, cesse as ameaças e inflija-me os suplícios.
Hermes: Não teme a morte?
Epicurus: A morte não deve ser temida, ela é certa como indica a serpente à esquerda do seu bastão. Ela se chama Od e é o símbolo de uma vida livre, como deve ser comum a todos e não privilégio de um deus.
Hermes: Você deve ser parte do castigo a que meu pai me condenou. Pergunte logo o que quer e vá embora.
Epicurus: Não é a sua opinião que desejo.
Hermes: A quem veio questionar, se não a mim, único habitante deste jardim?
Epicurus: As plantas não têm vida? Você não é o único ser aqui. É apenas seu refúgio.
Hermes: Veio até aqui para escutar a opinião de um arbusto?
Epicurus: Da cicuta.
Hermes: Está a ponto de acreditar num ser inanimado?
Epicurus: Tenho um jardim também.
Hermes: Então porque não volta ao seu jardim e me deixa em paz?
Epicurus: Não cheguei por minhas próprias pernas. Foi o pensamento quem me trouxe. Não tenho todo controle sobre os lugares onde minha mente pode me levar. Tampouco sei como sair.
Hermes: E o que quer saber da cicuta?
Epicurus: Uma confirmação. Se Sócrates encontrou a felicidade perene, tranquila, depois da execução.
Hermes: Sou imortal! A morte não me preocupa.
Epicurus: Acredito que o bem e o mal nascem das sensações. Cessa a vida, cessam as sensações.
Hermes: E quem, nesta sua cabeça confusa, é responsável por tudo que existe?
Epicurus: Deus!
Hermes: Pode me dizer que forma tem esse Deus?
Epicurus: Não a de um homem, como você e seu pai Zeus. Tem uma forma infinita e perfeita, como a esfera, talvez.
Hermes: E qual o destino dos homens? Servir a esse Deus?
Epicurus: Deus não procura servos. O destino dos homens é realizar o propósito da criação: ser feliz.
Hermes: E a felicidade não está na devoção a Deus, que diz ser a origem das coisas?
Epicurus: Está na busca do prazer.
Hermes: Uma vida devotada aos luxos do prazer? Seu pensamento deveria levá-lo para as ninfas de meu irmão Dionísio, não ao isolamento do meu jardim.
Epicurus: O verdadeiro prazer não está na luxúria. Esta na quietude da alma, no abandono dos anseios.
Hermes: Se os homens parassem de pensar sobre a origem das coisas, talvez resolveriam seus problemas.
Epicurus: Resolver problemas como vocês, os deuses? Impondo vontades pelo uso da força e de punições? Exigindo oferendas e sacrifícios?
Hermes: Não nos preocupamos em entender. Fazemos o que temos que fazer.
Epicurus: Isso é uma doença.
Hermes: E você acredita na cura?
Epicurus: Busco a verdade que possa libertar.
Hermes: A verdade é que os homens invejam aos deuses, mas tudo que criam, resulta em servidão e destruição. Sou um deus, existo tanto quanto você. Sou submisso a meu pai, mas sou livre e você não. Vocês, humanos, são escravos dos questionamentos que não levam a nenhum lugar.
Epicurus: Pois acredito que só se pode chegar à verdade através do pensamento.
Hermes: Já que gosta tanto de refletir, reflita sobre o que vou dizer. Posso entrar e sair do meu jardim na hora em que quiser. Você não. Depende que sua mente sem controle o conduza. De que vale a verdade se não tem a liberdade?
Epicurus: Porque minha presença o incomoda tanto?
Hermes: Porque você não tem o direito de estar aqui.
Epicurus: Já disse, não sei como partir.
Hermes: Pois bem. Então fique. Parto eu. Fique e espere tua imaginação te levar ao acaso. Sou alguém ocupado. Não tenho mais tempo a perder com você. Se é a morte que o fascina, coma a cicuta. É meu convidado.

Hermes vai…

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