‘Linha M’, novo livro de Patti Smith, viaja ao redor do mundo
Escrito e cantora comentou a sua nova empreitada literária

Várias designações poderiam vir antes do nome de Patti Smith: cantora, compositora, artista plástica, fotógrafa amadora, precursora do punk rock, performer, ativista. Mas aquela com que ela mais se identifica é: escritora. Linha M, publicado agora no Brasil, é o seu segundo livro de prosa – houve uma dúzia de coletâneas de poemas antes de Só Garotos, vencedor do National Book Award em 2010 – e, diferente do primeiro, mais voltado ao presente. O seu grande trunfo é justamente ser inclassificável: uma ode à solidão, um diário de viagem, um relato de suas peregrinações pelos túmulos de autores amados e pelos cafés do mundo, um delicado memorial de seus parentes mortos e um livro de memórias.
Se em Só Garotos ela partiu de uma promessa feita para o amigo e fotógrafo Robert Mapplethorpe, em Linha M ela saiu, basicamente, da própria cabeça. Em uma conversa com o jornal O Estado de S. Paulo por telefone desde Paris, onde está para divulgar a edição francesa, ela: refletiu sobre o livro (que fez Michiko Kakutani escrever no The New York Times: “uma eloquente e profundamente comovente elegia para o que ela perdeu e não pode encontrar mas pode lembrar em palavras”); falou sobre Roberto Bolaño; chamou Donald Trump de “idiota”; e prometeu vir ao Brasil logo com a turnê dos 40 anos de Horses.

“Trump é uma epidemia para os EUA”
Reprodução/Facebook
Só Garotos partiu de uma promessa, mas Linha M vem de outro lugar… onde?
É parcialmente de um sonho, parcialmente de meu próprio lugar. Ninguém me pediu para escrever, eu não tinha um plot. É por isso que é chamado M Train, mental train, mind train, eu só quis ver aonde eu iria. As coisas que me interessaram. Escrevi, todo dia, acumulando, e ele se tornou uma jornada.
Podemos dizer que Só Garotos é um livro sobre o passado e Linha M é sobre o presente?
Sim, pelo que posso dizer. Mas também Só Garotos é um livro que Robert me pediu para escrever, tinha uma grande responsabilidade, e em Linha M eu estava tentando ficar no presente. Enquanto escrevia, percebi que isso é meio impossível, porque a mente fica se movendo para frente e para trás, então é claro que falo do meu marido, das coisas que aconteceram nas nossas vidas, no passado. O livro dá o melhor retrato do que minha vida é agora.
Então você conseguiu viver em um livro enquanto o escrevia, certo? Como foi?
Como escrevo o tempo todo, é natural. Escrevo, nem sempre publico. Como também sou uma cantora de rock, algumas pessoas imaginam minha vida como sendo algum circo do rock n’ roll, e realmente não vivo assim, tenho um estilo de vida simples. O livro então é um retrato mais verdadeiro do que a é a vida de uma escritora.
A literatura é sua primeira profissão hoje em dia?
Sempre foi, quer eu publicasse ou não. Escrevo todo dia. Não canto, componho ou me apresento todo dia, mas escrevo. É assim há muitos anos. Minha vocação é ser escritora.
E a leitura? Você escreve com paixão sobre Roberto Bolaño..
Claro, ele é um dos mais importantes do século 21. Totalmente. 2666 é a primeira obra-prima do século. Ele nos deu isso enquanto estava morrendo, é trágico. A gente só pode sonhar sobre o que ele teria escrito, porque seu último trabalho foi essa obra-prima. É triste para mim que nós o perdemos, mas somos sortudos de termos o trabalho que ele deixou.
Você comenta que passou dois anos lendo e desconstruindo o 2666… como foi isso?
(Risos) Era minha preocupação de estudo, mas eu também estava em turnê. Eu visitei a família dele, de fato seu filho tocou guitarra com a gente em algumas noites. Eles vivem em Blanes, uma cidade muito legal no litoral da Espanha. Eu fotografei a cadeira de Bolaño.
E o poema para Bolaño (Patti escreve que estava trabalhando em um poema de 100 versos para Bolaño, como uma hecatombe)?
Eu concluí o poema. Estou finalizando um livro de poemas, e esse será o principal. Foi um desafio, e, como era para Roberto, eu queria que fosse tão bom quanto eu poderia fazer.

Patti Smith desbrava sua mente em livro
Reprodução/Facebook
Há dois desastres naturais presentes em Linha M, o Furacão Sandy e a tsunami no Japão em 2011. Você acredita que esses desastres agem na contramão da sua consciência interior?
De verdade, eu diria que sim. Ambos tiveram um efeito profundo. Quando fui para o Japão, foi chocante ver tanta destruição. E o que eu vi do Sandy, que foi terrível, parecia quase pequeno comparado com o que aconteceu lá. A perturbação e o caos da natureza é algo que eu contemplei profundamente. A humanidade faz guerras, bombas, mísseis, e todo o tipo de armamento, e a natureza pode vir e em cinco minutos destruir cidades inteiras, matar milhares de pessoas, centenas de milhares. A natureza é tão poderosa e nós esquecemos isso. Muito disso estava na minha mente.
Algumas das passagens mais comoventes do Linha M são aquelas em que você fala de Fred Sonic Smith (ex-marido de Patti que morreu aos 45 anos em 1994). Seu próximo livro vai ser sobre esse relacionamento?
Comecei meu novo livro, vai levar alguns anos ainda. Esse livro será como a irmã de Só Garotos. Porque Só Garotos é o irmão, focado em Robert, e o próximo vai focar mais na minha própria trajetória, na minha vida na música, o que me levou a criar canções, encontrar Fred. Espero que seja um livro que as pessoas vão querer ler.
A sua música tem uma carga política grande, mas quão interessada em política você está enquanto escritora?
Não quero escrever sobre política. Minha energia política, uso nas performances, nos shows, na vida pública. Sirvo melhor a essas coisas me apresentando ao vivo. Porque para mil ou cem mil pessoas, posso dizer coisas que são, espero, de algum valor, é bem mais útil e direto.
O que está acontecendo nos EUA para que uma pessoa como Donald Trump seja um concorrente sério à Casa Branca?
Infelizmente, isso está espelhando alguma mentalidade e frustração do povo dos EUA. Nós vivemos numa cultura dirigida por celebridades, pelas mídia social, e ele é a epidemia de tudo que está errado com essa cultura. A verdade é que a média do povo americano não é muito sofisticada. Eles não têm a cabeça aberta, são muito preocupados com sua própria situação, não têm interesse no meio ambiente, no sofrimento de pessoas em outros países. Trump apela para essa mentalidade superficial e egocêntrica. Não só por causa dele, mas com todo o elenco. Não temos ninguém concorrendo que me faça sentir bem sobre as possibilidades. Mas você sabe que não vou votar no Trump.
É engraçado porque mudando os nomes você poderia estar falando do Brasil.
Sim, poderia ser sobre o mundo todo. É um momento muito ruim para a política e os governos. Todos parecem ruins. As pessoas que estão no comando estão mentindo tanto, há tanta corrupção, e joguinhos. Eu não sei como isso aconteceu. Mas também sou uma pessoa otimista. Estamos num período difícil, mas tenho que acreditar que as coisas vão ficar melhores, até para não ficar louca.
Você está trabalhando em novo álbum, é isso?
Tivemos que tirar um tempo, porque meu baterista (Jay Dee Daugherty) foi diagnosticado com câncer na garganta. Ele é o baterista por 40 anos. Ele tem passado pela quimioterapia, e acreditamos que ficará bem, mas vai tomar um tempo. Temos fé. Estou fazendo com a minha banda, Lenny Kaye, Tony Shanahan. Meu filho Jackson vai tocar, estou escrevendo canções com minha filha Jesse. E amigos, Tom Verlaine, Flea, talvez Michael Stipe. Estarei com 70 anos neste disco, quis que fosse não apenas um novo álbum, mas uma celebração da vida e algum tipo de declaração para esse tempo na minha vida. Vai ser importante, provavelmente meu último álbum com banda, então realmente quero pensar sobre o que estou fazendo, o que tenho que dizer. Vamos ver.
Há 11 milhões de pessoas te esperando em São Paulo (Patti nunca tocou na cidade, apenas no Rio e em Curitiba, em 2006). Venham quando puder.
Nós vamos! Tínhamos a intenção de ir à América do Sul, e ao Brasil, mais cedo, mas temos que esperar. Mas quando sentirmos que Jay está bem, definitivamente é um dos destinos, eu prometo. Nós vamos levar os Horses.
LINHA M
Autora: Patti Smith
Tradutor: Claudio Carina
Editora: Companhia das Letras (216 p., R$39,90, R$27, 90 o e-book)
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