Musical mostra a origem de Mona Lisa
É uma noite muito especial para o Teatro Arqueológico de Fiesole, que fica a oito quilômetros de Florença, na região da Toscana, na Itália. Situado em uma colina com vista esplendorosa para o Vale do Arno, ocupado pelos etruscos ainda no século 8.º a.C., o local recebe centenas de espectadores. Com assentos ao ar livre, o teatro romano enche em…

É uma noite muito especial para o Teatro Arqueológico de Fiesole, que fica a oito quilômetros de Florença, na região da Toscana, na Itália. Situado em uma colina com vista esplendorosa para o Vale do Arno, ocupado pelos etruscos ainda no século 8.º a.C., o local recebe centenas de espectadores. Com assentos ao ar livre, o teatro romano enche em poucos minutos. Os olhares curiosos buscam incessantemente identificar o rosto do ator que está prestes a interpretar uma das figuras artísticas mais importantes da história: Leonardo da Vinci.
Não demora muito para que o jovem Antonio Melissa seja reconhecido e caia nas graças do público. Desenvolto, o italiano de 35 anos chama a atenção pela boa expressão corporal e afinação impecável. “Estudar e estudar. Sempre! Que responsabilidade a minha!”, diz ele nos bastidores.
Melissa, que vive Da Vinci na juventude, é um dos destaques de Leonardo, il Musical, que estreou na Itália na semana passada. Dirigido pelo músico, diretor e dramaturgo brasileiro Adrian Steinway e o português João Carvalho Aboim, o espetáculo faz parte das celebrações mundiais que lembram os 500 anos da morte de Leonardo da Vinci.
Nascido em 1452, filho bastardo de uma camponesa e de um tabelião muito rico, Da Vinci ajudou a formatar o método científico e enveredou pelas mais diversas ciências: da botânica à engenharia militar, da cartografia à ótica, da anatomia à geologia. Ele também deixou mais de 7 mil desenhos, projetos, esboços e perguntas como “o que é a alma?”.
Leitor de Euclides e Arquimedes e estudioso do latim, Da Vinci criou máquinas voadoras e esboçou um projeto para desviar o curso do Rio Arno de Florença a Pisa. Foi exatamente ali, no Teatro Arqueológico de Fiesole, que ele teria criado muitos de seus experimentos relacionados às máquinas de voos com as quais tanto sonhava.
É na arte renascentista, no entanto, que Da Vinci alcançou seu reconhecimento mundial. E esse, portanto, é o foco do musical, que passa por vários pontos conturbados da juventude do artista. A primeira parte da história, inclusive, se concentra nesse período. Uma das cenas mostra um Da Vinci teimoso, que acreditava veementemente que a arte era pura inspiração e talento – o que lhe rendeu alguns bons puxões de orelha de seu mentor, o professor Verocchio (Roberto Andrioli).
A polêmica, e sempre controversa, orientação sexual de Da Vinci também é relatada no espetáculo. Acusado de sodomia pela jovem Bianca di Medici (Camila Gai), ele é julgado e condenado no tribunal de Florença. Após cumprir a pena, o artista decide voltar para Vinci, sua cidade natal. Posteriormente, ele acaba sendo convencido por sua amiga Costanza (Myriam Somma) a retornar a Florença. A jovem, por sinal, teria sido a primeira inspiração para que Da Vinci pintasse a Mona Lisa, sua maior obra-prima. Muitos teriam sido os rostos que inspirariam a criação do sorriso mais icônico do mundo. A história mais conhecida é de que Lisa Gherardini (Martina Ferragamo), mulher do nobre Giocondo (Fabrizio Checcaccci), tenha sido a grande musa inspiradora. A mãe de Da Vinci, Catarina (Laura Pucini), e seu ajudante e aprendiz Salai (interpretado pelo brasileiro Pedro Reis) também são alguns dos possíveis nomes.
Salai também teria sido o modelo oficial de inúmeros quadros de Da Vinci, incluindo o famoso São João Batista. Pesquisas históricas apontam também que Da Vinci e Salai chegaram a ter um relacionamento. “A sexualidade de Da Vinci ainda é um tabu muito grande na Itália. Embora seja do conhecimento de todos, assuntos assim precisam ser tratados com sutileza. Tentei fazer isso de forma delicada”, conta o diretor Adrian Steinway. Quase na metade do espetáculo, Reis e Melissa fazem um dos duetos mais bonitos e emocionantes da peça. “Estou aprendendo a falar italiano. Sei algumas coisas e acho que consigo ter um diálogo bastante fluido”, conta o tímido Pedro Reis, de 26 anos.
Do ponto de vista histórico, o drama inclui também vários fatos importantes que influenciaram diretamente a obra artística do jovem Leonardo da Vinci. O principal deles é Conspiração dos Pazzi. Em 1478, a família de banqueiros florentinos, liderada por Jacopo Pazzi, tentou tomar o poder dos irmãos Juliano (Giacomo Fabbio) e Lourenço de Médici (Edoardo Ferragamo). Juliano foi assassinado, mas Lourenço sobreviveu ao ataque. O golpe foi arquitetado com a ajuda do papa Sisto IV, de Federico da Montefeltro, e do arcebispo de Pisa. O arcebispo acabou enforcado numa das janelas do Palazzo Vecchio, enquanto a multidão esquartejou os outros conspiradores. O papa, todavia, não se deu por vencido, pois era apoiado por Fernando I, rei de Nápoles. Lourenço, porém, foi pessoalmente à cidade e convenceu Fernando a apoiá-lo, encerrando assim a conspiração. Esse momento histórico conturbado é plano de fundo para mostrar a ascensão de Da Vinci como artista renascentista.
Estreia no Brasil
Além de Adrian Steinway e Pedro Reis, o músico Felipe Grytz e a coreógrafa Aline Chan integram a equipe brasileira de Leonardo, il Musical. Juntos, eles lideram um elenco italiano de 16 atores, cantores e bailarinos, 25 músicos de Fiesole e 40 crianças que fazem parte do espetáculo.
Com montagem de Roberto Andrioli e direção musical de Leonardo Paccini, o espetáculo deve chegar ao Brasil entre fevereiro e março de 2020. “A ideia é organizar os principais traços e personagens fundamentais da vida de Da Vinci, mesmo sabendo da impossibilidade de se fazer um espetáculo exaustivo e hagiográfico, mas com a intenção de celebrá-lo por seu tamanho artístico e científico, universalmente reconhecidos”, acrescenta Steinway.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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