Nem o herói é perfeito em ‘Caçada Mortal’
Assim como o título original de O Mensageiro – Kill the Messenger permite uma leitura mais interessante do longa de Michael Cuesta em cartaz no País, o de Caçada Mortal também mostra como as diretrizes de mercado podem trair as intenções de uma obra. O título Caçada Mortal é sob medida para explorar a nova popularidade do irlandês Liam Neeson…

Assim como o título original de O Mensageiro – Kill the Messenger permite uma leitura mais interessante do longa de Michael Cuesta em cartaz no País, o de Caçada Mortal também mostra como as diretrizes de mercado podem trair as intenções de uma obra. O título Caçada Mortal é sob medida para explorar a nova popularidade do irlandês Liam Neeson como herói. Nos últimos anos, ele tem protagonizado filmes de sucesso que esculpiram sua persona de astro de ação. Mas Neeson é ator dramático, e dos bons.
Caçada Mortal tem um título muito mais ambivalente no original – A Walk Among the Tombstones, Caminhando entre as Lápides. Não parece muito de acordo com a ideia de um brucutu armado e vingativo. Tem tudo a ver com a série de romances policiais de Lawrence Block, centrados no personagem de Matthew/Matt Scudder (e com o livro que também ganhou esse título no Brasil). Alcoólatra, o ex-tira que perdeu a licença virou investigador particular. Logo no início, uma ação sucinta expõe seu caso. Ele bebe num bar, ocorre um assalto, Scudder sai disparando, mata dois assaltantes e deixa o terceiro paralítico. Há mais alguma coisa, e é o tormento de Scudder – aquilo que não vemos nem sabemos de imediato, mas que o persegue.
Nosso homem é contratado por um traficante para descobrir quem matou a sua mulher com requintes de crueldade. A ligação com o tráfico torna o herói objeto de escárnio da polícia, mas é ele quem faz as conexões que escaparam a seus antigos colegas. Uma dupla está matando mulheres. Usa a mesma técnica, sequestro com pedido de resgate, mas a vítima só reaparecerá morta.
Considerando-se como as armas são importantes para os norte-americanos, o filme surpreende pelo discurso do herói contra elas (o que não o impede de usá-las). Esse olhar crítico é coisa de Scott Franck, que é roteirista, e bom. Escreveu um filme ambicioso de Steven Spielberg sobre métodos policiais, Minority Report – A Nova Lei, e até obras mais pops como Wolverine: Imortal e Marley e Eu. Franck desenha seus personagens com intensidade. Ninguém, muito menos o herói, é perfeito. Scudder pode se envolver numa caçada mortal, mas seu passeio é muito mais entre as lápides de um cemitério.
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