Nos 450 anos do Rio, 4 mostras lembram a história da cidade
“Eu estou convencido de que se poderia bem viajar meses inteiros pela cidade do Rio, achando-se todos os dias alimento agradável para o espírito e o coração”, escreveu Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) em suas crônicas no Jornal do Commercio, que viriam a ser editadas em 1862 no livro Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro. As paisagens…

“Eu estou convencido de que se poderia bem viajar meses inteiros pela cidade do Rio, achando-se todos os dias alimento agradável para o espírito e o coração”, escreveu Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) em suas crônicas no Jornal do Commercio, que viriam a ser editadas em 1862 no livro Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro. As paisagens evocadas pelo autor de A Moreninha, essencialmente o centro e arredores, inspiraram tanto artistas quanto fotógrafos, que criaram imagens seminais da iconografia carioca. Na esteira dos 450 anos de fundação da cidade, quatro exposições de fôlego e complementares, em cartaz em diferentes centros culturais, enfocam essa produção e propõem reflexões sobre o papel desses retratos do Rio na construção do imaginário coletivo.
No Instituto Moreira Salles, estão 50 aquarelas e gravuras pinçadas de seu acervo para ilustrar as crônicas do escritor flâneur. Para além do Passeio Público, da Praça 15, Rua do Ouvidor e das panorâmicas do morro de Santo Antônio, retratados por artistas europeus de passagem pelo Rio, aparecem tipos comuns à época: o estudante da Escola Militar, com uniforme paramentado, a quitandeira, os vendedores de água e doces, os carregadores de café – habitantes de uma cidade de 200 mil habitantes, capital do império, em fase de crescimento e de desenvolvimento do processo civilizatório, mas ainda rural.
O Rio de Janeiro de Debret, no Centro Cultural Correios, tem o mesmo recorte. A diferença são as dimensões da mostra e a grife: 120 obras do pintor e desenhista, o principal artista entre os que vieram de Paris ao Rio em 1816. Debret ficaria 15 anos e, como pintor oficial da corte, retratou os mais importantes fatos históricos do período: a independência, as aclamações de d. João VI, d. Pedro I e d. Pedro II, as viagens da família imperial.
Os costumes, as procissões fúnebres e missas, os castigos aos escravos rebeldes em praça pública, o transporte dos ricos em cadeirinhas carregadas pelos serviçais, os meninos brincando de soldados, o lado prosaico da vida carioca também o ocupou. Pela abrangência do repertório – documentado, na volta à França, no compêndio Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil -, Debret entrou para a história como o pintor estrangeiro que melhor descreveu o Brasil na primeira metade do século 19, a capital em especial.
A partir de 1850, notadamente na virada para os anos 1900, a fotografia iria dominar a produção de imagens, como se aprende em Rio: Primeiras Poses – Visões da Cidade, com a chegada da fotografia (1840-1930), mostra também organizada pelo Moreira Salles. Com a nova técnica, a paisagem, entre mar e montanha, se consolidaria como marca decisiva da representação do Rio.
Os primeiros profissionais dessa leva foram os franceses Augusto Stahl, Victor Frond e Revert Henry Klumb e o suíço Georges Leuzinger, cujos trabalhos de maior relevância estão sendo exibidos. Os brasileiros Marc Ferrez e Augusto Malta mereceram mais destaque, por terem documentado as profundas transformações urbanísticas da cidade e a expansão rumo à zona sul.
Único com câmera capaz de fazer panorâmicas de grande formato, Ferrez, estabelecido em 1867, tornou-se o profissional mais conhecido da fotografia de paisagem e urbana no Rio, sendo autor do monumental Álbum da Avenida Central, em que registrou a construção da via de ligação entre o porto e a zona sul.
Malta, nas primeiras décadas do século 20, teve papel fundamental por ser o fotógrafo oficial da Diretoria-geral de Obras e Viação da Prefeitura do Distrito Federal e da companhia de eletricidade, a Light. Ele se dedicou principalmente às obras de modernização do Rio, que deixava o passado colonial e se europeizava, com a ambição de se tornar a Paris tropical.
De grande qualidade técnica e estética, as fotos vão das praias de Copacabana, Leme e Ipanema ainda virgens, antes de aterros e edificações, ao centro com prédios originais, afrancesados, com ruas apinhadas de homens de terno e chapéu, e o carnaval. Os signos da modernidade carioca estão todos ali. As ampliações fazem com que o visitante se sinta parte das cenas registradas.
Coordenador de fotografia do IMS e curador da exposição, Sergio Burgi traça a diferença entre as imagens, de uma era anterior ao fotojornalismo, e as surgidas ao longo do século 20. “Não são imagens edulcoradas da cidade, e sim a junção de elementos definidores dessa cidade, cujas contradições viriam a se agravar”, pontua.
“Também não é um olhar da fotografia humanista do pós-guerra. Esses fotógrafos foram responsáveis pela construção de uma representação que é reforçada até hoje. Ferrez, por exemplo, construiu uma visão quase onírica do Rio. A percepção que se tem da cidade vem dali.”
Imagens como a do morro da Providência, no centro, a primeira favela, povoada por soldados egressos da Guerra de Canudos desde 1897, aparecem esporadicamente nessa iconografia. Isso porque o olhar dos fotógrafos era atraído para a cidade que se refazia para o futuro, os novos bairros, “a vitrine da modernidade”, explica Cícero Almeida, diretor do Centro Cultural da Justiça Federal, que exibe A Cidade Idealizada – O Rio de Janeiro Através dos Cartões-postais (1900-1930). Alguns deles são de Ferrez.
“O cartão-postal ilumina o lugar retratado, não se faz cartão-postal para enfear”, diz Almeida, que reuniu cerca de 150 exemplares de coleção particular. Segundo ele, o período abarcado representou a “época de ouro” dos postais no Brasil, quando as comunicações eram difíceis. O Rio como destino turístico era “vendido” com eles para o País e o mundo.
O visitante conhece o morro do Corcovado sem o Cristo, as praias com jangadas de pescadores, o primeiro bondinho do Pão de Açúcar, o porto com galpões novinhos, edifícios que não existem mais, como o Palácio Monroe e o Hotel Avenida. Os cartões chegaram ao Brasil em 1880 e se popularizaram rapidamente. “As imagens dessa cidade idealizada não são do Rio colonial, não têm aspectos sociais marcantes. É quase uma cidade europeia. Há uma coincidência entre a disseminação dos postais e a vontade do governo de divulgar a cidade com as características que ela teria no futuro”, acrescenta Almeida. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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