O maracatu invade as ruas de Taubaté

Ao lado do coreto mal iluminado da praça Monsenhor Silva Barros, Centro de Taubaté, ouvia-se um som muito alto que chamava a atenção de quem passava ou mesmo de clientes jantando dentro das pizzarias às 20h de um sábado à noite.

Escrito por: Renan Simão3 min de leitura
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Som das alfaias comandam cortejo do Baque do Vale pelo centro da cidade

Divulgação/Daniel Paiva

Às 20h do último sábado (19), ao lado do coreto mal iluminado da praça Monsenhor Silva Barros, centro de Taubaté, ouvia-se um som muito alto que chamava a atenção de quem passava ou mesmo de clientes que estavam nas pizzarias no entorno da praça.

Jovens e senhores batiam suas caixas e alfaias (espécie de tambor) sem dó; moças, de vestido e faixas na cabeça, dançavam e balançavam seus agbês (grandes chocalhos de miçangas). Mesmo abafado pela percussão, o canto dos 30 integrantes continuava a soar. Num aviso com o apito, o comandante do som iniciou o movimento do grupo que percorreu as ruas do centro da cidade.

Esse é o maracatu do Baque do Vale, conjunto que se dedica à prática do ritmo pernambucano em Taubaté e, nesse sábado, fez uma toada em homenagem à Nação Estrela Brilhante, grupo de maracatu do Recife, que completou 108 anos de existência.

Os músicos percorrem as ruas do centro, passam pela praça Dom Epaminondas, pelo Mercado Municipal e chegam próximos à Via Dutra. Por onde passam, o som ecoa. Os moradores do centro não podem deixar de ouvir o som grave e violento das alfaias. “O som é tão forte que até ativa os alarmes dos carros, às vezes”, conta o coordenador musical do grupo, Flávio Itajubá. Janelas se abrem em frestas, frequentadores de bares espiam, luzes de prédios se acendem e moradores de rua dançam com o baque do arrastão.

Dentro do Mercadão, os toques percussivos reverberam no ambiente fechado, dando a impressão de que o teto metálico treme, chamando a atenção de quem monta as barracas para a feira de domingo.

Ao atravessar um cruzamento, um caminhão de lixo para a coleta para ver o grupo. Os músicos se curvam para os lixeiros, que, por sua vez, os aplaudem. O motorista ainda tenta fazer um som ritmado com a pressão de ar do caminhão.

O encerramento do cortejo acontece próximo à Dutra, em frente à casa de Itajubá. Depois de um canto feito sem instrumentos e uma sessão de abraços entre todos, o coordenador diz: “a energia foi muito boa. Não é o número de alfaias que faz o som ser forte, é a energia que rege o maracatu, quando rola assim a potência do som multiplica”, afirma.

Praça da rodoviária
O Baque do Vale faz-se ouvir todas as quintas-feiras, às 20h, na praça Doutor Barbosa de Oliveira, ao lado da rodoviária velha, quando promove o “Batuque de Quinta”, projeto de oficinas de maracatu abertas ao público. “Não precisa conhecer, não precisa ter instrumento, é só chegar e aprender”, diz Itajubá, 36 anos, que também é gerente de cultura da Prefeitura de Taubaté.

O grupo faz o maracatu de baque virado, “uma versão mais lenta, mais forte e sem a temática religiosa que tem o maracatu de baque solto, que só é praticado em Pernambuco”, como fala Itajubá. O baque daqui se apresenta em festejos das cidades da região como da Festa do Divino, em São Luiz do Paraitinga, e se mantém pela remuneração de seus cortejos e, atualmente, por verba de R$ 45 mil do projeto “Cultura na Kombi”, que leva o maracatu à periferia de Taubaté, por meio edital da Volkswagen.

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