O personagem perfeito para biógrafos fazerem a festa
A cena em que Elton John flutua quando coloca as mãos no piano, fazendo flutuar também a plateia do Troubador, só perde, no mundo das cinebiografias, para a sequência em que Ray Charles, menininho perdendo o que lhe resta da visão, sai pela sala de casa tentando pegar um grilo. Ele não vê mais, apenas ouve. Chama a mãe e a mãe olha, se…

A cena em que Elton John flutua quando coloca as mãos no piano, fazendo flutuar também a plateia do Troubador, só perde, no mundo das cinebiografias, para a sequência em que Ray Charles, menininho perdendo o que lhe resta da visão, sai pela sala de casa tentando pegar um grilo. Ele não vê mais, apenas ouve. Chama a mãe e a mãe olha, se segurando para não ajudá-lo desta vez e calando até o soluço no outro canto da sala, sem fazer um ruído para, enfim, deixar seu filho sozinho com o que a vida lhe reserva: a escuridão e o som.
Assim como Ray, Elton John tem elementos de sobra para biógrafos refestelarem-se. O último a fazê-lo foi Tom Doyle, um jornalista musical inglês com um bom texto e um trunfo nas mãos: as entrevistas que fez com o quase inacessível Elton John. Ler sua obra Captain Fantastic -A Espetacular Trajetória de Elton John nos anos 1970 (Benvirá) é saber um pouco mais do que outras já vasculharam. E em alguns casos, um pouco menos.
O biógrafo anterior foi David Bucley, outro jornalista inglês que lançou em 2011 Elton John, A Biografia. Alguns episódios são melhores em seu trabalho, como a passagem em que Elton decide demitir o baterista Nigel Olsson e o baixista Dee Murray. É isso não é pouco. Olsson voltaria para a banda anos depois e está lá até hoje. Murray morreu vítima de enfarte em 1992. Enquanto Doyle dribla esse momento dando uma balinha para o leitor, Bucley tem frases dos próprios envolvidos. “Pelo que li na imprensa, o motivo de nos ter dispensado é que ele queria seguir uma nova direção musical. E acho que ainda não conseguiu”, diz Olsson, mergulhado na mágoa que nunca deve passar.
Os dramas existenciais de Elton John alimentam os melhores episódios. Afinal, Elton era o avesso do avesso desde que usava o nome de batismo, Reginald Dwight. Gordinho, baixinho, de óculos e atrás de um piano. Qual seriam mesmo suas chances de liderar uma banda de rock como queria desde que se apresentava como integrante do Bluesology? E estamos falando dos anos 1970, quando a guitarra estava no front e a imagem dos heróis era definida por Robert Plant, Paul e Lennon, Roger Daltrey, Jim Morrison, Jimi Hendrix, Mick Jagger e David Bowie. Quem colocaria suas fichas em Reginaldo?
Elton, então, pirou. Em crise de aceitação, ligou o gás do fogão e ajeitou sua cabeça confortavelmente sobre a almofada colocada dentro do forno. Mas Bernie Taupin, seu parceiro, chegou e riu tanto que a morte não teve clima para chegar naquela noite. Someone Saved My Life Tonight é sobre isso.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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