Pinacote ganha Lore
Um dos maiores colecionadores de Volpi no Brasil, o empresário Orandi Momesso é dono de um acervo em torno de 3 mil obras, que cobre praticamente todos os períodos da arte brasileira, incluindo acadêmicos, pré-modernos, modernistas e contemporâneos. Neste sábado, 27, ele doa 23 obras dessa coleção para a Pinacoteca do Estado, em cerimônia que…

Um dos maiores colecionadores de Volpi no Brasil, o empresário Orandi Momesso é dono de um acervo em torno de 3 mil obras, que cobre praticamente todos os períodos da arte brasileira, incluindo acadêmicos, pré-modernos, modernistas e contemporâneos. Neste sábado, 27, ele doa 23 obras dessa coleção para a Pinacoteca do Estado, em cerimônia que será realizada às 11 horas no átrio do museu. Entre elas estão peças de três pintores falecidos, a alemã Eleonore Koch (1926-2018), o italiano Mick Carmicelli (1893-1967) e o brasileiro Rafael Galvez (1907-1998). Eleonore, ou Lore Koch, viveu praticamente a vida toda no Brasil, assim como Carmicelli, ambos artistas introspectivos, de temperamento melancólico, que começam finalmente a ser reconhecidos e disputados no mercado (obras de Lore estarão na Frieze de Nova York em maio). Comprovando essa ascensão, o leilão das obras que estavam em poder de Lore ao morrer, realizado em novembro passado, arrecadou R$ 3,4 milhões e reuniu 90 colecionadores na disputa pelas obras da única discípula de Volpi.
Momesso arrematou nesse leilão a peça de mais alto valor, uma paisagem do deserto do Arizona pintada em 1995 por Eleonore Koch. Uma têmpera sobre tela (76 x 102 cm) reproduzida no livro Lore Koch, publicado pela editora Cosac Naify em 2013, a pintura, com lance inicial de R$ 40 mil, alcançou R$ 255 mil, ou seja, um valor seis vezes superior, sendo disputada por 12 dos presentes ao leilão, incluindo representantes da Pinacoteca do Estado. Havia um acordo entre a instituição e Momesso para que o colecionador não fizesse lances para esse lote, mas a Pinacoteca desistiu quando a pintura alcançou R$ 180 mil. Momesso, então, entrou na disputa. Como já tinha em sua coleção uma outra paisagem do Arizona da artista, resolveu doar a tela, a mais valiosa do conjunto agora entregue à coleção da Pinacoteca. “Sabia que a Pinacoteca tinha interesse na pintura, que integra uma série com cinco ou seis versões em diferentes cores.” Além de Momesso, outro colecionador de Volpi que tem uma delas é o engenheiro Ladi Biezus.
Duas das 23 obras já estavam na instituição em regime de comodato, as esculturas A Primavera (1939) e O Brasileiro (1940), ambas de autoria do também pintor Rafael Galvez. Momesso resolveu doar ambas à Pinacoteca e tem planos para outras esculturas de Galvez, que vão figurar na extensa área verde do parque cultural que o colecionador está montando em Iporã, município da região noroeste do Paraná. Natural do Estado, o paranaense Momesso tem lá uma fazenda onde plantou 50 mil árvores e reservou parte dos 40 alqueires para erguer esse parque, que deve concorrer em beleza com Inhotim – e também em obras de peso, pois vai ter esculturas de Brecheret, Bruno Giorgi e outros nos jardins desenhados por Rodolfo Geiser. O paisagista é o mesmo que projetou os bosques e a vegetação do Parque Villa-Lobos, em São Paulo. No futuro Parque Geminiani Momesso, dedicado pelo colecionador à mãe, também haverá uma capela ecumênica com pinturas especialmente concebidas para o local por Paulo Pasta.
Momesso diz que o projeto ainda está em forma embrionária, mas o fato é que seu espírito empreendedor e seu amor pela arte são inquestionáveis. Entre os volpistas, ele tem algumas das melhores telas do pintor, assim como raras obras de seus contemporâneos, destacando-se pinturas de Ernesto de Fiori (1884-1945).
Sua relação próxima com os pintores, que inclui visitas periódicas aos seus ateliês, diferencia Momesso de outros colecionadores. Ex-proprietário de uma rede de escolas de ensino da língua inglesa, ele invariavelmente mostrou inclinação para pintores como Mick Carmicelli, que registrou a transformação arquitetônica e urbanística de São Paulo de um ponto de vista único, o de um ser solitário que vê o mundo pela janela de seu ateliê, carregando na atmosfera soturna da cidade. Eleonore Koch, igualmente, foi outro espírito isolado, alheio aos apelos do mercado, que criou paisagens e naturezas-mortas com base em fotografias e objetos presenteados pelos amigos colecionadores – muitos deles por Momesso. “Ambos têm muito a ver com minha alma”, resume o colecionador sobre essas duas afinidades eletivas. E generosas: Eleonore doou em testamento duas obras para a Pinacoteca: uma tela de José Antonio da Silva (Fuga para o Egito) e um nu em terracota de Bruno Giorgi.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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