Post homofóbico humilhava e demorou a sair do ar, diz executivo do Corinthians
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Antes mesmo do início do mandato do futuro presidente do Corinthians, Duilio Monteiro Alves, que tomará posse em 4 de janeiro, um executivo escolhido por ele entrou em ação diante de uma crise de imagem gerada por uma publicação preconceituosa nas redes sociais do clube. José Colagrossi, futuro superintendente de…

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Antes mesmo do início do mandato do futuro presidente do Corinthians, Duilio Monteiro Alves, que tomará posse em 4 de janeiro, um executivo escolhido por ele entrou em ação diante de uma crise de imagem gerada por uma publicação preconceituosa nas redes sociais do clube.
José Colagrossi, futuro superintendente de marketing, comunicação e inovação, assumiu a linha de frente nas medidas tomadas pela agremiação após críticas por um post na semana passada.
A postagem no Twitter aludia a uma associação homofóbica conhecida entre torcedores alvinegros, de que o estádio do São Paulo era como um panetone, por ser “cheio de frutinhas”.
O clube apagou a imagem, se desculpou e divulgou uma nota na qual se compromete a treinar seus funcionários para evitar novos casos assim.
Segundo Colagrossi, que deixará no fim do mês o cargo de diretor-executivo do Ibope Recupom, essas medidas não agradaram a cerca de 40% dos torcedores que comentaram nas redes sociais, mas elas fazem parte de uma nova mentalidade que ele pretende implementar no clube.
“Aquele post humilha pessoas, e nossa regra básica é fazer a coisa certa, independentemente de ser popular ou não. Não estamos atrás de likes”, diz em entrevista. Ele criticou as duas horas levadas para excluir a publicação.
No Corinthians, Colagrossi ocupará um cargo novo e será remunerado. À frente do departamento de marketing, comunicação e inovação, estará acima hierarquicamente dos diretores estatutários dessas áreas.
PERGUNTA – O que foi proposto ao senhor pelo presidente eleito no momento em que ele foi procurá-lo e qual liberdade lhe foi oferecida para implementar suas ideias de trabalho?
JOSÉ COLAGROSSI – Quando o Duílio decidiu ser candidato, ele me pediu ajuda para montar uma plataforma de campanha e de gestão nas áreas que eu atuo. Já durante a campanha, eu dei algumas ideias, como não separar marketing do comercial, da comunicação e de licenciamento. São áreas afins, têm de trabalhar com sinergia. Isso não é assim na enorme maioria dos clubes brasileiros. Acabam se formando feudos, com áreas de influência.
Por que clubes com a grandeza do Corinthians, com uma torcida tão expressiva, nem sempre conseguem traduzir isso em geração de receitas?
JC – O futebol brasileiro, durante muito tempo, ficou na dependência de três receitas: venda de jogadores, direitos de transmissão de TV e licenças comerciais. Na virada do século, entrou uma quarta receita, que foi o sócio torcedor. Mas os clubes sempre agem passivamente em relação ao engajamento com o torcedor. O grande erro dessa visão, que não é do Corinthians, é do futebol brasileiro, é achar que a paixão do torcedor por si só gera engajamento. Não é verdade. É preciso tratar o torcedor como consumidor. Tem de alimentar essa paixão. Com a digitalização da sociedade, o torcedor se tornou um protagonista porque tem poder midiático. É preciso respeitar esse poder e criar um diálogo.
Como estabelecer esse diálogo com os torcedores, sobretudo no meio digital, e lidar com a polarização que existe nas redes sociais?
JC – Quando soltamos a nossa nota oficial, no dia seguinte [à publicação preconceituosa], monitoramos as redes e 40% dos comentários de corintianos eram contrários [à nota]. Eles não queriam apenas que o clube não se desculpasse, mas também colocasse o post de novo. ‘Vamos postar, isso é mimimi, o clube se acovardou’. Como a gente lida com isso? Primeiro, tem de entender que tem uma nação bastante diversa, com ideias diversas, comportamentos diversos e isso sempre acontecerá. Quando isso acontece, é parte do jogo criar um diálogo. O segundo passo é separar a crítica da agressão, do abuso. Aquele post humilha pessoas, e nossa regra básica é fazer a coisa certa, independentemente de ser popular ou não. Não estamos atrás de likes. Proativamente, mandamos uma mensagem também a todos os patrocinadores dizendo o que havia ocorrido, lamentando e elencando o que fizemos.
A cultura do Brasil é muito de ficar quieto, deixar o assunto morrer. A gente espera que isso sirva de exemplo. Não pode ser essa filosofia de ficar quieto, porque as pessoas que se sentiram humilhadas por aquele post não vão esquecer.
Por que o clube optou por não demitir o colaborador?
JC – A possibilidade de demissão foi discutida. E a pergunta que foi feita foi a seguinte: fulano de tal, prefiro não dizer o nome dele, é homofóbico? As pessoas que lidam com ele regularmente sabem se ele é uma pessoa homofóbica? Por que se a resposta fosse que sim, que ele costuma fazer piadas ou ria de piadas homofóbicas, talvez a decisão tivesse sido outra. Mas ele cometeu um erro por ignorância do que aquilo significava, então não era questão de demitir e, sim, de treinamento, de educação. Ele não foi o único advertido. O superior dele também foi. Mesmo que ele não tivesse acesso ao conteúdo previamente, nós demoramos duas horas para deletar o post. E eu fui informado disso pelo meu Twitter. Como eu não fui informado pelo clube?
Como foi sua conversa com o Duílio sobre esse tema, sobretudo porque ele mesmo já fez uma piada homofóbica quando o Cantillo foi contratado e pediu para usar a camisa 24?
JC – Sem entrar em detalhes das discussões, o Duilio apoiou tudo. Não foi uma decisão do Colagrossi, foi uma decisão do clube. Ele [Duilio] foi parte da solução.
Em entrevista durante a campanha, Duílio enfatizou a importância da digitalização de todos os processos do Corinthians. Quais são os projetos referentes a esse tema?
JC – Primeiro, vou criar um aplicativo para o sócio, onde ele possa ter todas as interações com o clube. Depois, vamos fazer a digitalização de todos os processos, desde o financeiro ao estoque, para que a gente tenha acesso a tudo isso ao alcance de um celular.
Como buscar patrocinadores e novas receitas em 2021 ainda num cenário de pandemia?
JC – A principal mudança é transformar venda de patrocínio em parceria comercial, e tem uma grande diferença prática nisso. A venda de patrocínio é baseada em visibilidade. Isso não vai mudar, mas existe uma segunda vertente de valor que é o engajamento com a torcida. É transformar o torcedor do clube em torcedor da marca. Tem de trazer monetização para o patrocinador.
Quais são os projetos para a arena do Corinthians gerar mais receitas?
JC – Nossa estratégia é transformar a Neo Química Arena num centro vivo da paixão corintiana. Tenho um projeto, por exemplo, de criar uma incubadora para jovens terem apoio logístico, estrutura e mentoria para criarem startups digitais.
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