Resistência, exílio e comunismo no Fórum das Letras
No primeiro dia de programação do Fórum das Letras, o tom foi político – e só não foi mais porque a última mesa, sobre a reconquista da democracia, com Paulo Markun e Geneton Moraes Neto (Fernando Morais também participaria, mas cancelou sua vinda a Ouro Preto), foi transferida para esta sexta-feira, 31, por causa de atrasos ao longo do…

No primeiro dia de programação do Fórum das Letras, o tom foi político – e só não foi mais porque a última mesa, sobre a reconquista da democracia, com Paulo Markun e Geneton Moraes Neto (Fernando Morais também participaria, mas cancelou sua vinda a Ouro Preto), foi transferida para esta sexta-feira, 31, por causa de atrasos ao longo do dia.
Convidados para o debate Revelações à Margem da História, Cláudio Aguiar, biógrafo de Francisco Julião, Mário Magalhães, autor de Marighella – O Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo, e Frei Betto, que foi preso político, ouviram da plateia a pergunta: a luta era pela democracia ou para fazer o golpe comunista, tendo em vista que era um mundo bipolar – capitalista e comunista?
“Lutávamos para derrubar a ditadura e para que o Brasil se transformasse em um país socialista. Prefiro sociedades onde os direitos sociais tenham prioridade sobre os direitos pessoais”, respondeu Frei Betto.
A pergunta foi feita por causa da recente eleição para presidente e de argumentos usados por alguns grupos sobre a iminência de um golpe comunista. E Frei Betto continuou: “O Brasil está dividido há muito tempo. Aqui, uma minoria, 10% da população, tem 48% da renda. A divisão do Brasil é social, não é eleitoral”. Para Mário Magalhães, a divisão vem pelo menos do desembarque dos portugueses.
Os participantes se animaram com o assunto e falaram da situação do País hoje. “O Brasil melhorou muito e, desculpe Betto, não caiu do céu. Foi o resultado de uma luta social”, disse Magalhães dirigindo-se ao religioso. E comentaram sobre o que chamaram de tentativa de desqualificar a população brasileira, sobretudo a nordestina, na tentativa de deslegitimar o resultado da eleição. “Golpe é rasgar a Constituição não acatando o resultado da eleição”, completou Magalhães. O PSDB pediu, na quarta-feira, auditoria do resultado das eleições.
Resistência
Ainda na quinta-feira, dois escritores obrigados, nos dias de hoje, a deixarem seus países por perseguição política ou religiosa, Julia Olivera, de Honduras, e Mohsen Emadi, do Irã, conversaram sobre o tema Exílio Ou Silêncio em mesa que contou, ainda, com a mexicana Maria Tereza Atrián, que vive no Rio, e Cláudio Aguiar – de volta ao palco. A abertura do debate foi feita por Frei Betto que, assim como Julia, foi obrigado a adotar pseudônimos em seus anos de militância.
Preso duas vezes – por 15 dias em 1964 e por quatro anos a partir de 1969 -, Frei Betto disse que a literatura é importante para romper com o silêncio imposto por ditaduras. Ele contou que amigos psicanalistas costumar perguntar como ele conseguiu ficar bem depois de ser preso e torturado, ao que ele responde: “Eu não admiti o silêncio; eu escrevi. Minhas cartas foram a minha terapia. É muito importante expressar o sentimento, transformar essas pedras que querem impor silêncios em nossa boca em flores. Buscar alguma forma de tornar público o nosso senso de justiça, a nossa indignação e, principalmente, nossa esperança”. E citou Paulo Freire dizendo que a palavra é, em si, libertadora.
Maria Tereza, na abertura de sua fala, manifestou sua indignação pelo recente assassinato e morte de estudantes mexicanos. Mais adiante, comentou as contradições de seu país que ao mesmo tempo que abriga exilados, como é o caso do iraniano, ele impede que a população se manifeste.
A poeta e ativista de direitos humanos, Julia Olivera, disse que silêncio não se trata de calar a voz. “Estão silenciando a alegria do meu país, e isso é o que mais me incomoda. Estão matando a alegria do meu povo”, desabafou. Mohsen Emadi encantou o público ao ler, em persa, os poemas de Carlos Drummond de Andrade de traduziu.
A repórter viajou a convite da produção do evento.
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