Revoluções Musicais do Século XX: Ascensão e Queda do rock no Brasil

Depois do grupo Os Mutantes, nos anos 1960, e o cantor folk Raul Seixas, nos 1970, a primeira banda a despertar a meteórica cena roqueira nos anos 1980 foi a Blitz, fundada por Lobão, comandada por Evandro Mesquita e Fernanda Abreu, chegando à marca de 500 mil discos vendidos com o compacto “Você Não Soube Me Amar”, de 1982.

Escrito por: Meon Redação6 min de leitura
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Depois do grupo Os Mutantes, nos anos 1960, e o cantor folk Raul Seixas, nos 1970, a primeira banda a despertar a meteórica cena roqueira nos anos 1980 foi a Blitz, fundada por Lobão, comandada por Evandro Mesquita e Fernanda Abreu, chegando à marca de 500 mil discos vendidos com o compacto “Você Não Soube Me Amar”, de 1982. Mas o grande esplendor do rock nacional, também conhecido como “BRock”, viria três anos depois, em janeiro de 1985, graças ao Rock in Rio, festival que receberia um milhão e meio de pessoas em 10 dias de evento.

Junto a grandes expoentes internacionais (como Queen, Iron Maiden, Ozzy Osbourne, AC/DC, Yes, entre outros), figuravam os brasileiros Blitz, Lulu Santos, Barão Vermelho, Kid Abelha e Paralamas do Sucesso. Com o Rock in Rio, o Brasil tornou-se, enfim, rota das grandes turnês internacionais e a indústria fonográfica nacional passou a enxergar o rock como grande aposta.

Neste mesmo período, o país assistia à eleição de Tancredo Neves, como primeiro presidente civil, eleito pelo povo, depois de uma longa ditadura militar iniciada com o golpe de 1964. O Brasil fazia as pazes com a vida democrática, com a liberdade de expressão, e o rock se aproveitou muito bem disso. De São Paulo vieram dois grandes sucessos. O primeiro deles, o álbum Nós Vamos Invadir Sua Praia, do grupo Ultraje a Rigor, debochava dos aspectos mundanos da classe média tupiniquim.

Outro grande boom do rock paulista viria com o grupo RPM e a primeira superprodução nacional, o show Rádio Pirata, dirigido por Ney Matogrosso, investindo pesado em efeitos visuais e equipamentos de som inéditos no Brasil. Rádio Pirata Ao Vivo venderia 2,2 milhões de cópias, um recorde absoluto para a indústria nacional.

Na mesma época, a banda Legião Urbana revelava a verve existencialista de Renato Russo, inspirada na estética pós-punk e gótica, especialmente nos cantores Morrisey (The Smiths) e Ian Curtis (Joy Division). Legião Urbana seria a primeira banda de Brasília influenciada pelo movimento punk – e logo chegariam outras, como Capital Inicial, Plebe Rude, Finis Africae e Detrito Federal.

Igualmente ousada e fora do eixo Rio-São Paulo, o grupo Camisa de Vênus (de Marcelo Nova) apareceria em 1985. Em São Paulo, resquícios do mod inglês de bandas como The Who, inspirariam outra banda de grande importância: o Ira!. O underground paulistano também trazia bandas derivadas do rock inglês: Muzak, Mercenárias, Akira S & As Garotas Que Erraram, Fellini e Voluntários da Pátria. Quase todas lançadas pelo selo independente Baratos Afins, antecipando a explosão dos pequenos selos que, uma década depois, fariam do rock indie uma cena marcante no Brasil.

O Rio de Janeiro surfava na mesma trilha, com Leo Jaime, Kid Abelha e Barão Vermelho, de Cazuza, notável poeta da vida libertária e da temática político-social. A explosão consumista impetrada pelo Plano Cruzado, com sua promessa de banir a inflação em 1986, fez a alegria da indústria de discos, que passou a assinar com “qualquer” banda de rock. A coletânea Rock Grande do Sul, que reunia bandas de Porto Alegre, apontaria grupos como Engenheiros do Hawaii e Replicantes. O movimento punk, que acabava de invadir o Brasil, seria responsável pelo nascimento, em São Paulo, de grupos como Cólera, Inocentes, Olho Seco e Garotos Podres.

Os Paralamas do Sucesso, do Rio de Janeiro, ganhavam crítica e público com sua conexão Brasil-Jamaica-Inglaterra-África. Em São Paulo, com o álbum Cabeça Dinossauro, os Titãs traziam as letras concretistas de Arnaldo Antunes e uma energia pós-punk sofisticada, avassaladora. Outra novidade foi o selo Plug (RCA), que lançaria grupos insólitos no mercado como Picassos Falsos, Hojerizah, Nenhum de Nós, Defalla, TNT, Violeta de Outono, entre outros.

Anos 1990 – fusões e experimentações
No início dos anos 90, o heavy metal de Minas Gerais atravessaria fronteiras e revelaria um fenômeno mundial: o Sepultura. Naquele mesmo período, a MTV estrearia no Brasil, injetando uma nova vida ao pop/rock brasileiro. Também começa a febre dos grupos cover e das bandas que passam a cantar em inglês, como o heavy metal do Viper, Dorsal Atlântica, Korzus, e o rock ruidoso e melódico de Second Come, Pin-Ups e Killing Chainsaw. Exceção à regra seria o crossover da banda Ratos de Porão, cantado em português.

O mercado nos anos 1990, por sua vez, se mostrava reticente e pouca coisa de sucesso acontecia. Enquanto isso, em Recife, destacava-se a cena mangue beat, de bandas como Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, que misturavam maracatu com rock. Ao mesmo tempo, o selo independente Banguela (da banda Titãs) lançaria os Raimundos, uma mistura pujante de Ramones e Genival Lacerda. Na fronteira do pop, os mineiros do Skank vendiam 1,8 milhão de discos, mas o recorde de discos vendidos, nesta época, viria do primeiro e único disco dos Mamonas Assassinas, com sua música prosaica e debochada.

Lançado em 1995, Mamonas Assassinas vendeu 2,6 milhões de cópias. Um ano depois, os cinco integrantes do grupo morreriam num trágico acidente de avião. Em 1994, a importante rádio-rock Fluminense, responsável pelo lançamento de inúmeras bandas dos anos 1980, encerraria suas atividades. Em novembro, a casa de show Circo Voador seria fechada para reforma. Em 1996, Renato Russo morreria de Aids. Em dezembro, o vocalista e guitarrista do Sepultura, Max Cavalera, deixaria a banda. Em 1997, foi a vez de Chico Science morrer num acidente de carro, em Recife, no auge de seu sucesso.

A essa altura, os discos ao vivo de versão acústica (resgatando antigos sucessos) seriam a grande salvação para a indústria e para muitas bandas no final do século XX. Novos artistas da música popular brasileira também dariam as caras – como Pedro Luís (e a Parede), o maranhense Zeca Baleiro, o pernambucano Lenine e o paraibano Chico César. Minas Gerais, por sua vez, reativava um pop mais diluído com as bandas Jota Quest e Pato Fu. Peso diferente para os cariocas do Rappa, misturando rock, funk, reggae e MPB. Em São Paulo, o rap combativo dos Racionais MCs invadiria o país, confirmando o gênero como novo fenômeno nacional.

A década de 90 chegaria ao fim trazendo um rock mais pasteurizado com as bandas Charlie Brown Jr., Los Hermanos, Penélope e Autoramas. Enquanto isso, Lobão lançava discos por seu próprio selo, Universo Paralelo, num esquema inédito de venda em bancas e na Internet, incendiando discussões sobre a exploração mercadológica das gravadoras, a propriedade intelectual livre e a independência artística pelas novas tecnologias.

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