Revoluções Musicas do Século XX: Free Jazz, a última travessia
Um dos maiores símbolos musicais do século 20, o jazz subverteu os dilemas da grande arte e viveu mutações quase comparáveis ao rock’n’roll. Por outro lado, foi realmente impressionante a rapidez com que o gênero fechou seu ciclo de experimentações. Desde o grande marco do bepbop, com o disco Ko-ko (1945), de Charlie Parker, até […]

Um dos maiores símbolos musicais do século 20, o jazz subverteu os dilemas da grande arte e viveu mutações quase comparáveis ao rock’n’roll. Por outro lado, foi realmente impressionante a rapidez com que o gênero fechou seu ciclo de experimentações. Desde o grande marco do bepbop, com o disco Ko-ko (1945), de Charlie Parker, até o primeiro álbum do estilo free jazz, Something Else!!! (1958), de Ornette Coleman, foram intensas revoluções em apenas 13 anos.
Coleman empurrava, sem saber, o jazz para um beco sem saída, abolindo toda a métrica regular harmônica e subvertendo todos os padrões rítmicos. John Coltrane, outra lenda do jazz, também começou a decolar para o free jazz no início dos anos 1960 – na linha modal, assim como fariam Coleman e Miles, explorando o flamenco, o funk, as músicas orientais, africanas e latinas. O free jazz se tornaria, em pouco tempo, um exemplo revolucionário que acabou levando o jazz ao excesso de experimentalismo e, mais tarde, ao seu esgotamento criativo.
No final dos anos 1960, na mesma época em que o rock atingia seu status épico com o festival de Woodstock, o jazz se dividia entre duas vertentes: a comercialização via rock (fusion) e a radicalização vanguardista – Miles Davis, por exemplo, impressionado com Jimi Hendrix e James Brown, partia espontaneamente para o fusion, seguido por nomes como Wayne Shorter, Herbie Hancock, Chick Corea, John McLaughlin e brasileiros como Hermeto Pascoal e Airto Moreira.
New Jazz – o último revival
Durante a década de 1970, o jazz praticamente hibernou. Uma década depois, nos anos 1980, o gênero passou a perder toda sua “pureza acústica”, cedendo lugar à febre dos recursos eletrônicos. A única maneira de revitalizar o jazz seria voltar às origens. Um punhado de músicos, então, resolveu enfrentar o desafio. Essa geração de jovens, batizados de Young Lions, trazia em comum o conhecimento musical profundo, o domínio técnico impecável e muita seriedade.
Acabavam-se os estigmas do músico autodidata, boêmio, drogado, excêntrico, impontual. O novo jazzista tinha vaidade e dinheiro, cursava as melhores universidades e conservatórios, mostrava bom comportamento e gostava de se vestir bem. Essas características trouxeram um ótimo retorno comercial ao jazz, com o aparecimento de novas casas noturnas, grandes festivais e boas vendagens de discos.
O jazz voltava a ter força publicitária, por suas qualidades de requinte e renovação. Foram essas qualidades que o New Jazz tentou resgatar – visitando o passado para montar sua própria modernidade. Mas nem tudo daria certo. Afastando-se de posturas vanguardistas e envolvidos com academias extremamente técnicas e conservadoras, os Young Lions acabaram implantando contribuições pouco relevantes ao jazz – deixando apenas sutilezas, nuances musicais escondidas ou superficiais. Entre os nomes do New Jazz estão: Branford Marsalis, Wynton Marsalis, Leroy Jones, Roy Hargrove, James Carter, Courtney Pine, Donald Harrison, Marcus Miller, Stanley Jordan, Pat Metheny, John Pizzarelli.
Miles Davis – paixão revolucionária
Miles Davis foi, sem dúvida, a maior força revolucionária do jazz. Estilisticamente, sempre procurou fugir dos padrões jazzísticos para criar seu próprio horizonte musical. Miles passaria por tantas transformações musicais quanto Picasso passaria com a pintura. A primeira delas seria dispensar a velocidade – quando esta ditava os caminhos do bepbop – para escolher um estilo mais elaborado, chamado de cool jazz, com notas longas e usos de silêncio.
Depois disso, teria papel fundamental para o movimento hard bop; e no final dos anos 1950, descobriria o jazz modal (estilo harmonicamente mais livre), enveredando para o flamenco e para a bossa-nova. Nos anos 60, Miles se entregaria à cadência roqueira liderando mais uma revolução: o fusion, movimento de aproximação com o rock – e com a música pop comercial – que trazia a utilização de instrumentos eletrônicos.
Sua última aventura prenunciava uma mistura com o hip hop, que nos anos 90 se consolidaria no chamado acid jazz – estilo que unia samples de clássicos do jazz, misturados com rap e dance – de bandas como US3, Brooklyn Funk Essentials e Jazzmatazz.
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