Ruy Guerra debate o tempo e a memória
Entre a ideia de adaptar Quase Memória, de Carlos Heitor Cony, e a concretização do projeto, houve um grande intervalo. E com muito trabalho no meio. Quatro versões do roteiro e reajustes constantes do projeto às possibilidades da produção. Por fim, saiu Quase Memória, o filme, que estreia hoje em circuito comercial. O filme é muito diferente…

Entre a ideia de adaptar Quase Memória, de Carlos Heitor Cony, e a concretização do projeto, houve um grande intervalo. E com muito trabalho no meio. Quatro versões do roteiro e reajustes constantes do projeto às possibilidades da produção. Por fim, saiu Quase Memória, o filme, que estreia hoje em circuito comercial.
O filme é muito diferente do livro (isso é uma quase obviedade), mas mantém seu essencial. Cony escreve, de forma ficcional, mas também autobiográfica, sua relação com o pai, jornalista como ele e figura poderosa. Temos esses elementos também na obra cinematográfica. Ernesto (João Miguel) é o pai fálico, recordado pelo filho, Carlos, em duas fases da vida. Carlos jovem é vivido por Charles Fricks), e o velho, por Tony Ramos.
A novidade é fazer o jovem e o velho conviverem, numa animada e polêmica conversa ao longo de uma noite. Esse expediente dramático nada tem de extravagante. É a conversa do homem consigo mesmo. Do homem maduro com o jovem que ele foi um dia.
Há um precedente ilustre na literatura dessa situação dramática. Num dos contos do Livro de Areia, O Outro, Jorge Luis Borges faz o mesmo. Borges idoso senta-se num banco de um parque em Genebra e percebe a presença de outro. É o jovem Borges e ambos começam um diálogo. A certa altura, o narrador (o Borges velho) queixa-se de que o diálogo é muito difícil entre duas pessoas que não podem mentir porque se conhecem bem demais. A verdade se impõe nesse diálogo consigo mesmo. Mas onde mora a verdade, senão no fundo de um poço, como dizia outro filósofo?
Essa adaptação segue a tendência de Ruy em trabalhar com paradoxos temporais e outras sutilezas do pensamento contemporâneo. Já havia aplicado ideias parecidas em dois dos seus filmes anteriores, Estorvo (da obra de Chico Buarque) e Veneno da Madrugada (adaptado de Gabriel García Márquez).
Houve o fato da falta de recursos, que dificultava seguir de perto a trama de Cony, ambientada num Rio de Janeiro que não existe mais e nas dependências de um jornalismo romântico que o tempo igualmente levou. Há cenas em velhos jornais e o jornal O Estado de S. Paulo presenciou a filmagem de uma delas, numa gráfica antiquada do Grajaú. Mas são poucas em relação ao que se exigiria em adaptação “fiel”.
Prefere-se então os espaços fechados, que concentram mais a ação em cima dos diálogos e um ambiente francamente teatral e operístico domina por vezes a encenação. Se a premissa do encontro consigo mesmo já pode soar fantástica (mas não fantasiosa), o recurso do narrador externo inclina o projeto para o lado surreal. A narração, o comentário em tom de coro grego, é feito nada menos que por um sapo – cuja voz é a do próprio Ruy Guerra!
Todos esses recursos não tiram a fluência de uma narrativa que, no fundo, é o da trajetória de uma vida, em seu balanço final, e reconciliação, possível ou não, com uma figura paterna forte demais.
Mas o filme não é apenas uma meditação abstrata sobre o tempo e a memória. Os encontros “consigo” mesmo se dão em datas historicamente muito carregadas, o que aumenta o lastro real da trama. Um desses momentos é o dia 13 de dezembro de 1968, quando o Ato Institucional n.º 5 enterra o que ainda havia de liberdades no País após o golpe de 1964. O outro é dia 1º de maio de 1994, quando morre em acidente em Ímola o piloto Ayrton Senna. Um grande trauma nacional, mas talvez uma das últimas oportunidades em que a Nação, no luto, se encontrou consigo mesma. Quem vive no Brasil polarizado de hoje sente o contraste com o tempo em que se tinha sensação, mesmo que ilusória, de pertencer a uma comunidade de irmãos, com valores e esperanças comuns. Com dores e alegrias compartilhadas.
Carlos, o homem que acompanha esse percurso histórico a partir de sua trajetória pessoal representa cada um de nós.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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