Sexo está na origem de ‘Para Minha Amada Morta’
“O filme começou a nascer numa conversa de boteco, com amigos. Estávamos um bando de homens quando chegou a ex de um, com o novo namorado. Ele ficou possesso, queria tirar satisfações. Conseguimos demovê-lo, mas a conversa evoluiu para o ciúme”


Cena de ‘Minha Amada Morta’ com Fernando Alves Pinto e Mayana Neiva
Divulgação/Vitrine Filmes
Em conversa com o repórter, o diretor Aly Muritiba contou a gênese de Para Minha Amada Morta. “O filme começou a nascer numa conversa de boteco, com amigos. Estávamos um bando de homens quando chegou a ex de um, com o novo namorado. Ele ficou possesso, queria tirar satisfações. Conseguimos demovê-lo, mas a conversa evoluiu para o ciúme, e, mais que isso, o sentimento de posse que temos em relação àqueles e àquelas a quem amamos.” Foi assim que Muritiba começou a tecer a história de Fernando, que sofre a dor da perda da mulher, mas faz uma descoberta que lhe dói muito mais.
“O filme foi se construindo como um drama cotidiano, familiar, mas achei que seria interessante vinculá-lo ao cinema de gênero, que me atrai muito. Só que nunca pensei num thriller à maneira de Hollywood, por mais que goste do gênero. O que me interessa é esse movimento de atração e repulsa. O filme parece que vai seguir os códigos do gênero, arma uma situação e frustra o espectador, porque não chega lá.” E não chega lá não é porque Muritiba não tenha competência, mas porque subverte, desde o interior, códigos narrativos tradicionais. A intenção é clara, mas implica riscos.
“Entendo o que você diz sobre o Fernando (Alves Pinto), mas eu o quis, no papel, desde o início, justamente por isso. Pela inadequação. É alguém que, visivelmente, não se sente bem com arma, pá, martelo e prego.” É a vez de o repórter fazer uma revelação. É muito mais fácil identificar-se com o outro, o amante – Salvador, interpretado por Lourinelson Vladimir. “Ainda bem que quanto a isso estamos de acordo”, diz o diretor. “Salvador é mais forte que Fernando, sem dúvida. Carrega mais esse espectro masculino do guardião da família.” Salvador tem a fala talvez mais honesta do filme, que ele diz com dor. O personagem é evangélico e quando Fernando puxa o assunto dos vícios individuais, Salvador reflete, amargamente – “Quem não (os) tem?”
Como o gênero, o thriller, o aspecto religioso rapidamente se delineou na escritura do roteiro. “Na base do filme está o desejo, como busca e conhecimento, como contacto. A religião cria entraves, impede o desejo de fluir livremente. Não implica que eu esteja contra a religião, os evangélicos. O que queria é o conflito interno”, reflete o diretor. Tudo isso foi muito trabalhado no roteiro. Muritiba conta que o prêmio que recebeu no Sundance – o Global Filmaking – somou. “O filme foi premiado em janeiro. Ganhou um dinheiro e o direito de consultoria com dois script doctors. Um deles foi o Marcos Bernstein e o outro, Maurício Zacharias (parceiro de Ira Scaks em O Amor É Estranho), que é um p… roteirista. O prêmio em Sundance ajudou muito. Colocou um selo de qualidade no projeto. Em fevereiro, participei de um pitching no Brasil e já cheguei sendo cumprimentado por Sundance.”
Depois dos prêmios em Brasília, Para Minha Amada Morta fez o giro de festivais no exterior. San Sebastian, Amiens, Montreal. Em todo o mundo Muritiba sentiu receptividade – “Os latinos dialogam muito bem com o filme”, avalia. Agora é a hora da verdade. Para Minha Amada Morta estreia em 30 salas de 15 cidades – 13 são capitais. “Os indicadores são positivos, mas no mercado nunca se sabe. O frio na barriga faz parte do clima de espera da estreia.” O repórter pergunta onde o diretor conseguiu essa atriz tão boa e bela, Mayana Neiva? “Ela é da Paraíba.” Parece-se muito com Rachel Weisz. Muritiba não se contém – “Preciso contar. Em Montreal, no debate sobre o filme, um espectador teceu loas à beleza da Mayana. Perguntou se ela tinha sido muito cara, e se isso pesou na produção. Respondi que não e ele insistiu – mas foi difícil para ela aprender português? Peraí, retruquei, de quem você está falando? Ué, não é a Rachel Weisz? Ele também achou as duas muito parecidas.”
Muritiba anuncia seus próximos projetos – Ferrugem e uma adaptação de Daniel Galera. O primeiro, que filma antes, é sobre garotos que expõem a intimidade das meninas com quem transam na internet. Muritiba diz que a idade média dos garotos e garotas será 16 anos. Ainda não fez a seleção de elenco. Não será difícil, até do ponto de vista legal, considerando-se que são menores, filmar (e mostrar) a intimidade dos jovens? “Mas não vou mostrar.”
Em Para Minha Amada Morta, também quase não se vê nada na cena em que Fernando descobre a traição da mulher. O plano longo fica parado no seu rosto. Mais tarde, Muritiba revela a poderosa genitália do amante. Concorda que o detalhe, nada irrelevante, realça o sentimento de decepção e impotência de Fernando, o personagem. “Mas o mantra do filme não é isso e sim a frase da mulher, que martela na cabeça dele. Você é a melhor coisa que me aconteceu na vida, ela repete para o amante.” Até que ponto o filme tem a ver com a experiência de Muritiba no sistema carcerário? “Tem tudo”, ele resume. Veja, e confirme.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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