Uma visita ao set do longa baseado no livro de Garcia-Roza

No centro do palco, iluminada pelo canhão de luz, Valentina Sampaio põe sentimento na sua interpretação visceral de Amor Marginal, de Johnny Hooker. “De uma outra dor/ Do nosso caso imoral/ Desse amor/ Desse amor marginal/ Eu vou/ Pra calar o sexo mais banal/ Pra virar poesia/ Desse amor marginal/ Eu vou…” É uma tarde […]

Escrito por: Luiz Carlos Merten3 min de leitura
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No centro do palco, iluminada pelo canhão de luz, Valentina Sampaio põe sentimento na sua interpretação visceral de Amor Marginal, de Johnny Hooker. “De uma outra dor/ Do nosso caso imoral/ Desse amor/ Desse amor marginal/ Eu vou/ Pra calar o sexo mais banal/ Pra virar poesia/ Desse amor marginal/ Eu vou…” É uma tarde de muito calor no Rio, mas o clima ferve ainda mais dentro da The Week, uma balada LGBT que, neste dia, abriga o set de Berenice Procura. O filme baseia-se no livro de Luiz Alfredo Garcia-Roza. É uma de suas narrativas policiais que não são protagonizadas pelo inspetor Espinoza.

Berenice é uma taxista que se envolve na investigação do assassinato de uma transexual – no livro de 2005, a personagem, é travesti. “A gente atualizou porque a travesti não causa mais o estranhamento da época quando Garcia-Roza escreveu o livro. A identidade sexual é um tema da maior atualidade. Não se trata de fazer sensacionalismo nem exotismo. É a abordagem de um mundo que ainda gera preconceito e mal-entendido”, explica o diretor Allan Fiterman. A produção é da EH! Filmes de Elisa Tolomelli, que iniciou o projeto com outra diretora (Flávia Lacerda) e outra atriz, na verdade, atrizes – Luana Piovani e Camila Pitanga, em diferentes momentos, iam fazer Berenice, mas quem ficou com o papel é Cláudia Abreu.

A cena filmada é um flash-back. Isabelle participa de um concurso para escolher a estrela da boate. Canta o tema de Johnny Hooker. A produtora pergunta na lata para o repórter – “Qual título você prefere? Berenice Procura ou Amor Marginal?” O segundo tem mais apelo de público. “Tem, mas o que a gente quer evitar é justamente essa conotação de marginalidade. Visceral, sim, marginal, não. É uma questão de respeito com nossas trans”, diz a roteirista Flávia Guimarães, também presente no set. Valentina Sampaio, que faz Isabelle, é transexual de verdade. Fez-se mulher, fez carreira como top model e agora inicia nova fase como atriz. A impressão é de que está se dilacerando no set, quando canta a poesia do amor marginal.

“Pode aplaudir, gente, mas tem de aplaudir de verdade. É um concurso. Quem gostou tem de fazer ruído”, grita o diretor. Não é preciso pedir duas vezes. Aplausos, gritaria. É um clima de final de The Voice. Fiterman acompanha a cena pelo monitor. A cena é filmada em plano geral, à distância, e depois num lento movimento de câmera em direção a Valentina/Isabelle. Fiterman capta imagens do público, para usar como inserts. Uma primeira montagem estava prevista para ficar pronta nesta semana que passou. A estreia programada é para março de 2017.

Allan Fiterman estudou cinema em Los Angeles. De volta ao Brasil, dirigiu novelas. Ciranda de Pedra, Cheias de Charme, Geração Brasil – as duas últimas com Cláudia Abreu. “Admiro muito a Cacau e não conseguia ver outra atriz no papel. Nela, tenho confiança integral.” A recíproca é verdadeira. Em 2009, Fiterman dirigiu para cinema Embarque Imediato, acumulando a direção de fotografia. “Não renego nada, até porque Embarque foi um grande aprendizado e trabalhei com atores maravilhosos. Marília Pêra, José Wilker… Mas Berenice Procura é outra coisa. Mais denso, forte. Esse é o tipo de cinema que sempre quis fazer e agora estou fazendo.”

Du Moscovis, que na trama é o repórter policial ex-marido de Berenice, assiste à performance de Valentina. “Ela é poderosa.” O set é uma loucura. Drags, trans, bofes sem camisa. E Valentina Sampaio cantando “nosso caso imoral, desse amor marginal”.

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