Cândido

Primeira parte do conto de Cássio Dimitri Lopes de Araújo

Escrito por: Cássio Dimitri Lopes de Araújo7 min de leitura
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A morte é tão irrelevante quanto a vida; isso eu tenho certeza. Rio da morte como se não houvesse fim, e rio mais dos finais daqueles que mais se desesperam quando a veem chegar. O coração do homem realmente aponta para a eternidade, já o concluí, tanto que a procuram… Que idiotice! No fim das contas, tanto os justos quanto os injustos irão para a cova e serão esquecidos para sempre pelas gerações posteriores, não importando a bondade ou a maldade de cada um. O que se faz na vida é irrelevante. Não há nenhum feito na vida humana que faça diferença. O que ganha a ser bom? Nada. E a ser mau? Nem também adianta qualquer da dita “potência” ou “probabilidade”. Cândido está aqui para provar, determinado para morrer com as oito balas, de uma forma tão irrelevante quanto sua vida.

O Cândido que eu muito gargalho nasceu em São João do Catucaí. É algum lugar lá longe, bem para dentro do interior, ou derredor de São Paulo; lugar que não encontra nem Sol ou céu em todas as veredas do horizonte. Aqueles que vão, ou que bem nascem no lugar profundo do Tinhoso, nunca saem ou fugirão. É um buraco de mineração à beira de um rio carnoso, esquecido por Deus, entre montanhas e covas tenebrosas, essas sempre com neblina. Declinou-se com a queda do ouro e da população que aproveitou e colonizou os arredores de Planaltina nos anos 60.

Os casebres pareciam que iriam cair a qualquer momento, com os cacos dos tijolos espalharem nos mil cantos parecidos, feitos de pano, como trapos sujos e encardidos largados numa mureta preta. Outras, de tão velhas e abandonadas, abrigavam as ervas-daninhas do país inteiro, e as trepadeiras as estrangulavam com veemência. As estradas esburacadas, e o que a prefeitura largava de material para consertá-las, o povo prontamente resgata um pouco do imposto.

“Claro, é nosso dinheiro, afinal!” Comentou uma vez Jerônimo.

O lixo era mutuamente jogado às ruas; absolutamente tudo era deixado. O esgoto era a céu aberto, com alguns até quebrando a tubulação que passava ali, por diversão: o povo, assim mesmo, nem ligava…

E lá vivia Cândido, com os olhos que cumprimentavam os donos dos alqueires e os de nada, como se estivessem lá de longe fitando-os numa varanda, com tanta ternura que dividia a medula da espinha e um sorriso que dava no coração uma vontade de viver.

“Que olhos fulminantes desse Guerrinha!” Disse uma vez a Dona Carmen.

Nunca esqueceu a palavra “fulminantes”: dizia-se que era fenomenal, mesmo que não soubesse o que significava de fato, apenas intuitivamente, embora receie que se tivesse um bom dicionário teria a gana de conhecê-la de exato. Posso fazer essas previsões.

A verdade é que usamos as palavras sem saber seu significado total, empregando-as intuitivamente. Os olhos espertinhos do mancebo Guerrinha, de tão tácitos, conseguiam encontrar alguma luz no poço que era aquela cidade com a lei de “a que Deus dará”; ou era meio assim que se lembrava da expressão: veio à mente quando ouvira há dez anos dos seus doze.

O pai foi embora há tempos, deixando-os ricos d’ouro e com fome — ponho o conto para outra oportunidade — e nem se lembrava mais dele; morava com a mãe, Dona Glória!, e sua irmã sossegadinha, de olhos abertos, fundos e magnéticos, que viviam a cogitar o espaço. Não brilhavam tanto quanto os de Cândido, e nem tinham a forma dos de águia, e de certa forma eram opacos. Sempre punha as mãos na grande e inchada barriga. Menina tão lindinha se as roupas dessem; não, é demasiado amarela e doente…

“Que cê tá fazendo Guerrinha?”

“Pegando umas coisas aqui… A menina já querendo ir embora.”

“A gente já passou aí já! Vamo’ logo!…”

“Tem livrinhos de conta!”

Ninguém sabia o que era o cálculo de desvio padrão; tanto perguntasse não adiantaria: todos davam meias palavras… Mas sabia fazer, e era tão prazeroso; só não sabia de onde vinha aquele sigma.

Mas Carmen Lúcia era o anjo-da-guarda que ajudava com o que tinha enquanto Glória não tinha um bom emprego. Dona Carmen por si só era ladra que só furtava da viúva Aparecida como agregada… Uns vasos aqui, uns quadros ali: senhora rica, baronesa d’ouro. Também Cândido não gostava de gente roubando, mas o que não gostava mais era quando não tinha comida em casa; é que dificultava o pensamento.

“Mãe, tem muito pouco nesse prato…” A mãe deu um sorriso fraco. “Isso dá, meu filho.” “Eu acho que não dá não.” Sem resposta, os olhos lacrimejaram. Depois, à surdina da irmã, acariciou-o e disse que as coisas iam melhorar, decerto.

Mas o desastre se aprofundou. Perdeu o emprego na mercearia de Seu Jê devido, por desvairar-se pela fome, dar mordida a uma maçã do local. Jê a levou à delegacia aos trapos, não sei como, senhor velho e descabido levando uma mulher com muito mais forças que ele, mesmo com a desgraça que ela passava.

“Essa muié tava me roubando!” Esmagando a maçã mordida com as mãos.

Marcos olhou para a mulher; depois ao homem com certa indiferença. “O que ela roubou?” E alto: “As maçã tudo!” Era humilhação pública, aquilo tudo era humilhação perante as ruas torpes de Catucaí.

Compadeceu-se; explicou ao velho que era bagatela e que não podia fazer nada. O velho replicou que não largava a mão, e se a delegacia não fizesse o trabalho certo a levaria até a Zona Sul para fazer o B.O. Pareceu que um manto de preto cobriu Dona Glória. O homem ficou um pouco pálido com a resposta do velho.

“Quanto que ela te roubou?”

Seu Jerônimo ficou pensando um pouco: estava acabrunhado em responder o valor irrisório e passar por alguém que faz caso por pouca coisa.

“Um real e vinte centavos…”

“Tome cinquenta reais!”

“Isso é algum tipo de suborno?”

“Vai embora senão não tem nada!”

A turba não a pegou porque era protegida do polícia. Maria contou ao filho aquele ato e aquele homem de Deus. Cândido ficou estupefato com aquilo tudo e revoltado pela amargura de Jerônimo. Quando que acabaria a judiação, a maldade das pessoas? Quando a gente teria que passar por isso? Para que instinto ruim daquele, de azucrinar, de podridão daquela cidade?

“20 reais.”

“Tudo… Tudo isso?”

“Sim.” A moça roubava dez reais de Cândido, mas não o podia do estabelecimento… Pegaria do cliente mesmo, não importando quem fosse.

Foi com os trinta reais em três notas de dez, e numa pochete o saco de arroz, que era pesado, pesadíssimo. Estava um pouco fraco, tísico, mas o garoto caminhava tão risonho; teria seguramente comida para toda a semana, só pela bondade de um que salvou a humanidade: sem merecer. Com o entardecer róseo o céu evoluía à escuridão, mas dava para ver; o regozijo do futuro iluminaria as praças, ajudaria os idosos, a vida; cuidaria das veredas…

“Você tem cara de vagabundo moleque. Cadê seu documento?” De supetão um oficial apareceu.

Mexeu os bolsos; procurou com as mãozinhas enquanto a face do oficial endurecia. Lembrou-se que não tinha nada… Ah! A mãe tinha falado para ir com o documento mas se esqueceu! Além de ver o troco certim…

“Não tenho, senhor… Eu…”

“É bandido mesmo! Quem mais não teria documento a não ser marginal?”

Cândido desesperou-se… Os olhos queriam chorar e paralisou: não é que sempre chorava com tudo; se emocionava facilmente com qualquer coisa, e isso era tão frequente que resolvia não fitar diretamente os olhos da pessoa que lhe afligia… Era incontrolável, acontecendo também em situações incontroláveis.

“Qual seu nome moleque?”

“Pedro Cândido Joaquim Guerra… Senhor…”

“O nome da sua mãe?”

“Maria Joaquina Glória Guerra; por favor eu…”

“Olhe… Olhe para mim! Pare de ficar olhando para o chão como um imbecil! Agora vai! Entre na viatura vagabundo! Vamos para a delegacia na Zona Sul.”

Cássio Dimitri Lopes de Araújo
Cássio Dimitri Lopes de Araújo

1º ano do Ensino Médio - Colégio Embraer Juarez Wanderley - São José dos Campos

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