Conto: Aquele que Me Acompanha

“Sou preenchido pela agonia do seu aconchego, no entanto, nunca me senti tão acolhido como agora.”

Escrito por: Jhenifer Lorrainy dos Santos5 min de leitura
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Acordo. Ainda deitado na cama, o começo de mais um dia, penso. Vejo sua figura escura no canto de sempre, ainda tão pequeno, menor do que estava ontem quando adormeci. Tenho tido a impressão que seu tamanho está maior no fim de cada dia, mas não tenho certeza. Enfim, me levanto e ele também, passa a me acompanhar, mais uma vez ficará comigo.

Me dirijo à cozinha, preparo meu café da manhã como sempre o faço, a casa ainda silenciosa, pelo horário, imagino. Ele sentou à mesa, no mesmo lugar, estático, não me encara, olha para frente. Me sento junto dele. Começo a comer, reflito sobre como será o hoje. Mesmo ao meu lado, está tão pequeno, tão quieto, que esqueço de sua presença, sinto que, se me esforço, esqueço também de sua existência. Porém, ele está aqui, sempre. Pergunto-me se sou o único a perceber sua presença, talvez, quem sabe?

Faço o caminho de costume para a escola, com sua figura ao meu lado. Quanto mais me aproximo do destino final, sinto-o mais inquieto. Ao chegar, escolho a mesma carteira e sento-me. Os professores começam a falar; falam sobre assuntos que não me interessam, passam a depositar em mim sonhos de outras pessoas. Recai sobre o meu corpo o peso desses desejos, meus ombros doem. Consigo sentir seu tamanho mudar ao meu lado, está maior. Sua mão, em meu ombro, ele coloca, me confortando, parece que me sinto melhor.

Ficamos daquela forma por um tempo, até que aqueles chegam. Aqueles que me atormentam, com seus comentários detestáveis. Ficam por minutos que parecem horas, me convencem de que o que dizem é verdade, se divertem e vão embora. Sozinho fico, sem amigos, nunca tive desses. Não, eu estou mentindo. Eu o tenho, se está sempre a me acompanhar, deve ser um amigo, amigos devem ser como ele, acredito. A figura ficou maior, seus braços agora me rodeiam, são frios, porém me aquecem, me consolam, como o de um amigo. Convenço-me que é isso o que é, um amigo.

Está na hora de voltar para onde comecei o dia. Fazemos o caminho juntos outra vez, lado a lado, como os bons afeiçoados que somos. Assim que chegamos, a casa enche-se de barulhos, com a minha chegada, como de praxe. Gritos, é o que são. Mas não, não são dos agradáveis de se ouvir. Perfuram meus ouvidos como agulhas, chegam ao fundo da mente, machucam a alma. São do tipo que ninguém merece ouvir. Vêm daqueles que jamais se espera que pudessem proferi-los.

Com toda aquela perturbação de espírito, seu tamanho mudou. Nesse momento, seus braços não mais me rodeiam apenas, porém abraçam-me, apertam. Sou preenchido pela agonia do seu aconchego, no entanto, nunca me senti tão acolhido como agora. Dessa forma, seguimos para o quarto, na tentativa de deixar toda aquela barulheira para trás. Assim que fecho a porta do cômodo, sento-me por ali mesmo. Silêncio. É o que escuto, não há mais gritos, apenas a mais profunda ausência de som. Escuto apenas os restantes ecos em minha mente, mas eles logo se silenciam. Silêncio.

Olho para cima, a figura, agora em minha frente, me encara. Me encara? Está me encarando? Confirmo, está. É a primeira vez que vejo o fazendo desde de sua chegada, a qual não me lembro bem quando foi. É como se sempre estivesse aqui, como uma parte do meu ser. Vejo-o se mexer, como se falasse, não escuto nada. De maneira repentina, me vem um incessante desejo de sair desse ambiente, respirar um pouco de ar puro. Porém já está escuro lá fora, seria perigoso, penso. Contudo, com ele ao meu lado, agora abertamente ciente de minha presença, não há o que dar errado.

Nos dirigimos para fora, a casa em completo silêncio, nada escuto e nada vejo, como se estivesse vazia. Chegamos à rua, seus braços não me envolvem mais, ele anda ao meu lado, ainda me encara. Em certos momentos, quando dirijo minha vista a ele, surge em mim, por um milésimo, um sentimento aterrorizante, mas logo sou preenchido novamente pelo conforto que é estar ao seu redor. Caminhamos juntos, pelas ruas tomadas pela escuridão noturna.

Nos afundamos cada vez mais no escuro, até um ponto em que a ausência de luz não se altera. A lua, que antes nos iluminava, não se faz mais presente. No entanto, consigo vê-lo, apenas sua figura escura, que se destaca, de alguma forma, entre todo aquele breu. Paramos, me encarando, ele ainda está. Começa a quebrar a pequena distância entre nós. Mais uma vez, me abraça, com uma força que é novidade para mim. Sinto um frio me preencher, dos seus braços gelados, imagino… não, não são dos seus braços. O frio vem de mim, do meu interior, tomando conta de todo meu corpo.

Pisco e sinto falta de seu abraço que deveria me aquecer, seus membros não mais me rodeiam. Minha visão está turva, porém consigo ver que não está próximo como antes, está se afastando. Tento gritar para que fique e seus braços em volta de mim coloque, para que me aqueça. Estou congelando. Grito mais uma vez, até perceber que meus gritos não passam de suspiros inaudíveis. Um sentimento desesperador passa a me preencher, tira do frio o seu protagonismo. Estou tomado pelo desespero, vejo-o se afastar cada vez mais. Por favor, volte, imploro. Me aqueça de novo com seus frios braços. Ande ao meu lado. Esteja sempre comigo. Não vá, imploro. Como poderei viver sem sua companhia?

“Bom, talvez não viva.” escuto-o dizer, por fim.

Com supervisão de Yeda Vasconcelos, jornalista do Meon Jovem.

Jhenifer Lorrainy dos Santos
Jhenifer Lorrainy dos Santos

2º ano do Ensino Médio - Colégio Embraer Juarez Wanderley - São José dos Campos

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