Crônica: Quero Que Você trabalhe!
O dinheiro vale mais que a relação

—O quê?
—Isso mesmo, mocinha. Sempre que chego do trabalho vejo você aí… não me olhe desse jeito: você muito bem sabe! Enquanto é só eu que trabalho para o sustento dessa casa. Não, não, senhora! Vai trabalhar sim. Em qualquer coisa que seja, mas vai! — Disse olhando-a no canto dos olhos, com os braços estendidos de uma ponta a outra do móvel.
—Não… não! Claro que não! — Replicou prontamente depois de um primeiro balbuciar — Você é o que mais gasta nesta casa com seu futebol, seus relógios e seus joguinhos que, todos nós sabemos, não aprimoram em nada nossa vida! Já eu arrumo essa casa… uma arrumadora custa — custava duzentos reais, só para você ver quanto eu faço por nós!
Houve uma pequena pausa. Por um momento pensou que aquele infortúnio tinha acabado e que tudo voltaria ao que era antes, até perceber que voltariam àquela conversa de novo…
—Meu futebol, meus relógios e joguinhos? Entendi… Já que você tocou nesse assunto de novo, para variar, sempre colocando a culpa em mim, vamos colocar um fato aqui: você não consegue administrar seu dinheiro; até tive que tirar o cartão de crédito da sua mão! Você apenas compra coisas fúteis!
—Fúteis? Fúteis? Não acredito que você disse… fútil é não me deixar terminar de pagar à vista aquele vestido que você me prometeu que daria! E agora estou sem ele: tudo coisa combinada entre nós dois. Você não é o mais bonzinho dessa história não!
—Eu nem consenti de comprar aquele vestido que mais parecia mais uma fronha amarrada num botijão de gás de tão largo!
—Amor, claro que não era não! Você gosta de exagerar, exagerado…
—Isso não importa; agora você também tem que trabalhar, e nós dois vamos nos sustentar juntos… Você terá seu próprio dinheiro para comprar as suas coisas, porque não vou pagar coisas que não sejam boas para todos nós, nós dois!
—Mas, amor… Eu não quero ter meu próprio dinheiro… é coisa compartilhada, nós somos um casal e um casal deve ter as finanças…
—Deixa eu terminar de falar! Sua manicure já custou cem reais; e tudo isso é com meu dinheiro; só eu que faço tudo!
—Ah, você sempre aumenta tudo e só fala besteira, sensacionalista!
—Shhhh! Eu ainda estou falando! Toda a vez você sempre tenta escapar e sempre consegue! Mas hoje a gente resolve isso… Veja: não é problema gastar tanto nos sapatos…
—Mal tenho sapatos! Pff…
—…Roupas e bolsas de marca; o que realmente importa é que isso não atrapalhe nossa estabilidade financeira, e muito mais importante do que isso: que eu não me sinta como um burro de carga que sempre está levando você por aí! Então… se quer comprar alguma coisa supérflua, gaste o dinheiro do seu próprio trabalho e veja quanto suor isso custa!
Houve uma pequena trégua. Carlos, que, por um segundo, se realizava em ganhar pelo menos uma vez da esposa a via preparar o que ela sempre faz…
—Mas, amor… Eu faço tudo isso… Por você…
—Ah não, não comece…
—É, amor… E você nem liga! Você está nem aí para mim! Você só vê o superficial, enquanto no fundo eu estou sofrendo por você…
—E era eu o exagerado…
—…E até agora você debocha de mim como se eu fosse apenas uma casca! Eu queria pelo menos uma gota de atenção sua que você nunca me dá… Você acha que eu gosto apenas de me mostrar para você? Você me chama de fútil tão cruelmente! Quero que a gente converse, porque tempo tem! — Dá a tréplica lacrimejando, colocando as mãos na face com soluços — E, ainda mais, semana passada eu cortei o cabelo e você não deu nenhum elogio sequer!
Carlos nem sabia se aquilo era verdade. Bem, verdade talvez tivesse, mas… em tudo?
—Tudo bem… tá, desculpe, eu deveria prestar mais atenção naquilo que você faz de bom agrado para mim, mas isso…
—Desculpas? Então a gente está bem de novo? Voltamos ao status quo?
—Ei! O que é isso? Não vai se esquive não! Eu não vou mais cair nos seus joguinhos emocionais, Clara. Estou falando sério: você vai trabalhar e eu quero que você arrume um emprego já! Acabou a mamata!
—Ah! Até parece que você é o mais certinho dentro dessa casa… não é nada, só quer exteriorizar seu sofrimento em alguém que não fez nada! A sua hipocrisia é o maior fato disso! Olhe todos esses joguinhos de apostas online! Que perda de dinheiro total!
Houve de novo uma pequena pausa, mas desta vez todos sabiam, logo no início dela, o que viria depois. Todo mundo iria…
—Espere aí… Você pegou meu celular?
—Bem, tenho que saber, né? O que você faz…
—Isso é uma falta total de confiança…
—Tanto faz. Você estava acobertando de mim uma informação!
—Sim… Eu errei, mas você mentiu para mim hoje de manhã que não estava com ele! Peguei o seu, mas eu precisava dele no trabalho!
—Não importa! Minha confiança em você está abalada!
—Não a minha que está abalada!
—Então explique o relógio disfuncional que comprou só para você enquanto cancelava o meu vestido lindíssimo!
—Explique você os cinco pares de sapatos de papelão e cera que você comprou em apenas um mês!
—Explique as ações ridículas que você investiu depois da queda da bolsa e que agora não valem nem o preço de uma banana estragada!
—Explique a sua inadimplência em pagar as nossas contas, porque toda vez que eu dou o dinheiro para você, cê compra uma outra coisa imprestável!
Sim… sabiam que todo mundo iria perder.
—Você que é o imprestável!
—Você que é a imprestável! Quem me dera que nunca me casasse com você!
—Quem me dera que você nunca tivesse nascido!
Que horrores disseram um ao outro! Imediatamente ficaram sozinhos, sem se olhar, mas os dois sabiam que, até a chegada da aurora de róseos dedos, teriam que se reconciliar. Lembravam as ofensas que falaram com total arrependimento: Carlos no sofá e Clara na cama, ambos pensando apenas na mudança dos seus comportamentos para o casamento. Precisavam ceder em opiniões, coisas que gostavam e trejeitos para viverem junto ao outro…
Logo após algumas horas do pôr do sol e deixar para trás uma cor rubra alaranjada mesclada com um amarelo sereno, ele se dirigiu para o quarto onde ela estava: a encontrou do outro lado da cama, de costas. A tristeza do quarto era iluminada pelos feixes plastificados do luar num espetáculo. As estrelas congelavam o céu com seu poder e então, Carlos sentou-se ao lado, onde vinha a luz do corredor pelo vão da porta aberta.
—Precisamos conversar…
—Sim…
—Eu… quero mudar… Eu não vou esconder mais coisas de você.
—Nem eu vou ser tão fútil…
—Mas o pior sou eu: eu não sou confiável… Eu devia ter falado tudo para você, até as menores coisas…
—Não, não… Eu confio em você…
—Eu… vou te dar o dinheiro que você precisa e também para tudo o que você quiser.
—Eu vou parar de ligar para o dinheiro. Vou ligar somente para você…
—Vamos parar de nos envolver tanto com coisas materiais… vamos ter uma vida mais simples. E a gente nem precisa trabalhar tanto se formos mais leves
—Mas você vai ter que trabalhar!
Com supervisão de Yeda Vasconcelos, jornalista do Meon Jovem.

1º ano do Ensino Médio - Colégio Embraer Juarez Wanderley - São José dos Campos
