O Animal (Quase) Humano

O animal andando pelas ruas é tratado com desprezo pelos olhos reprovadores das pessoas bem-apessoadas.

Escrito por: Cássio Dimitri Lopes de Araújo3 min de leitura
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O animal andando pelas ruas é tratado com desprezo pelos olhos reprovadores das pessoas bem-apessoadas. Para nós, humanos, a criatura não é necessariamente má, mas inoportuna. Ela acaba com a beleza das construções civilizatórias, já que é fétida, suja e vira-lata. Impregna o céu moderno com sua imundície animalesca. É por isso que a sociedade humana tentou, pelos mais diversos meios, acabar com essa raça, mas sem sucesso. E então fica pelas ruas.

O espécime mórbido não é um cão.

Meio dia e meia. As pessoas, bem vestidas e apressadas, limpas como o branco, nem conseguem mais fitar o desgraçado debaixo do sol. O animal está com a barriga roncando; são como os trovões a se contorcerem no céu em grande voracidade. Não é só a vontade de comer. É a dor da fome que ganha corpo. E aquele semblante retorcido é o rosto dessa dor.

O espécime mórbido não é um gato.

Ele se aproxima cada vez mais de seu nicho ecológico: o lixo urbano. Possui o trabalho de decompositor na sociedade humana, semelhante às arqueobactérias nos nossos esgotos. Sim, bem no fundo, o animal tem uma utilidade…

O espécime mórbido não é um rato.

A Seguridade Social, entretanto, está a postos, observando-o para rapidamente apanhá-lo e levá-lo a um de nossos zoológicos. Seu habitat são as periferias, o que levanta suspeitas. O que o levaria ao centro da legalidade e da democracia?

O espécime mórbido não é uma barata.

O animal encontra o latão de lixo. Com suas patas, grossas de pelos pardos, começa a revirar tudo. Essa mesma carapaça peluda tem maiores protuberâncias na cabeça, em tufos, o que lembra, talvez minimamente, o nosso cabelo. Ele apalpa alguma coisa. São os aminoácidos que ele necessita para a sua dieta.

O espécime mórbido não é uma ameba!

A criatura encontra um osso de três costelas, pobre de carnes, que nós, humanos, deixamos para ele se alimentar. À margem do mundo racional, industrial e humanista, ele devora o osso como se houvesse o que devorar. O cheiro é intragável, ao menos para nós, humanos. Já para o animal, talvez seja agradável: como urubus se enfeitiçam com o cheiro da carniça, a espécime em questão jamais recusa o odor do tutano de nossos açougues.

Mas, de repente… oh! Que interessante! A criatura chora… Estranho, só humanos choram. Que espécime interessante! Não fosse um animal que rasteja pela sarjeta, suporia um de nós. Mas não… É apenas um mendigo preto, animal das ruas.

Com supervisão de Yeda Vasconcelos, jornalista do Meon Jovem.  

Cássio Dimitri Lopes de Araújo
Cássio Dimitri Lopes de Araújo

1º ano do Ensino Médio - Colégio Embraer Juarez Wanderley - São José dos Campos

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