O Famoso Almoço de Domingo

O Machismo Estrutural do Dia a Dia

Escrito por: Gabriela Frossard4 min de leitura
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Foto: arquivo pessoal / Gabriela Frossard
Foto: arquivo pessoal / Gabriela Frossard

Logo antes da quarentena, eu e meus pais visitamos meus avós para um almoço de domingo com a família toda. Foi como qualquer uma dessas reuniões familiares. Os tios discutindo política, os primos conversando e usando celular, e as tias e avó na cozinha. Em certo momento, um tio resolveu tirar uma foto em grupo e todos se juntaram ao redor da mesa. Todos menos as mulheres, que estavam na cozinha lavando louça ou cozinhando. Quando olhei para a foto, vi o espaço vazio que elas deveriam ocupar e pensei: por quê?

Desde muito tempo na história do Brasil, a mulher teve o papel de limpar a casa, cozinhar, lavar, passar e cuidar das crianças. Enquanto isso, seus maridos ficavam executando tarefas extremamente cansativas como: levantamento de controle remoto, leitura do jornal, discussões políticas ou absolutamente nada.

Como é claramente evidenciado na literatura brasileira, muitas vezes na forma de crítica, a mulher tem um papel a cumprir que se resume a agradar seu marido e a cuidar da casa, porque, onde já se viu, mulher solteira, sem atribuições domésticas, gozando de autonomia e fazendo absolutamente tudo o que der na telha?! Em um dos contos mais famosos de Clarice Lispector, Amor, a personagem Ana devota sua vida adulta aos cuidados da família e à manutenção da casa. Mas, em um determinado momento, ela tem uma epifania quando observa um cego mascando chiclete. Isso a faz perceber o mundo que ela abriu mão de explorar e conhecer para cuidar da família. Outro exemplo é Iracema, de José de Alencar. O romance conta a história de uma nativa brasileira que abre mão de sua tribo e família para ficar com um colonizador português. As duas devotaram suas vidas ao bem-estar de seus maridos e família, como se não tivessem mais vontade própria ou foram induzidas a pensar que aquilo era o que queriam.

Essa sociedade que gira em torno de um contínuo patriarcado não parou na primeira geração do romantismo (época em que Iracema foi escrita). Já nas primeiras décadas do século XX, o Código Civil de 1916 subjugava completamente o intelecto feminino. Este tachava as mulheres de “incapazes” de conseguir trabalho ou contratos fora de casa. A menos que a alma misericordiosa de seu marido desse uma autorização. Desta forma, as mulheres não podiam fazer nada a menos que estivessem segurando a mão do marido.

Essa falta de confiança no intelecto da mulher nos persegue até hoje. O machismo estrutural disfarçado de conselhos, outras micro agressões e brincadeiras de mau gosto incomoda uma quantidade surpreendente de cientistas mulheres premiadas

do Brasil. Elas, que estão no auge de suas carreiras em um ambiente que exige educação, são obrigadas a suportar mentes minúsculas que, apesar do QI alto, não conseguem perceber o quanto são machistas!

Tudo o que eu queria saber é quem foi o “gênio” que disse que “lugar de mulher é na cozinha”; E quem foi que deu autoridade a essa pessoa de dizer o que eu tenho que fazer com a minha vida.

E foi isso que eu perguntei para meus “ilustríssimos” tios, que disseram que se eu não gostava da situação era para eu ir ajudar para que acabassem mais rápido. Quer dizer que na hora de comer todo mundo ajuda, mas na hora de arrumar chiqueiro, tem “ser de luz” com dor até no cabelo. Nesse momento, eu lembrei de uma expressão bem antiga que meus avós diziam, “quem pariu Mateus que embale”, acho que posso dizer, com toda a certeza do mundo, que eu tive o privilégio de vê-la ganhar vida.

Minha conclusão com essa história toda foi que a educação dos meus filhos vai ser bem diferente da do resto da minha família.

Gabriela Frossard
Gabriela Frossard

Colégio Poliedro, São José dos Campos- SP

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