O jovem e a arte

Estudante de letras fala sobre o papel do jovem na arte e o significado e importância da escrita

Escrito por: Beatriz Costa de Paiva Pena | Colégio Poliedro10 min de leitura
fundo_placeholder-023136

A pesquisa “Retratos da Leitura”, feita em 2016, aponta que o brasileiro lê em média 2,43 livros por ano. Esse número baixo assusta e o desinteresse pode ser interpretado como falta de tempo, de gosto, paciência ou até mesmo como as taxas de analfabetismo do país.

A leitura é de grande importância para a formação do jovem, além de ser uma ferramenta para seu futuro.

Laís Gonzales, estudante de letras, deu uma entrevista exclusiva ao Meon Jovem para explicar melhor o papel do jovem na arte e o significado e importância da escrita; confira.

Meon Jovem: Conte um pouco sobre quem você é, seus interesses e qual curso você faz.

Laís: Bom, meu nome é Laís, eu tenho vinte anos e moro em São Paulo – aquela cidade que é “do avesso do avesso do avesso do avesso”, como disse Caetano. Eu sou aquela geração de jovens com uma alma meio velha então amo tomar um chá sentada em uma poltrona da Livraria da Vila (a que fica na Alameda Lorena), enquanto leio algum livro infantil, provavelmente os poemas da Cecília Meireles para crianças; ou frequentar lojas de antiguidade – ótimos lugares para apreciar o passado em todas as suas expressões.

Dito isso, acho importante contar que eu adoro poesias, ouvir histórias, contá-las, falar sobre literatura, dissertar sobre aquisição de linguagem infantil, conversar com crianças, analisar traduções, realizar traduções, dar aula, falar sobre filologia e conhecer São Paulo.

Eu nasci em Rondônia e saí da casa dos meus pais para estudar, inclusive, inicialmente não era Letras que pretendia estudar, mas isso é uma outra história. Então só para esclarecermos, eu faço Letras na FFLCH- USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP); eu escolhi fazer bacharelado e licenciatura, e estudo dois idiomas: português e italiano. Atualmente eu estagio na Edusp (Editora da USP) na parte de produção editorial e faço um curso formativo para tradutores literários na Casa Guilherme de Almeida.

Meon Jovem: Qual é a importância de saber expressar o que você pensa por meio da escrita?

Laís: Eu acredito que existam muitas repostas possíveis para essa pergunta, mas darei meu melhor pra tentar me fazer clara sobre como vejo isso, tanto como acadêmica quanto como jovem.

A escrita naturalmente é essencial à vida em sociedade, ela funciona como uma espécie de âncora: escrevemos o que não podemos esquecer; o que não gostaríamos que os outros esquecessem; o que achamos de alguma forma relevante o suficiente para ser lembrado através das palavras ou simplesmente a lista de compras do nosso bloco de notas.

Com as mudanças tecnológicas dos últimos anos nos adaptamos à velocidade: tudo vem e vai tão velozmente. Mas uma vez que é inerente ao ser humano se expressar, acredito fortemente que a escrita se fortaleceu como um modo de dizermos tudo aquilo que é importante para nós. É claro que a escrita deve ser pensada como algo muito mais amplo do que um livro físico ou uma dissertação. Ela é também sua legenda do Instagram, o texto que você envia no WhatsApp, a matéria que você lê no site do jornal e a receita de brigadeiro que você procura na internet.

O filósofo Jacques Derrida compôs um ensaio chamado “Farmácia de Platão”, onde muitos temas de cunho filosóficos são discutidos, mas quero falar de um ponto discutido lá que é a origem da escrita contada por um diálogo entre Sócrates e Fedro, em que a escrita é colocada como um recurso criado para que a fala fosse “guardada”, todavia percebeu-se depois que a escrita, de certo modo, mata a fala.

No ensaio, a palavra utilizada é “phármakon” que pode significar tanto remédio como veneno; o que os diferencia é a dose. Quero terminar a minha resposta dizendo que a escrita apresenta uma instância muito mais “eterna” do que a fala, o que a torna extremamente poderosa. Escrever é se apresentar para o mundo.

Meon Jovem: Na sua opinião, qual é o poder da linguagem? Qual é importância que a mesma tem para você?

Laís: Isso é algo que eu costumo dizer sempre que me perguntam o motivo pelo qual eu escolhi meu curso. Para mim linguagem é tudo, ela origina tudo e ela faz parte de tudo que eu vivo o tempo todo. Desde o despertador do meu celular até o chá que eu compro, o outdoor que eu enxergo, a música que eu ouço ou o ônibus que eu pego. Acho que para compreendermos melhor o que eu quero dizer, é preciso explicar o que é linguagem e preciso deixar claro que existem muitas perspectivas diferentes dependendo do prisma sob o qual você analisa o sistema linguístico. Eu vou falar sobre linguagem me baseando em dois: o estruturalismo de Sausurre e o gerativismo de Chomsky.

Fazendo um resumão do que os dois dizem, a linguagem é vista assim: um sistema abstrato, considerada uma realidade psíquica e uma instituição social que é exterior ao indivíduo, que sozinho não pode nem criá-la nem modificá-la, mas que pode ser criativa porque permite que com um número finito de categorias e de regras, que o sujeito de uma língua possa gerar e interpretar um número infinito de frases dessa língua. Com essa definição fica mais fácil compreender que o poder da linguagem é basicamente dar vida a tudo que construímos ao longo do tempo. É nossa capacidade de comunicação. Isso vai muito além da fala; é o que vemos, o que gesticulamos, o que escrevemos, o que ouvimos, o que pensamos e o que transmitimos.

No curso de Letras, por exemplo, temos áreas como Psicolinguística, Sociolinguística, Neurolinguística, Linguística Computacional, Aquisição de Linguagem e Semiótica. O que eu quero mostrar é que o objetivo da linguagem é transmitir informação e conhecimento. E isso é o que move o mundo.

Meon Jovem: Em seu ponto de vista, qual é importância da escrita e produção artística na sociedade moderna? Como você acha que a participação de jovens nesse meio é importante?

Laís: Tanto a escrita quanto qualquer outra forma de expressão artística sempre desempenharam um papel muito forte na transmissão de hábitos, costumes e valores das épocas nas quais eram produzidas. O maior exemplo disso é a importância da literatura para se analisar a construção social de uma época. Eu vejo que a arte é um recurso muito utilizado para exprimirmos situações presenciadas e experiências vividas por cada indivíduo ao longo da sua vida, que muitas vezes expressam as universalidades humanas: as angústias, os anseios, os amores e as expectativas que são comuns a todos nós.

Como conversamos na pergunta anterior, a linguagem abarca não só uma língua, mas todo sistema que é capaz de transmitir alguma informação, assim, a escrita e outras manifestações são um constante processo de interação com o mundo, o que nos exige diferentes abordagens para diferentes esferas. Bakhtin – um filósofo que se dedicou a estudar os gêneros do discurso- diz que um enunciado em um diálogo é sempre modulado pelo falante para o contexto social, histórico, cultural e ideológico. Isso reflete claramente o quanto a comunicação define uma identidade, uma cultura, uma filosofia ou uma ideologia política.

Eu vejo que a participação dos jovens é indispensável por ser a linguagem que reflete o agora, reflete o social e o cultural em toda sua atualidade. Saussure diz sobre a linguagem como elemento constitutivo do sujeito: “[…] é pelas atividades de linguagem que o homem se constitui sujeito, só por intermédio delas é que tem condições de refletir sobre si mesmo”. O conteúdo sobre o qual um indivíduo resolve se expressar possui um peso muito maior do que a forma como ele o expressa.

A arte pode ser percebida de diversos modos. O mais importante nesses casos é descobrir uma participação que faça sentido para você. Falar (entenda no sentido amplo de se manifestar) sobre o hoje, é um modo não só de ter uma voz sobre o nosso presente, mas também de mostrar o quanto pôde ser apreendido do nosso passado e o quanto pode ser acrescido para o nosso futuro.

Meon Jovem: Para você, qual o papel que a educação tem na formação de uma sociedade melhor?

Laís: Antes de tudo quero enfatizar uma distinção importante para mim: entre educação e ensino. Ensino se define por Instrução, ensinadela, treinamento. É a ideia que temos, por exemplo, do ambiente escolar. Educação é o processo contínuo de desenvolvimento de faculdades físicas, intelectuais e morais do ser humano, a fim de melhor se integrar na sociedade. Como coloca o filósofo teórico da área da pedagogia René Hubert, a educação é um amontoado de ações exercidas voluntariamente por um indivíduo em outro; ações essas que pretendem alcançar um determinado propósito no contexto em que se está inserido.

Com isso quero demonstrar que em minha visão, a educação é o caminho a se trilhar para uma sociedade melhor, visto que ela define o que é a sociedade. Além do fato de “educação” ser muito mais do que a ideia de uma instituição que oferece algum tipo de conteúdo fixo para um grupo específico de pessoas.

Educação é o que você aprende no mercado, olhando a data de validade dos produtos; o que você ouve do seu avô sobre a época de chuva e seca; o que seus pais te ensinam sobre educação financeira. Educação é tudo, é a capacidade de absorver todas as coisas desconhecidas ao seu redor e isso é o grande X da questão: colocar-se diariamente como um aprendiz do espanto. O espanto é um princípio do conhecimento criado nos primórdios da discussão filosófica: é tido como o fundamental para começar a filosofar, ou seja, é um processo através do qual não passamos indiferentes perante qualquer coisa, mas colocamo-nos em movimento, partindo de coisas simples para coisas mais complexas, terminando no conhecimento de si. E eu acredito que o conhecimento transforma porque ele te proporciona consciência e é assim que somos capazes de compreendermos o nosso papel diante da grandiosidade do mundo. Tem uma citação do Leandro Karnal do livro “Conversas com um Jovem Professor” que eu gosto muito por fazer muito sentido para o que eu acredito:

“[…] O centro da reflexão talvez seja este. O brilho de ser professor é a nossa relevância. Não existe sociedade sem aulas. Não é possível fazer nada no mundo sem professores. É um exército invisível. Vemos as obras prontas: o paciente curado, a máquina construída, o texto escrito e esquecemos que atrás de cada autor há um professor. Somos a malha invisível que dá coesão social”.

Após a entrevista, pode se facilmente compreender a importância da arte para os dias atuais. Os jovens precisam do próprio espaço em movimentos artísticos. Isso é uma forma de comunicação, política, arte, amor e muito sentimento. Expressão é o que move o mundo, a tão urgente nova geração vem trazendo grandes inovações para esse meio. Com isso em mente, aqui vão umas indicações de jovens artistas independentes que produzem um conteúdo único, atual e de alta qualidade:

• Pietra Padilla. Dançarina, jovem joseense, ela publica muitos conteúdos relacionados à dança em seu Instagram @p.ietra. Lá ela dá dicas, ensina e mostra sua própria produção.

• Luke Berry. Ele é um cantor e compositor paulista (@imlukeberry no Instagram). Seu último single “eu&tu” foi lançado no Spotify no dia primeiro de agosto. Ele já possui 6 músicas nessa plataforma, todas de muita qualidade.

• Letras e Razões. Esse é um perfil no Instagram (@letraserazões) administrado por três jovens. Lá, elas publicam poesia em forma de poemas e prosa. São textos muito bonitos e as publicações são sempre frequentes.

• Enrico Vasques. Em seu Instagram (@enboczar), ele publica covers e músicas autorais. Para quem gosta de MPB, é uma grande recomendação.

Com supervisão de Nicole Almeida

Apoio ao Talento:

Beatriz Costa de Paiva Pena | Colégio Poliedro
Beatriz Costa de Paiva Pena | Colégio Poliedro

Aluna do 1º ano do Ensino Médio do Colégio Poliedro, em São José dos Campos

Tags:rotativoPublicado em:

Posts Relacionados