Psicóloga esclarece dúvidas relacionadas à depressão e ao suicídio

“Não me entendam mal, não é errado querer ser feliz e ter sucesso, mas precisamos compreender que as coisas na vida real levam tempo e demandam dedicação e esforço”, afirma Gabriela Sforzin

Escrito por: Giovanna Vitória Pereira | EM Lúcia Pereira9 min de leitura
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O Meon Jovem entrevistou, na última sexta-feira (25), a psicóloga Gabriela Sforzin. Formada em psicologia pela Universidade de Mogi das Cruzes, especialista em logoterapia e análise existencial pela Associação Brasileira de Logoterapia e Análise Existencial Frankliana e terapeuta EMDR (abordagem focada no tratamento de traumas e fobias).

Na entrevista, Gabriela esclarece algumas dúvidas relacionadas à depressão e ao suicídio, trazendo orientações para pais e adolescentes.

Confira a entrevista:

Meon Jovem: Pode nos falar um pouco sobre sua área de trabalho, o que faz uma psicóloga?

Dra. Gabriela Sforzin: A psicologia é uma área da ciência que tem como foco o estudo do ser humano e suas interações. Desta forma, o psicólogo estuda os fenômenos psíquicos e comportamentais, as relações sociais nos mais diversos contextos e também questões relacionadas ao funcionamento fisiológico do cérebro humano. A atuação de um profissional da psicologia irá variar de acordo com o contexto que ele está inserido, como, por exemplo, se é em uma empresa, escola, hospital ou consultório. Porém, independente de onde estiver, o psicólogo costuma ter como foco o cuidado com a saúde mental, qualidade de vida e o respeito a singularidade das pessoas.

Meon Jovem: Quem pode recorrer ao seu consultório?

Dra. Gabriela Sforzin: Eu trabalho com atendimento clínico em consultório e meu público-alvo de atendimento são adolescentes e adultos, portanto, qualquer pessoa dentro dessas faixas etárias pode solicitar a minha ajuda. Costumo cuidar de pessoas que estão em tratamento por algum transtorno mental (depressão, ansiedade, fobias, traumas, etc), de pessoas que buscam autoconhecimento e também com orientação profissional para adolescentes e jovens.

Meon Jovem: Quais as causas prováveis de suicídio entre adolescentes e jovens?

Dra. Gabriela Sforzin: Para a psicologia, o suicídio é compreendido como uma forma de comunicação de um sofrimento psíquico intenso. Comumente, as pessoas que apresentam ideação suicida (pensamentos relacionados ao suicídio) e/ou tiveram tentativas de suicídio vivenciam uma sensação de desesperança e desamparo. Com relação às suas possíveis causas, é algo bastante complicado de definir, pois o suicídio costuma ser um fenômeno complexo e multifatorial, isto é, possui diversas causas.

Um estudo publicado no Boletim de Psicologia de 2015, analisou os principais fatores que levam adolescentes e jovens a terem ideações suicidas. São eles:

– Brigas ou problemas com os pais;

– Não ser escutado;

– Solidão e sentimento de desproteção;

– Violências em geral (bullying, cyberbullying);

– Preconceito e discriminação.

Pelo fato do suicídio ter diversas causas é muito importante não emitir julgamentos e conclusões precipitadas sobre pessoas que tentaram o suicídio.

Meon Jovem: De que forma o público jovem poderia minimizar os riscos de desenvolver uma depressão? É possível isso cuidando do nosso estilo de vida?

Dra. Gabriela Sforzin: A depressão é classificada como um transtorno mental, portanto, é um conjunto de alterações no funcionamento do cérebro que podem afetar o humor, o comportamento e os pensamentos. Hoje em dia temos diversos estudos científicos que nos mostram que a depressão pode se manifestar por razões variadas, como, por exemplo, predisposição genética, alterações bioquímicas no cérebro, característica de personalidade e fatores ambientais e sociais.

Desta forma, o tratamento para a depressão comumente é multidisciplinar, envolvendo uma combinação de medicação, psicoterapia e mudança de comportamentos e hábitos. Penso que manter uma rotina de vida saudável, com uma boa alimentação, sono de qualidade, atividades físicas regulares, bons relacionamentos e autoconhecimento sempre são bem-vindos e nos ajuda a manter a saúde mental e física em dia.

Meon Jovem: Os índices de suicídio entre adolescentes e jovens tem aumentado assustadoramente nós últimos tempos. Na sua opinião, o que tem levado muitos adolescentes e jovens ao suicídio? Como é possível mudar essa situação?

Dra. Gabriela Sforzin: Como expliquei acima, o suicídio é um fenômeno multifatorial, portanto, podem haver diversas explicações e hipótese que nos levam a pensar nas possíveis causas desse aumento. Há alguns estudos apontando que o tempo excessivo que os jovens estão passando nas redes sociais e jogos virtuais podem estar contribuindo para o aumento das sensações de desamparo, solidão, comparação e competitividade.

Outro fator relacionado ao aumento do uso de redes sociais e jogos é o distanciamento que isso promove da própria família e dos amigos, onde os adolescentes ficam cada vez mais isolados e distantes, dificultando a criação de relações sólidas, desenvolvimento de habilidades sociais e possibilidades de intercâmbio entre pais e filhos. Outra consequência da imersão no mundo virtual é o anseio que os jovens possuem por fama, felicidade, agilidade e zero frustrações. Não me entendam mal, não é errado querer ser feliz e ter sucesso, mas precisamos compreender que as coisas na vida real levam tempo e demandam dedicação e esforço.

Não existe uma receita mágica para mudar a situação, é um trabalho de formiguinha, que precisa ser constante. Segue algumas dicas:

– Cultive bons relacionamentos com amigos e familiares;

– Cuidado com os excessos. Lembre-se sempre do velho ditado popular ‘A diferença entre o remédio e o veneno é a dose’;

– Cuide da sua saúde. Durma bem, tenha uma alimentação saudável e movimente o seu corpo;

– Tenha consciência de que é normal ficar triste às vezes, todos nós eventualmente passamos por problemas, nos frustramos ou ficamos chateados. Mas se você sentir que está muito difícil lidar com esses sentimentos, peça ajuda. Procure uma pessoa de confiança para conversar.

Outro ponto importante de mencionar é que quando falamos de medidas de prevenção ao suicídio, falamos de um trabalho coletivo. É preciso a colaboração de todos os setores da sociedade para criarmos mudanças sólidas que ajudem as novas gerações a se desenvolverem de forma saudável e responsável. Portanto, a família, escola, comunidades religiosas e setores públicos precisam trabalhar juntos para construirmos uma sociedade pautada no respeito e na coletividade.

Meon Jovem: Como podemos identificar alguém que pensa em suicídio e como abordá-la para ajudar?

Dra. Gabriela Sforzin: Em alguns casos podemos perceber mudanças de comportamento e alguns sinais que indicam que a pessoa está passando por um sofrimento psíquico intenso. Algumas dicas do que observar no comportamento:

– Mudanças de comportamento, como, deixar de se interessar por algumas atividades que antes gostava;

– Isolamento, não querer sair com amigos ou conversar com familiares;

– Mudanças drásticas de humor;

– Sentimentos de desesperança e desespero;

– Falas relacionadas à vontade de morrer.

Caso você identifique algum desses sinais em algum colega ou pessoa conhecida, tente conversar com a pessoa ou procurar alguém que possa ajudar. Tudo bem se você não se sentir preparado para conversar ou não se sentir capacitado para ajudar. Neste caso, procure um adulto. Pode ser algum familiar, diretor, coordenador, professor da escola, líder religioso ou profissional de saúde.

Meon Jovem: A depressão pode ser curada sem ajuda profissional e medicamentos?

Dra. Gabriela Sforzin: No caso de uma depressão é pouco provável que a pessoa fique curada sem algum tipo de intervenção médica e/ou psicológica. Não é sempre que uma pessoa com depressão terá que fazer um tratamento com medicamentos, porém, para ter certeza do melhor tipo de tratamento é sempre importante procurar orientação de um médico psiquiatra.

Meon Jovem: Você acredita que através da escrita e da leitura alguém possa superar uma depressão, um medo ou alguma angústia?

Dra. Gabriela Sforzin: Eu particularmente sou fã da leitura, desde criança tenho o hábito de ler por lazer. Por isso acredito muito no poder que a leitura tem de não somente transmitir conhecimento, mas de nos inspirar, incentivar, alegrar e sonhar. Penso que a leitura e a escrita podem colaborar muito no tratamento de um transtorno mental e no enfrentamento de outras situações desafiadoras, porém essas atividades precisam fazer sentido para a pessoa. Ela precisa desejar ter o engajamento nessas atividades e encontrar algum alento na prática delas.

Meon Jovem: Que outras atividades podem ajudar no tratamento?

Dra. Gabriela Sforzin: Penso que as atividades que irão ajudar uma pessoa a enfrentar um transtorno mental ou outros desafios podem variar bastante, afinal, cada um tem gostos e habilidades distintas. No geral, atividades que envolvem movimento corporal e possibilidades de autoexpressão costumam trazer resultados bastante positivos para a saúde física e mental. A dica, neste caso, é: procure fazer atividades que você gosta ou tem curiosidade em fazer, mas até então nunca havia experimentado.

Meon Jovem: Que mensagem você deixaria para um adolescente ou jovem ou até mesmo para pais que tem em sua família uma pessoa sofrendo com depressão?

Dra. Gabriela Sforzin: Primeiramente, sinto muito por você ou pelo seu familiar que está sofrendo de depressão. Não é fácil, mas é possível sim recuperar a saúde e a qualidade de vida. Caso a pessoa não tenha iniciado um tratamento, ajude-a a procurar ajuda médica e psicológica. Caso o tratamento já esteja em andamento, tenha paciência e confie no processo de tratamento. Acolha e celebre cada pequena conquista. A melhora não vem da noite para o dia, é uma melhora gradual, vem aos poucos.

Aproveito para compartilhar com vocês uma indicação de livro para ajudar a compreender melhor o que é a depressão: “A tristeza transforma, a depressão paralisa”, do Dr. Neury J. Botega.

Meon Jovem: O que fazer para se ajudar uma pessoa que necessita de apoio? Qual o primeiro passo?

Dra. Gabriela Sforzin: Caso alguém próximo de você esteja necessitando de apoio, procure conversar sem criticar, ouça com atenção o que a pessoa está lhe dizendo, ampare e não julgue. Caso seja um amigo seu, procure um adulto para auxiliar no cuidado. Se você for o responsável pelo adolescente, a recomendação é após a escuta e acolhimento, buscar ajuda médica e psicológica.

Espaços onde é possível conseguir ajuda profissional:

1 – Centro de Valorização da Vida (CVV) – 188 ou através do site;

2 – Em caso de risco de suicídio iminente, ligar para 192 e solicitar atendimento;

3 – Unidade de Pronto Atendimento – (12) 3931-4211 ou na Rua Pituba, n° 100, no Jardim Satélite, em São José dos Campos (atendimento 24 horas);

4 – CAPS Infantil e Adolescentes – (12) 3942-8231 ou na Praça Ana Berling de Macedo, n° 282, no Jardim Jussara, em São José dos Campos (atendimento de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h);

5 – Clínicas Escola UNIP – Avenida Ademar de Barros, em São José dos Campos;

6 – Clínica Escola Anhanguera – Jardim Morumbi, em São José dos Campos.

Parceria:

Com supervisão de Nicole Almeida, jornalista do Grupo Meon.

Giovanna Vitória Pereira | EM Lúcia Pereira
Giovanna Vitória Pereira | EM Lúcia Pereira

Aluna do 7° ano do Ensino Fundamental II da Escola Municipal Professora Lúcia Pereira Rodrigues, em São José dos Campos

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