Afastamentos por transtornos mentais batem recorde no Brasil e acendem alerta no Vale do Paraíba

A pressão no ambiente de trabalho e as cicatrizes da pandemia ajudam a explicar por que a busca por atendimento psicológico cresceu em todo o estado de São Paulo

Escrito por: Meon Redação8 min de leitura
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Por Marco Jean

Em 2024, o Brasil registrou mais de 472 mil licenças médicas concedidas por transtornos mentais e comportamentais, segundo dados do Ministério da Previdência Social.

O número representa um aumento de 68% em relação ao ano anterior e é o maior da série histórica dos últimos dez anos. Ansiedade, episódios depressivos e transtorno depressivo recorrente lideram a lista de motivos que afastaram trabalhadores de seus postos.

Os dados não são apenas estatísticas federais. Em São José dos Campos, a rede municipal de saúde mental registrou crescimento de 130% nos atendimentos entre 2019 e 2022, conforme informações da Secretaria de Saúde da cidade.

A região do Vale do Paraíba, marcada por um polo industrial e tecnológico com empresas do setor aeroespacial, automotivo e de defesa, reúne características que amplificam a pressão sobre a saúde emocional dos trabalhadores: metas agressivas, rotinas de alta exigência técnica e competição constante por posições em um mercado qualificado.

O problema não é exclusividade de quem trabalha em grandes corporações. Profissionais autônomos, pequenos empresários e trabalhadores informais também relatam dificuldades.

A diferença é que, para esses grupos, o acesso ao diagnóstico e ao tratamento costuma ser mais lento, o que agrava o quadro clínico antes mesmo de qualquer intervenção.

O peso dos números e o que eles revelam

A Organização Mundial da Saúde classificou o Brasil como o país com maior prevalência de transtornos de ansiedade no planeta. Cerca de 18,6 milhões de brasileiros convivem com algum tipo de transtorno ansioso, o que representa 9,3% da população. A depressão atinge outros 12 milhões, colocando o país na quinta posição mundial.

Esses números já eram preocupantes antes de 2020. Com a pandemia, a situação se agravou. Dados da pesquisa Covitel 2023, conduzida pela Vital Strategies e pela Universidade Federal de Pelotas, indicam que 26,8% dos brasileiros receberam diagnóstico médico de ansiedade. Entre jovens de 18 a 24 anos, a prevalência sobe para 31,6%, a maior entre todas as faixas etárias pesquisadas.

No ambiente de trabalho, os reflexos aparecem com nitidez. Os afastamentos por transtornos de ansiedade cresceram mais de 400% em uma década: eram 32 mil em 2014 e chegaram a 141.414 em 2024.

Episódios depressivos quase dobraram no mesmo período, passando de cerca de 60 mil para 113.604. São trabalhadores que deixaram suas funções por semanas ou meses, muitas vezes sem entender o que estava acontecendo com eles até que o corpo e a mente não permitiram mais continuar.

O atraso no diagnóstico e suas consequências

Parte do problema está no tempo que as pessoas levam para procurar ajuda. Pesquisas do setor apontam que o intervalo médio entre o início dos sintomas e a primeira consulta com um profissional de saúde mental pode chegar a anos. Muitos confundem os primeiros sinais com cansaço comum, oscilação passageira de humor ou simples estresse do dia a dia.

A resistência em buscar atendimento psicológico ainda é grande, mesmo em regiões com alto nível de escolaridade e renda. O preconceito com o tratamento psicológico e psiquiátrico persiste. Há quem acredite que procurar um psicólogo é sinal de fraqueza ou que a terapia é indicada apenas para casos extremos.

Essa percepção atrasa diagnósticos e permite que transtornos tratáveis evoluam para quadros crônicos. Ansiedade generalizada que poderia ser manejada em poucas sessões se transforma em síndrome do pânico.

Episódios depressivos pontuais se tornam depressão recorrente. A insônia, que no início parecia um desconforto passageiro, compromete o sistema imunológico e a capacidade cognitiva.

Quando o corpo dá os sinais que a mente tenta ignorar

Taquicardia sem motivo aparente, dores musculares persistentes, problemas gastrointestinais sem causa orgânica identificada, queda de cabelo, bruxismo.

Esses são alguns dos sintomas físicos que frequentemente estão associados a quadros de ansiedade e depressão, mas que levam o paciente ao cardiologista, ao gastroenterologista ou ao dermatologista antes de chegar ao consultório de psicologia.

A somatização, como é chamada a manifestação de sintomas físicos com origem emocional, consome tempo e recursos do sistema de saúde. O paciente faz exames, recebe resultados normais e retorna para casa sem resposta. Esse ciclo se repete até que alguém na cadeia de atendimento identifique a origem emocional do problema e faça o encaminhamento adequado.

Profissionais com formação em psicoterapia psicanalítica, como o psicólogo Fabio Correa, que atua há mais de 20 anos com atendimento clínico e é pós-graduado pela UNIFESP, explicam que a escuta qualificada nas primeiras sessões permite identificar padrões emocionais que o próprio paciente desconhece. Essa avaliação inicial é o que diferencia um tratamento direcionado de uma sequência de consultas sem progresso.

O que mudou na legislação e por que isso importa

Em janeiro de 2025, entrou em vigor a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), do Ministério do Trabalho e Emprego. A nova redação obriga empresas a incluírem fatores de risco psicossocial no Programa de Gerenciamento de Riscos.

Na prática, empregadores passam a ter o dever legal de identificar e atuar sobre elementos como sobrecarga emocional, assédio, jornadas exaustivas e desequilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Para cidades como São José dos Campos, Taubaté e Jacareí, onde a concentração industrial é alta e a cobrança por produtividade faz parte da cultura corporativa, a nova norma tem implicações diretas.

Empresas que não se adequarem podem ser multadas, mas o impacto mais relevante é a abertura de um debate que ficou restrito por muito tempo aos consultórios e às rodas de conversa informais.

A medida não resolve o problema sozinha. Psiquiatras e psicólogos ouvidos por veículos especializados reforçam que a fiscalização precisa vir acompanhada de ações preventivas reais, e não apenas de palestras esporádicas e campanhas internas de conscientização que não alteram a estrutura do trabalho.

A rede de atendimento no Vale do Paraíba

São José dos Campos conta com quatro unidades do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), além de ambulatórios de saúde mental e uma unidade de emergência psiquiátrica 24 horas no Hospital Francisca Júlia, referência regional no atendimento em saúde mental desde 1972.

Em novembro de 2025, a cidade inaugurou um centro voltado exclusivamente ao tratamento de dependência entre adolescentes, ampliando para 100 o total de leitos públicos destinados a pacientes com transtornos psiquiátricos.

Ainda assim, a fila de espera para atendimento psicológico na rede pública pode variar de 15 dias a três meses, dependendo da complexidade do caso.

Para quem precisa de acompanhamento mais frequente ou de uma abordagem terapêutica específica, a rede privada acaba sendo o caminho mais rápido, embora financeiramente inacessível para boa parte da população.

A situação expõe uma contradição: o Brasil é o país com maior número de pessoas ansiosas do mundo, mas o acesso ao tratamento continua sendo um privilégio.

Apenas 46% dos municípios brasileiros possuem políticas ou programas de atendimento a pessoas com transtornos mentais, conforme dados compilados pela Série SmartLab de Trabalho Decente 2025, apresentados pelo Ministério Público do Trabalho e pela Organização Internacional do Trabalho.

O que avaliar antes de iniciar um tratamento

Buscar ajuda psicológica é uma decisão que envolve mais do que encontrar o profissional mais próximo. Alguns critérios podem orientar essa escolha.

A formação do psicólogo, incluindo especializações e tempo de atuação clínica, indica a profundidade da preparação técnica. A abordagem terapêutica utilizada (psicanálise, terapia cognitivo-comportamental, gestalt, entre outras) define o método de trabalho, e cada pessoa pode se adaptar melhor a uma delas.

A experiência prévia do profissional com o tipo de queixa apresentada também conta. Alguém que lida frequentemente com transtornos de ansiedade terá um repertório clínico diferente de quem se dedica a conflitos conjugais ou a transtornos de personalidade.

Outro ponto relevante é a regularidade do tratamento. Sessões semanais ou quinzenais permitem ao profissional acompanhar a evolução do paciente com mais precisão.

Interrupções frequentes ou intervalos longos entre os encontros podem comprometer o andamento do processo terapêutico, prolongando o tempo de tratamento e reduzindo sua eficácia.

Quando procurar ajuda não é mais uma escolha

Insônia que dura mais de duas semanas, irritabilidade constante sem causa identificável, perda de interesse por atividades que antes geravam prazer, dificuldade de concentração, sensação persistente de medo ou apreensão. Esses são sinais de que o organismo já ultrapassou o limite do que consegue administrar sozinho.

A recomendação de profissionais da área é clara: não esperar o quadro se agravar para buscar atendimento. A combinação entre diagnóstico precoce e tratamento adequado encurta o tempo de recuperação e reduz os riscos de cronificação.

No Vale do Paraíba, como em boa parte do estado de São Paulo, a demanda por atendimento em saúde mental continua subindo. Os dados federais e as filas nos serviços públicos da região confirmam que o problema é real, presente e urgente. Ignorar os sinais ou adiar a busca por ajuda profissional não faz o problema desaparecer. Faz com que ele cresça.

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