Motos elétricas avançam, robôs humanoides ainda engatinham: o raio-x da Eletrolar Show 2026

O evento reúne fabricantes de eletroeletrônicos que apresentam para os varejistas as principais novidades que estarão no mercado nos próximos meses.

Escrito por: Armindo Ferreira4 min de leitura
WhatsApp Image 2026-07-07 at 16.57.04

Os números da feira impressionam em qualquer critério. Mais de 100 mil metros quadrados, cerca de 5 mil marcas, 17 mil produtos e bilhões em negócios fechados. O setor de bens duráveis cresceu 11% em volume entre janeiro e maio de 2026. Linha branca subiu 16%, portáteis 15%. E pela primeira vez o canal online superou o físico, respondendo por 53,1% do faturamento.

Esse desenho tem explicação simples. O brasileiro só compra eletrônico se conseguir parcelar. Com boa parte da população endividada e juros altos encarecendo esse parcelamento, os produtos de entrada acabam levando a melhor. A feira reflete isso com clareza.

Robôs humanoides: a promessa segue distante.

Esperava ver mais robôs humanoides circulando pelos corredores. Vi pouco. O destaque ficou por conta da Arena Robot Park, com partidas diárias de futebol de robôs desenvolvidos por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos e da Universidade Federal de Goiás.

É admirável ver equipes brasileiras nesse tipo de projeto. Mas em campo o nível ainda é sofrível. Os robôs perdem a bola de vista, trombam uns nos outros, esquecem completamente o objetivo do jogo. Faz parte do aprendizado, já que uma partida desse tipo envolve muitas variáveis aleatórias.

Sou cético com o discurso em torno dos humanoides. A pergunta que faço sempre é direta: você colocaria um desses cuidando dos seus avós? Existem avanços reais, puxados por investimento pesado de China e Estados Unidos. No Brasil, o futebol de robôs virou metáfora sem querer do que acontece com boa parte da tecnologia nacional: depende de pesquisadores dedicados fazendo o possível com recursos escassos. A promessa existe. A distância também.

Motos elétricas: crescimento real, mas ainda fatia pequena

As motos elétricas foram a aposta que mais me chamou atenção, mas os números pedem cautela antes de qualquer entusiasmo.

O mercado de motocicletas como um todo vive o melhor momento em quase 20 anos. Entre janeiro e abril foram licenciadas 782.364 unidades, alta de 19,1% sobre 2025 e o melhor primeiro quadrimestre já registrado. A Abraciclo projeta 2,07 milhões de motos produzidas neste ano, alta de 4,5%, e 2,3 milhões licenciadas, avanço de 4,6%. Moto é hoje o meio de transporte que mais cresce no Brasil, empurrado por delivery, custo do carro e mobilidade urbana.

Isolando só a parte elétrica, o cenário muda de escala. Ela representa apenas 0,4% do mercado nacional de motocicletas, enquanto os carros eletrificados já somam 10,7% das vendas. Cinco marcas concentram 67% desse nicho ainda pequeno: VMoto na liderança, seguida por Shineray, a única fabricante tradicional de porte que entrou no segmento, Super Soco e GCX. O posicionamento dessas marcas mostra a estratégia: mirar a faixa de entrada e competir direto com as motos tradicionais de 150 cc e 160 cc, justamente o nicho do entregador.

Existe uma zona cinzenta que deve ganhar atenção regulatória em breve: veículos com motor até 50 cc ou velocidade até 50 km/h, que hoje dispensam CNH e emplacamento em determinadas condições. A resolução do Contran em vigor desde julho de 2023 separa os veículos elétricos leves por critério técnico, potência do motor e velocidade máxima de fabricação, não pelo nome comercial do produto. Patinete, skate, monociclo e bicicleta elétrica de pedal assistido sem acelerador, limitados a 32 km/h, seguem livres de registro, placa ou habilitação. Qualquer veículo com acelerador, motor elétrico de até 4 kW e velocidade de fabricação até 50 km/h entra na categoria ciclomotor, que já exige Renavam, emplacamento, capacete e habilitação categoria A ou ACC. Acima disso, é motocicleta e segue as regras plenas do Código de Trânsito.

Não é preciso ser especialista para prever o próximo capítulo. Se essas motos de baixa potência chegarem em volume às ruas, o poder público será obrigado a regulamentar.

Duas marcas na feira mereceram atenção especial. A BENLG, de Dongguan, está longe de ser uma montadora de fundo de quintal: produz entre 600 mil e 1 milhão de scooters por ano, tem mais de 20 anos de operação e presença em 65 países. O design retrô que remete à Vespa é assinatura da marca, vendida como linha urbana lá fora. Já a BOLIN Electric Motor aparece no Brasil em marketplaces e, pelo tamanho do estande, é uma marca disposta a brigar por espaço aqui.

Vi também um carrinho elétrico curioso, quase um tuc tuc.

O Brasil caminha assim entre dois ritmos diferentes: a promessa ainda distante dos robôs e a chegada concreta, embora tímida, das motos elétricas nas ruas.

Armindo Ferreira
Armindo Ferreira

Redator

Armindo Ferreira, que acumula mais de 15 anos de experiência na cobertura de tecnologia. Ao longo da carreira, passou pela TV Globo, foi colunista de tecnologia do SBT News, apresentador da TV Thathi SBT e é autor do Blog do Armindo, um dos mais antigos veículos independentes de cobertura tecnológic…

Tags:Meon techTecnologiaPublicado em: