Sob desgaste, Brasil mira vaga no Conselho de Segurança
BRASÍLIA DF (FOLHAPRESS) – O Brasil está em campanha para ser eleito pela 11ª vez membro rotativo do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), numa ação para consolidar o país como um dos mais frequentes participantes da entidade responsável por zelar pela paz na arena global. Apesar de diplomatas preverem que o Brasil…

BRASÍLIA DF (FOLHAPRESS) – O Brasil está em campanha para ser eleito pela 11ª vez membro rotativo do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), numa ação para consolidar o país como um dos mais frequentes participantes da entidade responsável por zelar pela paz na arena global.
Apesar de diplomatas preverem que o Brasil caminha para alcançar os dois terços de votos necessários entre os estados-membros das Nações Unidas, o país atravessa o pleito sob a sombra da imagem internacional desgastada do presidente Jair Bolsonaro.
Desde o início de seu governo, Bolsonaro acumulou confrontos com países europeus, mundo árabe, China e, mais recentemente, os Estados Unidos liderados pelo presidente Joe Biden.
A eleição está agendada para junho. O Conselho de Segurança é composto por cinco integrantes permanentes com direito a veto Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França e dez membros rotativos, que cumprem mandatos de dois anos cada.
A renovação de metade dos participantes não permanentes ocorre anualmente.
O principal trunfo do governo brasileiro é um robusto histórico de participações na entidade ao lado do Japão, o país que mais mandatos temporários cumpriu, além do fato de ser até o momento candidato único no grupo da América Latina e Caribe.
As vagas no conselho são definidas segundo as áreas geográficas. Os países latino-americanos tradicionalmente cumprem um acordo de rodízio para que não seja lançado mais do que um candidato.
Diplomatas que trabalham com o tema no Itamaraty têm monitorado se há disposição de algum outro governo latino-americano para lançar uma postulação concorrente à brasileira, mas relatam que até o momento não há indicativo de que isso vá ocorrer.
Além do mais, na mais recente ocasião em que ocorreu uma disputa interna no grupo da América Latina, o país que tinha a vaga prometida não encontrou grandes problemas para se eleger.
Em 2019, El Salvador tentou de última hora disputar o posto com São Vicente e Granadinas, mas obteve o apoio de apenas seis países. O pequeno Estado insular, por outro lado, recebeu 185 votos.
De acordo com diplomatas consultados pela reportagem, o tamanho e a importância do Brasil para a América Latina desencorajam a apresentação de candidaturas alternativas, embora a possibilidade não possa ser descartada até o final do processo.
Muitos países vizinhos endossam ainda a demanda histórica do Brasil de, em uma reforma da ONU, conseguir um assento permanente sem direito a veto no conselho, por considerarem que a América Latina está sub-representada da entidade.
Embora o Brasil seja considerado um candidato sólido na disputa para o mandato temporário, diplomatas avaliam que a guinada conservadora na política externa brasileira pode gerar alguma resistência à postulação do país.
O chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, está à frente da agenda bolsonarista. O país já tem enfrentado problemas diplomáticos em decorrência dos posicionamentos da ala ideológica do governo.
Antes considerado um interlocutor com boas condições de transitar entre países adversários, o Brasil de Bolsonaro tem rompido posicionamentos históricos e entrou em rota de colisão com vários parceiros tradicionais.
Interlocutores que acompanham o tema destacam principalmente o alinhamento do Brasil com Israel em temas relacionados ao conflito com os palestinos, o que provoca animosidade entre países árabes e o mundo islâmico.
A falta de engajamento do governo Bolsonaro com a África e a decisão de apoiar os Estados Unidos na votação na ONU sobre o embargo em Cuba também são apontadas como ações que causam desconfiança de outras nações.
O ex-chanceler Celso Amorim que presidiu os trabalhos do Conselho de Segurança em 1999 opina que dificilmente o Brasil não será eleito. Mas destaca que as posições adotadas por Bolsonaro podem levar o país a ter uma votação abaixo de performances anteriores.
“Sem outro candidato [do grupo latino-americano] é difícil não ser eleito. Agora, o Brasil pode ter uma votação baixa que seja desmoralizante. O Brasil era eleito praticamente com a unanimidade dos votos. Às vezes um ou dois [países] não votavam no Brasil, mas era para mostrar mais insatisfação com o sistema de escolha do que com o Brasil”, diz Amorim.
“Vejo uma perda de prestígio do Brasil, que no fundo afeta a capacidade de atuação no Conselho”, afirma o ex-chanceler.
Procurado, o Itamaraty disse que tem “buscado angariar o mais amplo apoio possível ao pleito” brasileiro. O ministério afirmou ainda que a candidatura do Brasil está ancorada em compromissos históricos do país com a “paz e a segurança internacionais e com a defesa e proteção dos direitos humanos, das liberdades fundamentais e da dignidade humana”.
“O governo brasileiro continuará a defender o papel do Conselho de Segurança na prevenção e resolução de ameaças à paz e à segurança internacionais, sempre de acordo com os propósitos e princípios estabelecidos na Carta das Nações Unidas e em respeito à soberania de todas as nações”, afirmou a pasta.
“Ademais, [o governo] compromete-se a manter, na medida de suas capacidades, contribuição efetiva para missões de paz das Nações Unidas”, declarou a chancelaria.
Posts Relacionados

Visto americano: nova regra limita a três as mudanças em entrevistas

Padre morre após ser atingido por cruz durante missa transmitida ao vivo no Equador

Papa Leão XIV recebe alta hospitalar após cirurgia para tratar câncer de pulmão
