O emocionante ‘Jovem Tigre’, na vertente dos Dardenne
Renata de Almeida gosta de repetir o que dizia Leon Cakoff, criador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ela, como herdeira do legado, empenha-se em fazer uma seleção de qualidade. Seu ideal, como era o de Leon, é que o espectador – presumivelmente, cinéfilo – compre qualquer ingresso e entre para ver não importa qual filme, na…

Renata de Almeida gosta de repetir o que dizia Leon Cakoff, criador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ela, como herdeira do legado, empenha-se em fazer uma seleção de qualidade. Seu ideal, como era o de Leon, é que o espectador – presumivelmente, cinéfilo – compre qualquer ingresso e entre para ver não importa qual filme, na certeza, mais que expectativa, de que será bom. Mas o público quer ver os filmes que já chegam precedidos de uma reputação.
E se, nesta terça-feira, 3, para variar, o cinéfilo fosse conferir Jovem Tigre, que terá sua última sessão na Mostra? O filme do francês Cyprien Vial passa-se na comunidade sikh na periferia de Paris. Tem algo de outros dois filmes da Mostra – o brasileiro Aspirantes, de Ives Rozenfeld, e o também francês Dheepan, o Refúgio, de Jacques Audiard, que venceu a Palma de Ouro. A surpresa talvez seja constatar que o modesto Bébé Tigre (título original) é tão bom, senão melhor, que o longa consagrado de Audiard.
O “bebê” é esse garoto de 15 anos que chega à França não propriamente em busca de oportunidade, mas vendido pelos pais, na distante Índia, para uma vida de trabalho escravo. O jovem ator chama-se Hermandepp Palminder. É excepcional.
Many – é seu nome no filme – era um bom estudante em seu país de origem, mas agora é só um ilegal. Por ser menor, uma assistente social ocupa-se do seu caso e quer lhe arranjar uma família. Kamal, para quem a família vendeu o garoto, só quer que ele cumpra o contrato. E, nos raros contatos telefônicos, os pais só querem saber quando Many vai lhes enviar dinheiro. A necessidade empurra o garoto para o trabalho clandestino.
Há algo dos irmãos Dardenne nessa história. Um pouco de O Filho, outro tanto de O Silêncio de Lorna, que também era sobre uma imigrante dividida entre a necessidade econômica e as escolhas éticas. Na verdade, o grande drama de Many é o seu desejo de assimilação no novo mundo, inclusive com a possibilidade de um romance que se abre para ele, e o compromisso com o velho mundo ao qual, por laços familiares (e de honra), continua preso. Com os defeitos que possa ter, Bébé Tigre é emocionante. Um belo filme. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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