O primeiro dia
O primeiro de janeiro pode ser todo dia ou pode ser nunca


Festa do Reveillon
Reprodução
Já nos dias antecedentes você sente uma estranha força te empurrando pra frente. Novos projetos, novos desafios, novas conquistas. Verdade bem posta, velhos projetos e velhos desafios, agora vestidos de branco, com cara de novos.
O primeiro dia do ano surge imponente no horizonte: aberto, convidativo, ensolarado e você sente que pode tudo,é um superherói.
Mesmo com uma dose de etanol além da recomendável circulando nas veias, você mantém a firmeza de propósitos: arrisca uma caminhada mesmo sob um sol inclemente de fritar miolos.
Desembrulha aquele livro que ganhou no amigo invisível quatro anos atrás, lê a introdução e promete que neste ano vai ler mais, muito mais, o que não será tarefa difícil, já que não leu absolutamente nada no ano que se foi.
Também jura que cuidará mais dessa carcaça maltratada que carrega sua alma involuída: até arrisca uns abdominais no chão do banheiro.
Mas tamanha energia e obstinação se assemelham aos círculos que a lagoa gera nomergulho de uma pedra: cada vez mais fracos e distantes do foco original.
O teste de fogo é a primeira segunda feira do ano. O ímpeto arrefece e é quase impossível expulsar da cabeça aquele pensamento traiçoeiro:
“Ah, o ano está apenas começando, ainda há muitos dias para tirar o atraso e cumprir as promessas do ano novo, é só hoje, amanhã eu retomo o ritmo das coisas…”.
É a primeira semente do pé de vendaval: logo você estará procrastinando metas para a próxima segunda, para depois do carnaval, para o sábado (de aleluia), para o próximo mês, para depois do aniversário… E quando se dá conta,nos escombros de outubro, o ano seguinte começa a lhe acenar maroto, como um amigo sumido que te conhece melhor do que ninguéme você finge que aquele sorriso de escárnio não é com você.
Mas logo dezembro chega de novo, e você acredita, com razão, que tudo podeser diferente, a despeito das evidências constrangedoras do seu passado recente.
Alguns evolucionistas dizem que isso é fruto de uma tendência ancestral de poupar energia que nos move a ficar imóveis, mesmo com tanta disposição inicial de cumprir as novas velhas metas.
Psicólogos dizem que estamos em eterno conflito entre o nosso eu cognitivo (aquele que deseja aprender inglês, emagrecer, comer mais espinafre, ler livros e levar uma vida mais saudável) e aquele ser das cavernas que habita um espaço imperscrutável lá pelos rincões basais do prosencéfalo: as forças inconscientes que impactam na maior parte das decisões que tomamos.
Não, nãoéfácil, mas é sempre possível vencer a si mesmo, romper com velhos hábitos, sair da letargia e (aleluia!) riscar da lista de pendências aquelas metas que você vem rescrevendo há vários réveillons.
E nem precisa ser primeiro de janeiro (em várias outras culturas o primeiro dia do ano é comemorado em outra data do calendário). O primeiro de janeiro pode ser todo dia ou pode ser nunca. A decisão é sempre sua.
Mãos à obra, e feliz ano novo!
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