O ritmo natural do Pantanal mato-grossense

Na seca, é bom para ver os bichos; na cheia, faça passeios de barco

Escrito por: Tiago Queiroz6 min de leitura
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1466989176669.jpg O ritmo natural do Pantanal mato-grossense (Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo)

São 12 tipos de pantanal, que englobam quatro biomas:
Amazônia, Cerrado, Chaco e Mata Atlântica

Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo

O pantanal que habitava meu imaginário era o dos jacarés, das onças e das fazendas de gado, bichos que vinham embrulhados em chocolate na infância. Essa versão encontrei na cidade de Poconé, a quase 100 quilômetros de Cuiabá. Mas, em apenas cinco dias pelo Mato Grosso, descobri que havia não apenas um, mas muitos “pantanais”.

São precisamente 12, que englobam quatro grandes biomas: Amazônia, Cerrado, Chaco e Mata Atlântica. Somam 150 mil quilômetros quadrados. Nossa viagem, de cinco dias, se concentrou na porção norte – além de Poconé, fomos a Jaciara e Cáceres.

Em Jaciara, o pantanal exalava adrenalina. Dotado de uma beleza generosa, o Rio Tenente Amaral apresenta quedas d’água perfeitas para rapel e rafting. Cáceres, por sua vez, é dos amantes da pesca. Ali, fugi do roteiro básico e percorri uma paisagem de cerrado, com chapadões convidativos e uma trilha para uma grande piscina natural, a Dolina da Água Milagrosa.

A câmera pede cliques a todo momento, em cenários ora grandiosos, ora minimalistas.

1466903176827.jpg O ritmo natural do Pantanal mato-grossense (Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo)

Nossa viagem, de cinco dias, se concentrou na porção norte
Conhecemos Poconé, Jaciara e Cáceres

Tiago Queiroz/Estadão CO


Ares de cerrado

A paisagem ganha ares de cerrado no caminho para a Dolina da Água Milagrosa (acesso pelo km 12 MT-343), passeio clássico para quem vai a Cáceres. A lagoa, em forma de funil, tem águas azuis cristalinas na seca (agosto e outubro) e esverdeada nas cheias. É preciso fôlego para chegar até lá: a trilha é curta, mas repleta de trechos íngremes – incluindo uma longa escadaria de madeira, de 154 degraus.

Adrenalina
A primeira lembrança de Jaciara é a sensação da água batendo no rosto. Rafting e rapel nas cachoeiras do Rio Tenente Amaral são as principais atividades na cidade, a 144 km de Cuiabá. Em botes infláveis para até seis pessoas, o rafting inclui uma pequena preparação em terra antes da descida, de 2h30, em uma água geladinha e refrescante. No percurso, os participantes são encorajados a pular dos barcos nas áreas mais calmas – uma delícia! As quedas d’água são intensas, mas nada que cause muito medo. Antes do passeio terminar, os guias manobram os botes para entrarmos numa espécie de tubo fluvial, garantindo emoção extra. Com a Nativão (nativao.com.br; R$ 100 por pessoa.

Poço sem fundo
Histórias de que nem mergulhadores profissionais conseguiram chegar ao fundo da dolina divertem turistas e locais. Para não poluir as águas – e garantir a saúde dos peixinhos – pede-se que os visitantes não usem protetor solar.

Rapel na cachoeira
No cachoeirismo, os visitantes descem a Cachoeira da Fumaça de rapel, em uma atividade que dura a 2h30 e custa R$ 120 com a Nativão. Não é tão radical? Você pode apenas visitar a cachoeira: R$ 25, com guia.

Pinturas rupestres
Uma caminhada de 3 km leva ao Vale das Perdidas, uma área de mata de transição ente o cerrado e a Amazônia repleta de pinturas rupestres. A guia Nélida Maneiro explica as propriedades medicinais e os perfumes das plantas encontradas pelo caminho.

Azul profundo
A Dolina da Água Milagrosa tem 180 metros de profundidade e, para entrar na água, só com colete salva-vidas. O proprietário do sítio, Lauriano Cebalio, de 63 anos, observa atento a flutuação dos turistas, que dura de 30 a 40 minutos.

Princesinha do Pantanal
Banhada pelo Rio Paraguai, na fronteira com a Bolívia, Cáceres, a 2h30 de Cuiabá, ganhou o apelido de Princesinha do Pantanal e é uma velha conhecida dos adeptos da pesca esportiva. Eles fretam barcos, as chalanas, para passar dias pelo rio em busca de pintados, pacus, matrinxãs e outros peixes. Seu festival anual de pesca (FipeCaceres), realizado no início de junho, é repleto de shows e eventos especiais.

Procissão fluvial
As procissões fluviais pelo Rio Paraguai são uma tradição em Cáceres. Em outubro, barcos de vários tipos e tamanhos celebram o Dia de Nossa Senhora Aparecida enfeitados com bandeiras brancas e azuis. Neste ano, tive uma sorte extra: vi a procissão em março, quando a imagem peregrina da santa passou pela cidade mato-grossense.

Cultura local
Misto de ateliê e lojinha de artesanato, o Espaço Cultural Viana Costa apoia grupos folclóricos locais, como violeiros de viola de cocho, instrumento rústico feito pelos pantaneiros com madeira de chimbuva, uma árvore nativa. Homens dançam o cururu e as mulheres, o chorado, equilibrando graciosamente garrafas na cabeça. Não vá embora da cidade sem provar alguns pratos típicos da culinária pantaneira, como o pacu assado e o Maria Izabel, arroz com carne seca temperado.

POCONÉ
Transpantaneira
A 102 km de Cuiabá, Poconé é conhecida por ser uma das entradas para a Transpantaneira, estrada criada em 1974 para servir de rota de transporte do gado no período de cheia. De Poconé a Porto Jofre, ponto final da estrada, são 146 km de terra batida, sem postos de gasolina no caminho, mas com alguns hotéis-fazendas.

Alvorecer
O Sesc Pantanal é uma boa opção de hospedagem pela região, com uma reserva particular de 107 mil hectares e ótima infraestrutura. Entre os tours, o Alvorecer, como o nome sugere, leva para ver o nascer do sol dentro do rio. Matizes de um azul profundo começam a se misturar a uma faixa magenta no horizonte, colorindo o skyline pantaneiro. Não tenha preguiça de acordar cedo – o visual compensa.

Bichos
Figurinhas fáceis pelo pantanal, os jacarés passam boa parte do tempo imóveis, mas podem ser bem rápidos para abocanhar uma presa. Para ver mamíferos, o melhor é ir durante os meses de seca, mas é preciso sorte para observar a onça pintada. Há poucos exemplares do animal, em vias de extinção.

Igarapés
Outro passeio leva os visitantes pelas curvas dos igarapés, passando por comunidades ribeirinhas, cujos moradores vivem essencialmente da pesca. Essas áreas são berçários naturais de diversas espécies.

Pássaros
Birdwatchers – ou observadores de pássaros – fazem a festa no pantanal. O guia Gonçalvi, pantaneiro nativo dotado de uma visão meio-homem, meio-onça, tinha uma impressionante clareza visual para observar os bichos camuflados em meio à vegetação. O primeiro a ser apresentado foi o tachã, conhecida como a sentinela do Pantanal. A ave ganhou esse nome porque, na iminência de qualquer perigo, emite um som compreendido em toda a mata: “É hora de procurar abrigo”. Mais para frente, observamos o esbelto maguari em um voo esplendoroso. Também vimos dois tipos de tucanos, o araçari e o toco. As cavalarias, em bando, encantam com suas cabeças vermelho-fogo, enquanto o martim-pescador está sempre atento para não perder a próxima presa.

1466903205936.jpg O ritmo natural do Pantanal mato-grossense (Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo)

Benedito Alves do Rosário, o Dito Verde, ao lado de sua viola de cocho

Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo

Saiba mais
Como chegar: ida e volta em agosto começa em R$ 360 na Latam, R$ 514 na Avianca e R$ 566 na Gol; em julho, mês de férias, opções partem de R$ 800

Onde ficar: vinculado ao Sesc Pantanal, o hotel Sesc Porto Cercado fica perto de Poconé e tem ótima infraestrutura; diária desde R$ 173 por pessoa e day use desde R$ 80. Crianças e matriculados no Sesc pagam meia

Melhor época: abril a setembro é época de seca, boa para ver animais; na cheia, de outubro a março, faça passeios de barco

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