O trunfo econômico da criatividade chega na região
A economia criativa está mudando o jeito como nos relacionamos, trabalhamos e até nos locomovemos. Você está preparado para a revolução?


Sala destaca-se pela excentricidade nas cores
Pedro Ivo Prates/Meon
Em meio às onze empresas de tecnologia avançada incubadas no Cecompi (Centro para a Competitividade e Inovação do Cone Leste Paulista), em São José dos Campos, uma sala destaca-se pela excentricidade nas cores e mobília, além de um vai e vem inquieto de pessoas, na maioria jovens, carregando notebooks e câmeras e, vez em quando, contorcendo-se para atender o telefone.
É assim, sem rotina mesmo, que o Creative Space — espaço concebido para lapidar talentos da economia criativa — vem promovendo uma pequena revolução conceitual na cidade. Sim, conceitual. Pois é neste ambiente avesso às linearidades da rotina tradicional que estes profissionais aprendem o princípio básico da economia criativa: utilizar sua criatividade e seu capital intelectual como matéria-prima para garantir o pão de cada dia.
A economia criativa é um conceito abrangente, com 14 setores contemplados (confira quadro nesta reportagem), e que, cada vez mais, vem mudando a nossa forma de nos relacionarmos com o mundo.
Cabeça criativa por trás da Comic Con, megaevento de cultura pop que aconteceu no início de dezembro, o empresário Pierre Mantovani afirma, em entrevista ao canal “Foras de Série”, do YouTube, que estamos presenciando a revolução preconizada na virada para os anos 2000. “Hoje você vê empresas quebrando os modelos tradicionais. Podemos, por exemplo, enfiar um Uber e falar: ‘cara, esse povo vai quebrar os taxistas’. Ou um Airbnb quebrar os hotéis. Um Waze, mudando a finalidade do uso do GPS. A hora em que a internet teve massa social, ou seja, todo mundo passou a ter acesso, aí começou, na minha opinião, o que muita gente esperava para o ano 2000, que é mudar completamente o modelo que está aí”, explica durante trecho da entrevista.
O espaço situado no Cecompi incentiva futuros empresários a atuarem nessas novas plataformas. Na cidade da tecnologia, YouTube, Facebook, blogs e os mais diversos aplicativos são a área de interesse do criador do Creative Space, Armindo Ferreira. Professor universitário, empresário e entusiasta das redes sociais, Ferreira encara a empreitada como um empurrãozinho necessário para uma cidade que ainda não desenvolve seu potencial criativo. “Ao mesmo tempo em que São José tem essa marca de inovação, nossa cultura do emprego tradicional, aquele de bater cartão, é muito forte. E estamos presenciando um momento em que essa relação de trabalho está mudando drasticamente. Eu ando bastante por aí e, numa dessas viagens, um amigo me fez a seguinte provocação: ‘como você colabora para despertar talentos que existem aí na sua cidade?’ Foi quando resolvi dar vida ao projeto. O Cecompi embarcou na ideia e nosso Creative Space começou a tomar forma. Hoje ajudamos pessoas que têm blog, que fazem vídeos na internet, que têm ideias para aplicativos ou que possuem uma página no Facebook a transformar esta atividade em um meio para ganhar a vida”, explica.
Valores
Mas não basta apenas ganhar a vida. Na concepção de economia criativa, a questão mais importante é como ganhar a vida. Isso porque valores imateriais, como o relacionamento com o consumidor ou a sustentabilidade, são diferenciais para atrair um público que, além de produtos ou serviços, consome também os princípios adotados pela empresa.
É o que acontece com a advogada e blogueira Stéphanie Brasil, de São José. A advogada é responsável pelo Maternólatra (www.maternolatra.com.br), blog especializado em maternidade. Criado em 2011, quando Stéphanie engravidou pela primeira vez, o espaço reúne não só notícias relacionadas ao tema, mas também discute o papel da maternidade em nosso contexto social. Seguindo esse compromisso, o blog promove encontros entre as mamães e ainda vai além, com uma rede de relacionamentos entre as mães empreendedoras, que prestam qualquer tipo de serviço.
“O que eu faço é manter uma relação muito próxima de confiança com o público. Já temos mais de 1.200 curtidas na nossa página do Facebook, onde também mantenho um relacionamento direto com as mães. Quando fecho algum contrato de parceria com uma marca, é como se fosse uma indicação pessoal. Só falo do que acredito de verdade, se coloco qualquer coisa ali naquele espaço, perco o que mais prezamos no blog, que é a credibilidade daquilo que estamos dividindo com os leitores”, comenta.
Essa relação de confiança com os leitores é campo fértil para o crescimento de uma relação publicitária mais justa. Afinal, para chegar a esse público segmentado, a marca precisa passar pelo crivo de uma mídia que só aceita o que for realmente vantajoso para seus seguidores. Daí nascem ações que evidenciam conceitos e não apenas o lucro.

Tiago Serrano e César Kawamura
Pedro Ivo Prates/Meon
Ganha-ganha
Criar uma nova relação comercial, mais justa, integrada e capaz de promover conexões entre as pessoas é a contribuição revolucionária da economia criativa. Aplicativos como o Uber ou Airbnb estão abalando estruturas de setores (táxis e hotelaria, respectivamente) consolidados e obrigando-os a reestruturar seu relacionamento com os clientes.
E não é só nos grandes mercados que os modelos de economia criativa estão mudando as relações com o público consumidor. Em São José dos Campos, a dupla Tiago Serrano e César Kawamura criou a plataforma Quero.Lá (www.quero.lá), um programa de fidelidade online que já possui mais de 60 estabelecimentos cadastrados na cidade.
Mas não se trata de um programa comum. Funciona assim: o usuário cadastrado pode avaliar as lojas da rede. Atendimento, preço, localização, tudo pode ser especificado pelo usuário. A cada avaliação feita, o usuário ganha R$ 5 em pontos, que podem ser trocados nas lojas cadastradas. “O programa de fidelidade é uma forma de economia colaborativa, no qual a rede de estabelecimentos (formada por pequenas lojas) se beneficia aumentando suas possibilidades de clientela por estar em um mapa virtual que apresenta lojas com descontos para os usuários. Outro benefício é o feedback dos clientes. Com as avaliações feitas sobre o seu estabelecimento, o empresário passa a ter mais ferramentas para entender onde precisa melhorar”, comenta Kawamura.
O site já conta com cerca de 7,5 mil usuários cadastrados e oferece aos estabelecimentos descontos no plano à medida que o número de avaliações aumenta. O valor, que é de R$ 75 por mês para estar entre as empresas cadastradas, pode cair a R$ 25 caso a loja conte com mais de 100 usuários mensais.
Mercado
Este tipo de negócio ainda é incipiente no país. Corresponde a apenas 2% das empresas abertas no Brasil. Mesmo assim, o jogo está virando. De acordo com o Mapeamento da Indústria Criativa do Brasil, documento publicado pela Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro) em dezembro do ano passado, de 2004 para 2013 o PIB (Produto Interno Bruto) criativo do país subiu de R$ 74,3 bilhões para R$ 126,1 bilhões. De acordo com o levantamento, a indústria criativa, até 2013, era composta por 892,5 mil profissionais formais, alta de 90% se comparado a 2004, dez anos antes de o mapeamento ser realizado.
Nesses dez anos, houve crescimento em todas as áreas criativas. Tecnologia, com 102,8%, foi a que mais cresceu, seguida por Consumo (100% de crescimento), Mídias (58%) e Cultura (43,6%).
Além de mais oportunidades, as áreas criativas também pagam melhor. No que se refere à remuneração, enquanto o rendimento médio mensal do trabalhador brasileiro era de R$ 2.073 no ano em que a pesquisa foi divulgada, o dos profissionais criativos chegou a R$ 5.422, quase três vezes superior ao patamar nacional.
Personalização
Outra grande diferença da economia criativa para a tradicional passa pela personalização dos produtos e serviços. Uma alternativa para a produção em massa. Na prática, trata-se de oferecer às pessoas opções que se encaixem em suas rotinas. Utilizando o exemplo do iPhone: apesar de vir de fábrica um igualzinho ao outro, cada pessoa irá personalizar o aparelho como lhe convém, com planos de telefonia e internet diferentes, com aplicativos diferentes, proteção de tela, capa, fonte. Ao atender a demanda específica de um grupo de pessoas, inverte-se a lógica tradicional da indústria como é hoje, que padroniza seus produtos para que as pessoas se adequem a eles.
O coordenador da área de negócios do Senac São José dos Campos, Jair Gustavo de Mello, é um estudioso desta nova vertente da economia. Ele defende a economia criativa como um modelo dos tempos modernos, mais inteligente e igualitário.
“É uma forma de usar a tecnologia a favor do bem comum, e não com essa lógica exploratória de mercado. A economia criativa é sustentável, constrói redes, estimula o contato e a colaboratividade. Dá voz aos consumidores, aumenta as opções e ajuda a melhorar os serviços oferecidos. Então imagine que você quer promover um jantar em sua casa. Pode entrar num aplicativo, escolher um chef de cozinha bem avaliado e ter uma comida de restaurante em casa”, comenta.
O que é?
Um conjunto de atividades comerciais que utilizam a criatividade como matéria-prima. Fazem parte da economia criativa os setores de Gastronomia, Arquitetura, Publicidade, Design, Artes, Artesanato, Moda, Cinema e Vídeo, Editoração e Publicações, Softwares de lazer, Música, Fotografia, Inovação no Varejo e Televisão.
Por que se importar?
Por dois fatores principais. O primeiro porque as conexões e valores promovidos, principalmente pela faceta tecnológica da economia criativa, estão mudando nossa relação com o mundo. Waze, Uber, Airbnb e outras plataformas são exemplos disso. O segundo é a constatação de que, cada vez mais, as oportunidades de emprego estão migrando para estas áreas. Com salários convidativos, diga-se.
Como se preparar?
Tanto para quem quer empreender quanto para quem quer adequar seu negócio às novas possibilidades, a ordem é qualificação. Cursos com ênfase em marketing e mídias sociais são bons caminhos.
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