Os desafios para o trânsito de São José
Trânsito em horário de pico na avenida São João Will Dias/Meon Com o crescimento da frota de veículos nos últimos anos, São José dos Campos agora tem um novo desafio: pensar na mobilidade urbana para os próximos anos. O trânsito intenso em principais localidades da cidade já ecoa a preocupação da população e do Poder […]


Trânsito em horário de pico na avenida São João
Will Dias/Meon
Com o crescimento da frota de veículos nos últimos anos, São José dos Campos agora tem um novo desafio: pensar na mobilidade urbana para os próximos anos. O trânsito intenso em principais localidades da cidade já ecoa a preocupação da população e do Poder Público com o tema.
Na maior cidade da região, o tráfego intenso é configurado nos horários de picos, principalmente, no horário e saída de escolas e do trabalho. Na cidade, 600 mil pessoas circulam numa frota de 281 mil carros, 61 mil motos, 1,7 mil ônibus, 9 mil caminhões, além de 51 mil utilitários, entre caminhonetes, vans, e reboques. Ao todo, São José possui uma frota de 403 mil veículos.
Nesse ‘turbilhão’ do trânsito e na tentativa de colocar regras para o sistema viário, o governo federal determinou, por meio da lei 12.587/2012, que as cidades com mais de 20 mil habitantes definam seus planos de mobilidade, até 30 de abril. Com a medida, as cidades que proporem os planos continuarão a receber recursos para investir na área.
Com isso, São José se organizou, fez audiências, seminários e oficinas e deve apresentar seu plano no final de abril. Esta reportagem amplia o debate e traz as opiniões de especialistas renomados sobre a mobilidade e as cartas que a cidade tem na manga para melhorar a qualidade de vida de sua população.
Gargalos
Toda cidade tem seus problemas, e todas as regiões têm suas reclamações. Entre os gargalos do trânsito da cidade, alguns trechos são velhos conhecidos dos motoristas.
Morar na região sudeste de São José é conviver diariamente com a mudança. É a região que mais cresce, do ponto de vista populacional na cidade. A população praticamente dobrou nos últimos dez anos e com isso vieram os desafios, como não poderia deixar de ser, a mobilidade tem sido o maior deles.
O bancário Edison Pereira Faria, 56 anos, mora há 28 anos no bairro São Judas Tadeu, às margens da rodovia dos Tamoios. De todas as dificuldades que enfrenta dentro do próprio bairro, a que lhe custa mais paciência é sair de casa rumo à região central.
“De ônibus leva mais ou menos uma hora daqui até a praça Kennedy. Já de carro, se você for fora dos horários de pico, são dez minutos. Agora se você quiser sair daqui perto das sete da manhã e após às cinco da tarde, esquece. O trânsito que vem ou vai para a Embraer, Aeroporto e toda aquela região enche a entrada do bairro”, conta Faria.
Os moradores relatam que mesmo com a abertura da ligação Tamoios/Aeroporto, o fluxo ainda é grande. Sem ser o uso de automóveis, deixar a região de bicicleta é tarefa para poucos atletas. “Somos bairros feitos nas montanhas, em terrenos acidentados, não tem muitas ciclovias. Além de perigoso é difícil conseguir encarar todos os morros, não dá”, avalia o bancário.
Faria que já foi líder comunitário, se acostumou a recolher as opiniões dos vizinhos e a pensar o melhor para sua região. “A gente precisa de investimentos. Vão chegar mais moradores. A via Cambuí vai ajudar, mas também pode melhorar a ligação entre o Santa Júlia aqui na sudeste com o Novo Horizonte na leste, que é feita por muita gente hoje via estrada de terra”, conclui Faria, que aposta nessas obras para melhorar a qualidade de vida na sua região.
Outro gargalo apontado não só pelos usuários, mas por especialistas em mobilidade em São José, é a grande rotatória no Jardim Colinas.
Ela é o palco do encontro do tráfego que vem dos quatro cantos da cidade: são pessoas vindo do anel viário, centro, do Urbanova, Jardim Aquarius e demais bairros ao entorno. Como avalia Eduardo Ramalho, diretor da empresa Sentran, especializada em cidades inteligentes e mobilidade urbana, o trevo do Colinas é eterno e frenético ao ir e vir, durante todo o dia.
“Lá nem tem mais horário de pico. Não tem muito o que fazer. Talvez pensar em um viaduto ou mudar as regras semafóricas. É com certeza um grande desafio para a administração. Morei anos no Aquarius e outro problema é o planejamento dos próprios bairros, que foram feitos com ruas estreitas. Mobilidade começa no planejar”, aponta Ramalho.
‘Bicicletada’
Tem gente que acha que a saída talvez é desligar um pouco os motores. Todas às quartas-feiras, um grupo de 200 ciclistas se reúnem em frente ao Parque Santos Dumont, região central de São José, para fazerem aquilo de melhor que gostam: pedalar. A pedalada que acontece no período noturno tem como destino o bairro Urbanova, que ilumina os trajetos da cidade com os diversos participantes.
Coquinho, liderança dos ciclistas na cidade, diz que a prática esportiva incentiva as mudanças de hábito na vida dos praticantes. “É um esporte maravilhoso de se praticar, que além de contribuir para a saúde, também incentiva boas práticas”, conta.
Ele também afirma que os investimentos em malhas viárias contribuem para a prática na cidade. “Abriram vários espaços para nós [ciclistas], com ciclovias pela cidade e isso permite esse incentivo ao uso da bicicleta”, diz.
Já para Ramalho, especialista em mobilidade, os investimentos para a mobilidade com bicicleta têm que ser cada vez maiores. Esse meio de transporte limpo, rápido e econômico já tem mudado a rotina de muitas cidades ao redor do mundo.
“Às vezes a gente não vai de bicicleta porque não tem nem onde parar, simplesmente. Não há paraciclos [suporte para colocar a bicicleta] e nem bicicletários. Em Nova York, comerciantes têm investidos nos ciclistas, outros países no mundo investem não só em ciclovia, mas na cultura de ciclistas. Em São Paulo, aqui mesmo, tem lugar para bicicleta no metrô, tem toda essa estrutura crescente. Tem o sistema de bike share, as bicicletas compartilhadas. Essas ações vão mudando o hábito das pessoas e estão além das ciclovias”, pontua Ramalho.
Alternativas
Na análise da gestora de projetos do Ipplan e urbanista, Lívia Toledo, São José possui boas vias, nas quais são possíveis se pensar no planejamento da mobilidade urbana, desde os menores para os maiores meios do transporte -a pé, ciclovias, carros e ônibus-. A pesquisa encabeçada por Lívia e outros especialistas do instituto revela ainda que investir nos menores transportes deve ser o foco principal da cidade.
“Com as centralidades de deslocamentos na cidade, ou seja, quando os moradores realizam as atividades nos bairros de destino, é necessário também se estimular as formas leves do transporte. A construção de novas ciclovias na cidade é uma alternativa que surte efeito positivo no sistema e que está dando certo”, avalia.
Outro projeto importante, o BRT (Bus Rapid Transit), batizado como Mobi, também pode ser uma alternativa para o transporte. “Com a implantação do BRT na cidade, todas as linhas também devem ser adequadas para o atendimento rápido do usuário, com corredores expressos e que priorizem a interligação entre as regiões, com a criação de troncos de alimentação do sistema”, diz.
Para Lívia, a obrigatoriedade do plano também fez com que as cidades pensassem e discutissem o tema com amplitude. “As cidades estão agora implantando novas ideias e discutindo o tema, com propostas a médio e longo prazo, pensando na reestruturação do transporte”, explica.
Os projetos
O secretário de Transporte, Luiz Marcelo Silva Santos, conta que São José dos Campos está agora pensando a mobilidade urbana como um todo, envolvendo diversas vertentes, como ciclovias, ampliação de vias, implantação do BRT e projetos para desafogar o trânsito em horários de pico em algumas regiões da cidade.
“Desde 2013 estamos investindo nas mudanças de mobilidade urbana em São José, priorizando o pedestre e apostando na bicicleta como modal, tendo como base a legislação e fazendo um movimento de forma planejada”, explica o secretário.
Segundo a Secretaria de Transportes, a proposta é implantar ainda este ano outras expansões dos corredores de ônibus por todas as regiões de São José, nos mesmos moldes da região central.
De acordo com Santos, os focos serão as regiões leste e sudeste, que atualmente possuem maior concentração de deslocamentos e de fluxo de veículos. Em estudo realizado pela Ipplan (Instituto de Pesquisa, Administração e Planejamento), em São José, 44% das pessoas utilizam o carro como transporte, 2,4% a motocicleta, 18% o transporte coletivo, 23,4% fazem suas tarefas a pé e 2,6% de bicicleta.
Com base na pesquisa, a prefeitura quer fomentar o uso do transporte coletivo e a pé na cidade, além da previsão de aumentar a demanda de linhas em todas as regiões. “Com o Bilhete Único, a expansão do projeto de corredores de ônibus e a travessia segura para o pedestre, é possível melhorar pontos críticos no trânsito da cidade, como na avenida Tancredo Neves, avenida Astronautas e trevo do Colinas”.
Com essas medidas, em determinados locais, queremos resolver os pontos de grande fluxo”, afirma o secretário de Transportes, Luiz Marcelo Silva Santos.
Para Ramalho, São José está no caminho certo. “A cidade tem tomado decisões acertadas, investindo nas faixas exclusivas de ônibus, com o BRT, que será sensacional, com as ciclovias. Pode e deve investir mais em tecnologia, porque a tecnologia melhora a qualidade de vida, em redes semafóricas por toda a cidade ligada à central e claro na mobilidade por bicicleta, que é onde os países de primeiro mundo tem investido”, diz o diretor da Sentran que completa: “Às vezes na administração pública você tem que se basear em dados técnicos e fazer o que é melhor e mais viável, mesmo que isso não agrade a princípio a todo mundo”.
Exemplos
Curitiba é uma das principais cidades brasileiras a inspirarem projetos na área de mobilidade. Tendo como ‘filho’ o projeto do BRT, e reconhecimento internacional, a proposta também levou São José a buscar ideias na cidade curitibana. “O BRT aplicado em Curitiba é referência quando se fala do assunto, pois mostra a interligação do sistema, além da interligação cicloviária também aplicada em Joinville”, diz Lívia Toledo, urbanista.
Outro projeto avaliado de forma positiva é a restrição de carros no centro de Paris, a partir de 1º de julho deste ano, de forma gradativa. A proposta é que o trânsito na região central tenha mais fluidez e prática de caminhada e o uso de bicicletas e veículos elétricos sejam incentivados. “Temos Paris, que propôs a não utilização dos veículos e o incentivo ao uso das bicicletas. Já em São José, também queremos incentivar o uso das bicicletas com a implantação de 20 estações públicas no centro. Com isso, também vamos implantar mais paraciclos pela cidade e devolver ‘a rua’ para as pessoas, com segurança e estrutura”, afirma o secretário de Transportes, Luiz Marcelo Silva Santos.
Debates
Com a importância do assunto, encontros estão sendo realizados na cidade. A mobilidade urbana é destaque de principais eventos, como o São José 2030, que realizou a terceira edição neste ano e contou com a participação do arquiteto e urbanista Jaime Lerner e do engenheiro Ozires Silva.
“Estamos discutindo como será o planejamento da cidade para os próximos anos e da materialização dos projetos. Devemos estimular esse movimento e pensar no que queremos para a cidade”, diz o engenheiro Ozires Silva.
No ano passado, outro importante evento, o Seminário Internacional de Mobilidade Urbana, promovido pela AEA (Associação dos Engenheiros e Arquitetos de São José dos Campos), colocou em discussão a Mobilidade Urbana Sustentável.
“Por trazer informações das melhores opções de mobilidade espalhadas pelo mundo, o seminário pode ajudar já que todo zoneamento deve começar por um bom planejamento de mobilidade”, afirma o engenheiro civil Carlos Vilhena, sobre a contribuição dos seminários no planejamento da cidade.
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