Por disco com clima de roça, Ligia Kamada ‘encara’ crowndfounding
“Yermandê” é o primeiro disco solo da cantora do Salve as Kamadas Líricas


Vivência em Monteiro Lobato deu o tom da maioria das composições
Letícia Kamada/Divulgação
Depois de experimentar os delírios acelerados de metrópoles como São Paulo, Barcelona e Paris, a cantora Ligia Kamada vive em ritmo de aquietação. Há pouco mais de três anos a paulistana mudou-se para a pacata Monteiro Lobato, onde apurou seu contato com a terra e as coisas da roça. Nada que a tenha transformado numa espécie de ermitão caipira, afinal o grosso de seu trabalho ainda está na margem urbanoide da civilização, mesmo assim, a cantora de alma itinerante parece ter encontrado raízes em terras valeparaibanas.
A atmosfera de silêncios da experiência interiorana é a alma do primeiro trabalho solo de Ligia, “Yermandê”. O disco apresenta nove músicas autorais, foi gravado no estúdio Traquitana, em São Paulo e conta com a participação de músicos do Bixiga 70 entre outros nomes da cena paulistana. A inspiração para o nome veio de um dialeto senegalês e, traduzindo, significa Compaixão.
“Convivi com senegaleses enquanto estive na Europa e, à época, essa palavra já me chamava bastante a atenção. Quando gravamos essa música, no estúdio a opinião foi unânime e, assim, o disco foi batizado. Achei muito interessante, porque minha incursão na cultura africana foi marcante e engrandecedora”, conta.
Se o batismo do trabalho remete ao tempo em que a cantora esteve fora do país, as composições são carregadas de elementos bastante conhecidos por quem nasceu no Vale do Paraíba. Mais da metade das músicas foram feitas em Monteiro Lobato, o que confere um sotaque caipira a esse primeiro trabalho de Ligia.
“É uma experiência que tem me ajudado bastante a mudar minha forma de encarar o mundo. Sempre fui influenciada pela realidade ao meu redor e essa realidade de estar em contato com os animais, subindo e descendo ladeira, respirando ar puro, está muito presente nas músicas do disco”, afirma.
Financiamento
O material está sendo financiado por meio de crowndfounding, cujas contribuições podem ser realizadas por meio do site da cantora na plataforma Kickante. A meta da campanha é atingir os R$ 15 mil para cobrir os gastos com a finalização e distribuição do disco.
“É um desafio que vale a pena encarar. A cena aqui de São José está passando por um momento em que o espírito de mobilização está fazendo muitas coisas acontecerem. Os artistas com os quais eu tenho contato têm uma entrega para valorizar seu ofício que é incrível. Acho que é um momento em que a região está entrando no mapa cultural e isso vai ser muito importante para que financiamentos como esse façam os trabalhos saírem do papel”, explica.
Integrante do grupo Salve as Kamadas Líricas, um dos expoentes dessa nova leva de artistas regionais, Ligia acredita na sonoridade adotada pelo trio que, além dela, também conta com Gabriel Salve e Marcelo Lira. De acordo com a cantora, a banda já está sendo notada por pessoas importantes e, em breve novidades podem rolar.
“Muita gente que eu conheço na Europa acha que precisamos levar o grupo para excursionar por lá e que o nosso som está muito de acordo com o que está rolando em algumas casas. É uma possibilidade, quem sabe em 2016 a gente não amplie nossos horizontes”, conclui
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