Ocupação das escolas cria senso de responsabilidade em estudantes

Unidades continuarão ocupadas até que governo ‘assine o documento’

Escrito por: Adriano Pereira4 min de leitura
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“Nunca tinha cozinhado na minha vida. Aqui, fiz comida para 40 pessoas”. A declaração da estudante Tayane Lima, de 16 anos, aluna da Escola Estadual Moabe Cury, na zona sul de São José dos Campos, reflete uma mudança no comportamento da maioria que participou das ocupações das escolas em protesto contra a reorganização proposta pelo Governo do Estado.

Cozinhar, limpar, pintar e até colocar trancas em banheiros foram tarefas do cotidiano dos alunos neste período de 17 dias de ocupação. Apesar de viverem boa parte da vida dentro deste espaço, nunca antes esses alunos se envolveram dessa maneira, com o comprometimento de cuidar do local onde estudam. “Agora a gente sabe que a escola é nossa, a relação muda”, diz Bianca Andrade, de 15 anos.

Na escola Miguel Naked, no Jardim Morumbi, os alunos realizaram trabalhos que não eram feitos há anos pela administração pública. A tranca do banheiro é um exemplo. “Eu trouxe a tranca de casa, do meu quarto. Fazia 6 anos que a porta do banheiro não fechava”, diz Daniel Gomes, de 18 anos.

O Meon visitou as duas escolas de São José e conferiu de perto o nível organizacional colocado em prática no cotidiano das ocupações. Durante esses dias, professores voluntários deram aulas de temas variados, com discussões e debates de ideias sobre temas diversos, os alunos cuidaram da própria alimentação, limparam banheiros, quadras poliesportivas e organizaram até uma agenda cultural. A comida, os livros e os materiais usados na limpeza e pintura foram doados.

“Essa movimentação é a coisa mais bonita dos últimos anos. Deu esperança pra gente, para muitos que pensavam que essa juventude era alienada e não pensava nos problemas do País. Eu acho que aprendi mais com eles do que eles comigo”, conta Taís Pilegge, publicitária que foi dar aulas de consumismo para os alunos da Miguel Naked.

A consciência criada nos alunos agora vai além da ocupação. “Nós queremos que o governo mantenha a decisão de não ‘reorganizar’ o ensino, mas também queremos o diálogo, o debate. O sistema de ensino tem que ser diferente”, diz Edmar Luiz, de 18 anos. “Eu quero passar aqui na frente com meu filho um dia e dizer que eu lutei por isso”, completa.

É a mesma opinião da estudante Blenda Laís Domiciano, de 18 anos. “Temos outras questões que também precisam ser vistas. Professores que entram na sala e não dão bom dia, enchem o quadro com informações e não abrem a boca. Temos muito a melhorar”.

Ocupação continua
“Recebi a mensagem dos estudantes e seus familiares e respeito essa mensagem, com suas dúvidas e preocupações em relação à reorganização das escolas aqui no Estado de São Paulo. Por isso, a nossa decisão de adiar a reorganização e rediscuti-la escola por escola com a comunidade, com os estudantes e, em especial, com os pais dos alunos”, disse o governador Geraldo Alckmin hoje em entrevista coletiva.

“A ocupação continua até que ele assine o papel cancelando isso”, diz a estudante Tayane Lima. Essa declaração é unânime entre os quase 100 alunos que estão divididos nas duas escolas ocupadas em São José. A ideia é sair apenas quando o governo assuma o compromisso de não realizar a reestruturação que foi proposta. Além disso, eles querem garantias de que nenhum professor que tenha dado apoio ao movimento seja punido.

Segundo o Governo do Estado, os estudantes continuarão matriculados nas escolas onde hoje estudam. Suas matrículas serão automáticas. “Entendemos que temos que aprofundar o diálogo, que já está sendo feito há meses e isso acontecerá em 2016”, completou o governador.

Nossa reportagem esteve hoje (4) em dois horários diferentes nas escolas. Pela manhã, na Miguel Naked, dois representantes da Diretoria de Ensino tentavam convencer os alunos a deixarem a escola. Não houve sucesso.

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