Revoluções musicais do século XX: A época de ouro no Brasil
Apesar das experimentações musicais dos vanguardistas europeus e da consolidação definitiva do jazz como protesto comportamental e produto industrial nos EUA, o Brasil, por sua vez, ainda semeava seu vigor cultural durante a década de 1930. Era um período de manifestações nacionalistas, dentro de uma política ditatorial conhecida como Estado Novo, liderada pelo presidente Getúlio Vargas

Apesar das experimentações musicais dos vanguardistas europeus e da consolidação definitiva do jazz como protesto comportamental e produto industrial nos EUA, o Brasil, por sua vez, ainda semeava seu vigor cultural durante a década de 1930. Era um período de manifestações nacionalistas, dentro de uma política ditatorial conhecida como Estado Novo, liderada pelo presidente Getúlio Vargas.
Com a censura aos meios de comunicação, ao teatro, à música e ao cinema, as manifestações populistas de Vargas encontraram alento na obra folclórica de Villa-Lobos, além dos sambas batucadas, do partido alto e do samba corrido. No Largo do Estácio, bairro carioca surgido no final do século XIX, nascia a famosa figura do malandro, com seus atributos de valentia e esperteza. O bairro também engrossava a concentração de foliões carnavalescos.
Na Estácio, juntamente com outras escolas (Mangueira, Estação Primeira), se ouvia samba todo dia, nas peixadas, feijoadas “fundo de quintal”, esquinas e bares. Foi quando começou a se criar um novo estilo de samba, chamado primeiramente de samba urbano – onde as canções eram cantadas em coro por todo o grupo, passando a adquirir um formato fixo e empregando o surdo como marcação (o que trazia mais cadência ao estilo).
Tais inovações interessaram tanto o mercado, que gravadoras como Odeon, Victor e Columbia (que assinariam com Carmem Miranda e Sílvio Caldas) passaram a se interessar pelo lado criativo e empolgante das músicas populares. Com isso, os músicos começavam a gravar discos mais elaborados e arranjados.
Um grupo importante, o Gente do Morro, trazia um estilo inusitado, misturando a percussão do samba com os fraseados do choro – dando origem ao samba-canção, o samba-choro e o samba de breque. Para satisfazer o mercado e os produtores, faltava apenas conectar essa música à concepção das orquestras jazzísticas – com os naipes de sopro e a bateria. E quem acabou tornando isso possível foi Pixinguinha, o músico mais completo do período.
Pixinguinha resgatava a riqueza das melodias mais rústicas e ainda inseria orquestrações e arranjos elaborados às suas canções. Isso acabou instigando as fábricas de discos estrangeiras a buscar diversos estilos regionais brasileiros como maxixe, cocos, emboladas, valsas, modinhas, samba, marcha de carnaval e outros. Além disso, toda produção musical da década de 30, que viesse da cultura nacional, seria apoiada pelo rádio (agora com válvulas e alto-falantes) – que acabou aproximando ainda mais a arte do público.
A música brasileira passaria a dominar o mercado nacional entre 1930 e 1945, durante toda a ditadura de Vargas. O programa de rádio “A Hora do Brasil”, criado pela propaganda populista do governo, também procurava disseminar a sonoridade tupiniquim, intercalando música de cantores, música orquestrada e música instrumental.
Esta verdadeira época de ouro da música brasileira somente acabaria com a mudança das políticas americanas em relação à América Latina, depois do fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945 – quando os EUA, enquanto vencedores, passariam a disseminar pelo mundo suas ideologias, representadas fortemente pelo cinema de Hollywood.
Também em 1945, um golpe político derrubaria Getúlio Vargas, decretando o fim do Estado Novo. Depois disso, o predomínio cultural americano – durante o governo Dutra – passaria a considerar antiquado tudo que era regional ou nacionalista, numa urgência trazida pela chamada “modernização da cultura” – um conceito de progresso e abertura cultural que se alastrava pelo mundo.
Pelo grande interesse americano na América Latina, também houve, nesse período, uma forte invasão dos ritmos latinos como bolero, calipso, salsa, congas e outros – ritmos orquestrados e dançantes que se tornariam a nova tendência do período. É evidente que a maioria popular, ainda adepta ao pensamento nacionalista, buscava recuperar suas ideias reelegendo Getúlio Vargas – mas sua insistência por soluções populistas acabou o levando ao fracasso (e ao seu suicídio em 1954).
Nesse novo período, a década de 1950, a entrada de produtos importados no Brasil foi devastadora. O samba-canção tornou-se praticamente um bolero. Os ritmos populares regionais eram desprezados pelo mercado fonográfico. Contra essa decadência, nasceria um grupo de insurgentes, no final dos anos 1950, filhos de uma classe média industrializada. Eram jovens abastados, cultos, desligados das tradições populares, que começaram a reconstruir o samba, com melodias mais complexas e acompanhamentos mais jazzísticos, dando origem ao “samba de bossa-nova”, assunto de nossa próxima coluna.
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